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Não, gente, preciso desabafar.
Não apenas por causa do calor boçal que encobriu os cariocas de
um jeito que nem edredon de país de trinta graus negativos faria
melhor. Mas as aventuras vividas nos dias da pior canícula de um
verão que teimava em não se assumir até março, tenho de as
narrar, se não sufoco de vez. Inda mais que terminei a noite
defronte à tevê, crente que ia relaxar, e topei com Tropa de
Elite, aquele absurdo de filme sobre a absurda cidade em que o
Rio se transformou.
Lágrimas misturadas ao suor,
apesar do ar condicionado ligado, testemunharam o fim de um dia
estúpido que começou cedo, logo pela manhã, numa tentativa de
ida à psi de muitos anos consertar um furo extra de minha cabeça
dura (ou seria mole, derretida?). Banho frio bem rápido, nada no
estômago para não embrulhar o dito cujo mais ainda, com o calor
já adiantado das dez da manhã e a ansiedade dos neuróticos,
parto num táxi para andar dois ou três quarteirões, que não sou
idiota de me escaldar a pé.
Chego, pois, adiantada e mais
tensa ainda. Tenho que esperar uns vinte minutos até me acalmar
na doce poltrona de minha analista. Passo em loja mixuruca e
lembro-me de comprar calcinhas de algodão puro na única e
preciosa loja, que não me enche de alergia as partes pudendas
com lycras, poliésteres e outras americanices imitadas pela
mamacada mundial. Falando sério, rezo a Deus para que com a
crise atual a falta de imaginação melhore e se aproveite o que
os países têm de seu e bom ).
A lojinha de dois por dois exibe
a palavra mágica SALE por todo lado, portanto, está entupida de
mulheres suarentas, gordurosas, mal vestidas, pior penteadas,
todas na ânsia de comprar mais barato, na tal liquidação
tapeadora dos cariocas: roupa de baixo, maiôs e biquinis com 60%
de desconto, imagina! Em meio à balbúrdia, grito à caixa minha
conhecida o que quero, pago à vista e espero me mandar rápido.
Só que uma das compradoras, segura-me pelo papo e me pede que a
ajude a decidir sobre um maiô horroroso para a mãe, senhora de
manequim 48, no mínimo.
Não pude recusar. Palpitei sobre
o menos escandaloso e saí da loja, pensando em tomar um expresso
no café-oásis do prédio de minha psi, de ar condicionado tão
frio que a gente pede para diminuir, veja só. Mal olho para a
bolsa grande, que uso atravessada e virada para a barriga, e
noto a falta da carteira gorda de documentos, com algum dinheiro
e três cartões de crédito. Pálida, quase a desmaiar, volto à
loja milagrosamente vazia, como se um cientista de filme, num
sopro de fole mágico literalmente tivesse tornado invisíveis
todas as freguesas.
Nada. Nem carteira vazia, para
consolo meu e das vendedoras aflitas.
Desesperada, cambaleio em
direção à sugadora oficial de meus problemas mentais e, em
tremedeira de Parkinson, lhe imploro uma sessão telefônica, ela
num telefone, eu, no outro, para tentar salvar alguma coisa e
bloquear o possível. Levo um tempo de confessionário antigo para
conseguir linha e falar de meus queixumes mais que justos, nada
neuróticos. Resultado: hora um pom, pom, pom de linha ocupada,
hora uma voz de paulista, que reconheço pelos erres e pela
entonação italianada: - aperte o botão 2 para...; - o 3
para...; - ou aguarde o atendimento. Deu tempo de ser assaltada
em todo o meu parco salário e em mais algum de meu marido, nesta
espera eletrônica desesperadora.
Desistindo da vida na parte de
fora da cidade, fujo de táxi para minha casa. Chego com
labirintite, zonza e enjoada, com enxaqueca insipiente, suor sem
resquício de perfume, e jogo palavras em cima da empregada que,
coitada, cozinha no fogão e no forno ambos acesos, vejam só:
- Pronto! Não tenho mais nem UM
tostão. Me roubaram toda. Até meus papeizinhos de pegar
consertos de roupa foram embora. Vou ficar sem meu cordão de
ouro, sem minha blusa nova, meu Deus! Mandei consertar logo
hoje.
E lá se foram emails rabiscados,
recém adquiridos, cartões de lojas úteis, como a do podólogo e
do cabeleireiro, lembretes de CPF de gente que preciso ter e
nunca acho...
- Minha nossa! Como é que a
senhora vai ficar? O mês tá começando...É bom avisar o doutor
pra ele trazer dinheiro. Desculpe perguntar, mas como é que a
senhora pagou o táxi?
- Minha psicóloga, menina. Sem
ela, tava frita.
E lá vieram histórias de gente
assaltada nos ônibus da cidade todos os dias. Na Central, então!
- Teve uma amiga minha que ficou
só com a roupa do corpo porque roubaram a roupa que a vizinha
tinha lavado pra ela.
- Teve um amigo, que tirou o
salário todinho do banco, colocou dentro do sapato e, mesmo
assim, levaram tudo.
- Teve um outro, motorista de
ônibus, que entregou toda a féria prum garoto de revólver...
- Teve mais um que...
A modorra do calor de 40 graus
ainda no corpo, o som da voz de minha empregada, o teor da
conversa, a desgraça de quem tem menos sempre pior do que a
nossa, o aconchego refrigerado da casa... me embalaram, bebê de
colo na cadeira de balanço da mamãe. Caí no sono. |