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Não
era Maria, conforme o hábito de nomear as mulheres da família,
em honra da Mãe de Jesus. Tinha outro nome, outro temperamento,
outra vida, como não podia deixar de ser. Afinal, Mãe de Deus
não é para gente do século XX ou XXI aqui na Terra. Exige
santidade maior do que a dos santos e beatos todos, sacrifício
pleno de bens e prazeres materiais. Supõe Perfeição.
E
minha mãe, mulher-síntese de várias deusas gregas, nunca desejou
ser perfeita. De Deméter, herdou o caráter de mãezona; de Atena,
a feição de luta, de Afrodite, o verdadeiro amor, embora
recatada, como convinha à época.
Tinha paixões – reuniões de canto, festas de aniversário,
bate-papos... tudo dentro do círculo restrito: irmãos, primos e
raras amigas. Vizinhas, nunca. Podia se intrometer demais.
Soltava reclamações, desabafos. Natural. Deus me livre se não os
tivesse! Teria morrido cedo, de mágoa embutida, e não aos quase
noventa anos. Além do mais, faria exagerarem-se os meus próprios
desesperos.
Não
me fez voar para longe. Agarrava-se aos filhotes talvez em
demasia. Não me proveu de intelecto racional e pragmático porque
sua sensibilidade vinha antes. Não me cumulou de riquezas
materiais porque não as valorizava. Não me enchia de presentes
de grife porque fabricava minhas roupas até meu casamento,
tirando inspiração das grandes lojas do Centro do Rio, ao tempo
em que a Rua do Ouvidor e a Gonçalves Dias ditavam a moda. Não
me deu destemor porque também tinha medos: de aranhas, trovoadas
e, sobretudo, de marido zangado. Não me machucou com angústias
porque nunca leu Freud e nem sabia o que isso significava. Não
me proporcionou infância e adolescência serenas porque não
sabia do homem nervoso, escondido no guapo “janota” de terno
branco de linho, chapéu e bengala do tempo do namoro. Não me
decorou a casa com muito bom gosto porque não freqüentava
artistas e salões. Não me arranjou muitos irmãos porque tinha
pavor de parto e de gravidez, em época de se parir com muita
força e muita dor os “rebentos”. Não me incentivou vaidades
tolas porque não as cultivava: um simples batom bem vermelho e
estava tudo resolvido. Não me forçou a religião dos fanáticos
porque era católica muito crítica.
Em
compensação, deu-me o mais que imprescindível: a alegria de
viver em boas gargalhadas, sempre que a vida dá chance; o jeito
espontâneo de ser graciosa, apesar de seus tiques de nascença; a
vontade de água a jorrar em cima do corpo; o gosto pelas
viagens, a cantar pela estrada afora: - “ Olha o boizinho, olha
a beleza das árvores cheiinhas de quaresmas -, palavras ecoadas
por meu pai, revelado – e aliviado - no outro papel principal do
“road movie”.
E,
mais que tudo, deu-me a garra de viver.
Maria
José Lindgren Alves
07-05-007 |