Maria Lindgren

Minha Terra Chora 

Dias de chuva sempre me fazem um pouco tristonha. Como os poetas românticos, ligo sentimentos trágicos a raios, chuva forte, ventania... Dia de sol, de céu azul e, no máximo, nuvens brancas, me chamam ao prazer. Salvo, se o calor for de rachar. Então, peço chuva.

Era uma noite de outono.  O calor dos dias anteriores não combinava com o comum desta estação no Rio, de dias imaculados. Abafado, úmido, intragável, o verão permanecia, a chuva, só ela, nos daria refresco.

Saí do coral em direção ao taxi, quando  começou o pé d´água. Nem cinco minutos e um trabalhão para entrar no taxi, com minhas pernas curtas demais para tamanha poça junto à calçada, na rua principal do Leblon. Virei–me para minha companheira do grupo das cantantes do Colégio Santo Agostinho:

- Menina, tá chovendo pra burro! Não precisava tanto.

A chuva ensurdecia meu ouvido ao bater na grade metálica da varanda, quando a tevê iniciou seu triste trabalho de nos mostrar imagens de terror. Não se tratava de ficção.

Meu marido e eu não nos mexíamos, no sofá defronte à televisão. Encharcados de água pútrida, corpo e alma encolhiam, o malestar do estômago, típico da angústia, nos  invadia. Diante de nós, a desgraça  de uma cidade que, dizem, nasceu para farrear,  não levar a sério seus próprios sofrimentos, transformá-los em canção, com o surdo a marcar-lhe o compasso da dor.

- Olha a Lagoa alagada! Cresceu mais de um metro/ Olha a Jardim Botânico! Ninguém passa.../ - Olha a Praça da Bandeira, eterno local de enxurrada com carro boiando...! / - Olha a nossa rua! Cairam duas árvores gigantescas: o canal vai transbordar a imundície.../ Olha o morro desabando, do Borel, na Tijuca, dos Prazeres, em Santa Tereza! Até o Sumaré padece.

Aí, aparece minha terra natal, Niterói, de meu passado alegre ou dolorido. - Parece que lá foi pior, avisam os repórteres, antes de confirmarem a verdade. A gente pobre dos morros de Niterói perdeu casa e família, exceto um ou outro escolhido por Deus, que não estava em casa ou recebeu a graça e escapou.

E eu que mostrava o exemplo do prefeito com fé, eu que tinha admirado a cidade em nostalgia, desde o Fonseca até São Francisco e Charitas, no mês passado!

 A terra alagada, em rios e cachoeiras  de lama, cobrias casas ou caía junto com elas, casas de pobres, sempre os pobres. Famílias inteiras sem teto, sem vida: a mãe que perdeu o filho pequeno, irmãos sem mãe, sem pai, velhos sem direito de envelhecer protegidos, crianças, muitas crianças... a nos mostrar a incúria dos que fingem governar com maquiagem de cidade – Niterói – ou sem melhoramento sequer  aparente - Rio.

A pobreza da favela, construída em cima do lixão no meu antigo bairro do Fonseca, imitava, ainda com maior perfeição dramática, a do morro central e a das inúmeras favelas do Rio, todas sempre em risco iminente e nenhuma providência tomada.

 Cinco dias se passaram e os corpos continuam a ser procurados. Há mais, talvez, muito mais. Cansei de chorar. Resta-me a oração.

 Mais nada.

Maria Lindgren

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