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Dias de
chuva sempre me fazem um pouco tristonha. Como os poetas
românticos, ligo sentimentos trágicos a raios, chuva
forte, ventania... Dia de sol, de céu azul e, no máximo,
nuvens brancas, me chamam ao prazer. Salvo, se o calor
for de rachar. Então, peço chuva.
Era uma
noite de outono. O calor dos dias anteriores não
combinava com o comum desta estação no Rio, de dias
imaculados. Abafado, úmido, intragável, o verão
permanecia, a chuva, só ela, nos daria refresco.
Saí do
coral em direção ao taxi, quando começou o pé d´água.
Nem cinco minutos e um trabalhão para entrar no taxi,
com minhas pernas curtas demais para tamanha poça junto
à calçada, na rua principal do Leblon. Virei–me para
minha companheira do grupo das cantantes do Colégio
Santo Agostinho:
-
Menina, tá chovendo pra burro! Não precisava tanto.
A chuva
ensurdecia meu ouvido ao bater na grade metálica da
varanda, quando a tevê iniciou seu triste trabalho de
nos mostrar imagens de terror. Não se tratava de ficção.
Meu
marido e eu não nos mexíamos, no sofá defronte à
televisão. Encharcados de água pútrida, corpo e alma
encolhiam, o malestar do estômago, típico da angústia,
nos invadia. Diante de nós, a desgraça de
uma cidade que, dizem, nasceu para farrear, não levar a
sério seus próprios sofrimentos, transformá-los em
canção, com o surdo a marcar-lhe o compasso da dor.
- Olha a
Lagoa alagada! Cresceu mais de um metro/ Olha a Jardim
Botânico! Ninguém passa.../ - Olha a Praça da Bandeira,
eterno local de enxurrada com carro boiando...! / - Olha
a nossa rua! Cairam duas árvores gigantescas: o canal
vai transbordar a imundície.../ Olha o morro desabando,
do Borel, na Tijuca, dos Prazeres, em Santa Tereza! Até
o Sumaré padece.
Aí,
aparece minha terra natal, Niterói, de meu passado
alegre ou dolorido. - Parece que lá foi pior, avisam os
repórteres, antes de confirmarem a verdade. A gente
pobre dos morros de Niterói perdeu casa e família,
exceto um ou outro escolhido por Deus, que não estava em
casa ou recebeu a graça e escapou.
E eu que
mostrava o exemplo do prefeito com fé, eu que tinha
admirado a cidade em nostalgia, desde o Fonseca até São
Francisco e Charitas, no mês passado!
A terra
alagada, em rios e cachoeiras de lama,
cobrias casas ou caía junto com elas, casas de pobres,
sempre os pobres. Famílias inteiras sem teto, sem vida:
a mãe que perdeu o filho pequeno, irmãos sem mãe, sem
pai, velhos sem direito de envelhecer protegidos,
crianças, muitas crianças... a nos mostrar a incúria dos
que fingem governar com maquiagem de cidade – Niterói –
ou sem melhoramento sequer aparente - Rio.
A
pobreza da favela, construída em cima do lixão no meu
antigo bairro do Fonseca, imitava, ainda com maior
perfeição dramática, a do morro central e a das inúmeras
favelas do Rio, todas sempre em risco iminente e nenhuma
providência tomada.
Cinco
dias se passaram e os corpos continuam a ser procurados.
Há mais, talvez, muito mais. Cansei de chorar. Resta-me
a oração.
Mais
nada.
Maria Lindgren |