Maria Lindgren

Minha Nossa 

Não, gente, preciso desabafar. Não apenas por causa do calor boçal que encobriu os cariocas de um jeito que nem edredon de país de trinta graus negativos faria melhor. Mas as aventuras vividas nos dias da pior canícula de um verão que teimava em não se assumir até março, tenho de as narrar, se não sufoco de vez. Inda mais que terminei a noite defronte à tevê, crente que ia relaxar, e topei com Tropa de Elite, aquele absurdo de filme sobre a absurda cidade em que o Rio se transformou.

Lágrimas misturadas ao suor, apesar do ar condicionado ligado, testemunharam o fim de um dia estúpido que começou cedo, logo pela manhã, numa tentativa de ida à psi de muitos anos consertar um furo extra de minha cabeça dura (ou seria mole, derretida?). Banho frio bem rápido, nada no estômago para não embrulhar o dito cujo mais ainda, com o calor já adiantado das dez da manhã e a ansiedade dos neuróticos, parto num táxi para andar dois ou três quarteirões, que não sou idiota de me escaldar a pé.

Chego, pois, adiantada e mais tensa ainda. Tenho que esperar uns vinte minutos até me acalmar na doce poltrona de minha analista. Passo em loja mixuruca e lembro-me de comprar calcinhas de algodão puro na única e preciosa loja, que não me enche de alergia as partes pudendas com lycras, poliésteres e outras americanices imitadas pela mamacada  mundial. Falando sério, rezo a Deus para que com a crise atual a falta de imaginação melhore e se aproveite o que os países têm de seu e bom ).

A lojinha de dois por dois exibe a palavra mágica SALE por todo lado, portanto, está entupida de mulheres suarentas, gordurosas, mal vestidas, pior penteadas, todas na ânsia de comprar mais barato, na tal liquidação tapeadora dos cariocas: roupa de baixo, maiôs e biquinis com 60% de desconto, imagina! Em meio à balbúrdia, grito à caixa minha conhecida o que quero, pago à vista e espero me mandar rápido. Só que uma das compradoras, segura-me pelo papo e me pede que a ajude a decidir sobre um maiô horroroso para a mãe,  senhora de manequim 48, no mínimo.

Não pude recusar. Palpitei sobre o menos escandaloso e saí da loja, pensando em tomar um expresso no café-oásis do prédio de minha psi, de ar condicionado tão frio que a gente pede para diminuir, veja só. Mal olho para a bolsa grande, que uso atravessada e virada para a barriga, e noto a falta da carteira gorda de documentos, com algum dinheiro e três cartões de crédito. Pálida, quase a desmaiar, volto à loja milagrosamente vazia, como se um cientista de filme, num sopro de fole mágico literalmente tivesse tornado invisíveis todas as freguesas.

Nada. Nem carteira vazia, para consolo meu e das vendedoras aflitas.

Desesperada, cambaleio em direção à sugadora oficial de meus problemas mentais e, em tremedeira de Parkinson, lhe imploro uma sessão telefônica, ela num telefone, eu, no outro, para tentar salvar alguma coisa e bloquear o possível. Levo um tempo de confessionário antigo para conseguir linha e falar de meus queixumes mais que justos, nada neuróticos. Resultado: hora um pom, pom, pom de linha ocupada, hora uma voz de paulista, que reconheço pelos erres e pela entonação italianada: - aperte o botão 2 para...; -  o 3 para...; - ou aguarde o atendimento. Deu tempo de ser assaltada em todo o meu parco salário e em mais algum de meu marido, nesta espera eletrônica desesperadora.

Desistindo da vida na parte de fora da cidade, fujo de táxi para minha casa. Chego com labirintite, zonza e enjoada, com enxaqueca insipiente, suor sem resquício de perfume, e jogo palavras em cima da empregada que, coitada, cozinha no fogão e no forno ambos acesos, vejam só:

- Pronto! Não tenho mais nem UM tostão. Me roubaram toda. Até meus papeizinhos de pegar consertos de roupa foram embora. Vou ficar sem meu cordão de ouro, sem minha blusa nova, meu Deus! Mandei consertar logo hoje.

E lá se foram emails rabiscados, recém adquiridos, cartões de lojas úteis, como a do podólogo e do cabeleireiro, lembretes de CPF de gente que preciso ter e nunca acho...

- Minha nossa! Como é que a senhora vai ficar? O mês tá começando...É bom avisar o doutor pra ele trazer dinheiro. Desculpe perguntar, mas como é que a senhora pagou o táxi?

- Minha psicóloga, menina. Sem ela, tava frita.

E lá vieram histórias de gente assaltada nos ônibus da cidade todos os dias. Na Central, então!

- Teve uma amiga minha que ficou só com a roupa do corpo porque roubaram a roupa que a vizinha tinha lavado pra ela.

- Teve um amigo, que tirou o salário todinho do banco, colocou dentro do sapato e, mesmo assim, levaram tudo.

- Teve um outro, motorista de ônibus, que entregou toda a féria prum garoto de revólver...

- Teve mais um que...

A modorra do calor de 40 graus ainda no corpo, o som da voz de minha empregada, o teor da conversa, a desgraça de quem tem menos sempre pior do que a nossa, o aconchego refrigerado da casa... me embalaram, bebê de colo na cadeira de balanço da mamãe. Caí no sono. 

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