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À
imitação da grande Cecília Meireles, pergunto, assombrada: "- Em
que espelho deixei perdidas as minhas mãos ?".
No ônibus frescão, ar condicionado e abençoado pelos
exauridos de calor, de volta do trabalho, contemplo
demoradamente minhas mãos plácidas - ou cansadas?-, depositadas
em cima da bolsa. Deparo-me, em aparente indiferença, com veias
estufadas, pele de cobra que começa a se soltar, nódulos que
não tinha ontem, tenho certeza. Mãos que não mais me enchem de
orgulho.
Comparo-as com as do senhor ao meu lado, nenhum "belo tipo
faceiro", bem entrado em anos, e me pergunto, entre ansiosa
e estupefata: "Será que envelheci tanto assim e não o percebi,
no alvoroço da vida?" Eita mãos-denúncia!
O senhor revira páginas de uma revista " en français". O
ônibus frescão, que vem do Centro da cidade para a Zona Sul, em
fim de tarde, tem disso: gente, às vezes bem requintada. Em
geral, pessoas que não gostam de se misturar à plebe dos ônibus
comuns e detestam dirigir automóveis.
Disfarçadamente, dou uma passada de olhos pela figura. Observo
os cabelos muito grisalhos, os sulcos pronunciados ao lado da
boca e as rugas na face esquerda, a que me é possível ver.
Certamente, indícios de velhice inapelável, talvez galopante.
Respiro, mais aliviada.
No entanto, as mãos fazem-me inveja. Lisinhas ou bem pouco
marcadas, pequenas veias nada protuberantes, ramificadas sobre a
pele muito branca. Não têm comparação possível com as minhas. A
julgar pelas mãos, sou, pelo menos, uns dez anos mais velha do
que ele. Os rios caudalosos e azulados que me saem do pulso para
desembocar nos dedos, os anéis, que uso com relativa abundância,
rodopiando nos dedos magros, não deixam dúvidas.
Será por que, Deus meu?! Nunca fui dona de casa ao pé da letra.
Sabia mandar mais que executar. Nunca tive que “ralar”com as
mãos, mesmo quando a sorte me foi mais madrasta.
As lavagens de quilos de roupa, decantadas, com certo grau de
heroísmo, pelas raras mulheres sem empregada doméstica do meu
mundo florido, jamais me foram familiares. Até porque, quando
fiquei mais pobre, a tecnologia correu em meu socorro. Para mim,
tudo se resumia a uma ou outra calcinha das duas mulheres da
casa, lavadas debaixo do chuveiro mesmo; uma peça de louça ou
outra, mal esfregada. Não me lembro de ter-me debruçado sobre um
tanque ou uma pia da cozinha.
Minha mãe, dona de casa por força de uma casamento antiquado,
mas, segundo seu próprio depoimento, sem grandes vocações para
habilidades domésticas, tratou de nos afastar, a mim e a minha
irmã, de quaisquer afazeres domésticos, como abjetos. Com
exceção da costura - naquele tempo caía bem saber costurar.
E olhe que mamãe elaborava um simples feijão com arroz com a
dignidade e a delicadeza do melhor chef de hotel cinco
estrelas! A gente rezava para ficar sem cozinheira, só para
saborear seus quitutes, mesmo que xingados à hora da execução.
Por que, então, a pele do dorso e da palma de minhas mãos
ressecando-se inexpugnavelmente? Necessitam de quilos de creme
de dermatologista para ficarem decentes, ao menos. Culpo, às
vezes, a secura do ar condicionado sempre ligado no meu local de
trabalho. Desculpa esfarrapada típica de quem quer ser jovem
ad eternum!
Miro e remiro, com certa repulsa, as mãos que não são minhas,
apesar do esforço semanal de torná-las mais in, trocando
a tonalidade do esmalte: de incolor ou misturinha branca para
vermelhão moderníssimo, a la 1950. Impulso vital de
afastar a avassaladora SPV - Síndrome da Porra da Velhice, como
diz o vulgo.
Qual a razão de só agora ter atentado para o fato de estar
marchando indefectivelmente para a decadência física? E logo no
frescão, abrigo de gente da Terceira Idade até bem mais
encarquilhada do que eu?! E graças a quê? Às malditas dedo-duro
denunciadoras.
De que modo posso escondê-las, se não mais se usa luva, nem
nessa rentrée estilizada dos anos 40, 50, na moda de
2001! Justo eu, que tenho pavor de aplicação de silicone, botox
e outros artifícios passíveis de rejeição pelo corpo humano
cruel.
Assisti, certa vez, muitos anos atrás, um documentário, pela
televisão, sobre travestis do baixo mundo, cujo material mal
injetado escorria por dentro das faces e por outros lugares do
corpo, transformando-os em transformistas-monstros. Tremi.
Recordo a história tragicômica das minhas mãos. É a história de
muitos fãs que as admiravam, em época de juventude. Ao mesmo
tempo, de muitas dores carregadas em meu filme-dramalhão
particular.
Numa cena, tenho quatro anos e sambo com as mãozinhas
frenéticas, em gestos imitadores dos trejeitos das sambistas da
época. Noutra, derreto-me toda de prazer, aos quinze anos,
ouvindo meu primeiro pedido de casamento:
-
Minha coisinha maluca!
Você tem as mãos mais bonitas do mundo!
Ainda em outra, aceno para o homem
que viria a ser meu primeiro marido, do alto de um navio,
lacrimosa, em soluços mesmo, partindo em direção a uma Europa
indesejada, obrigada por meu pai.
Boa costureira, bordadeira mediana, usei e abusei das mãos, em
tarefas gentis, confeccionando roupas, enxovais e, até mesmo,
chapéus, antes de me descobrir uma intelectual, forçada pelas
feministas e por mim mesma.
Em flagrantes repetidos, seguro, com firmeza, o lápis ou a
caneta, fiéis companheiros de escola, de casa, de hotéis, de
trabalho... Salvo quando sofri um acidente de carro e perdi a
sensação do braço direito. O que me impediu, durante um ano e
meio, de escrever como gente bem alfabetizada. Graças a isso,
aprendi a bater, mal e porcamente, com um dedinho só, na máquina
de escrever. E daí para o computador foi um passo. Deus tira,
Deus dá, é verdade.
De
mãos, recordo também, de mau grado, a aliança reluzente no dedo
esquerdo - símbolo de amarração a um marido para o resto da
vida. Logo que me separei, fora com ela, para nunca mais. Não
porque eu seja contra o casamento, mas porque o meu tinha
terminado muito mal: gritos, ameaças, constrangimentos
infinitos, dois filhos para criar sem pai, pouca grana etc, etc.
Em compensação, de bom grado, aparece-me a quentura macia das
mãos que amei pela vida afora: de minha mãe, de meus filhos, de
meus namorados e amantes.
Hoje, acaricio e seguro, conforto do amor, a mão bem formada
de meu segundo companheiro. E, não menos emocionada, a de meu
filho e a de minha filha, mãos almofadas de penas levíssimas.
Embora crescidos, eles nunca prescindem de uma mão firme que os
ampare, em boa quantidade de momentos. Apesar da minha fraqueza
patente.
Para que servem as mãos, se não para isso? Não sei mais do que
tratava o monólogo “As mãos de Eurídice”, de Pedro Bloch, há
tanto tempo encenado no teatro. Sei que expressavam sentimentos,
e como! Há ainda a recordar as mãos decantadas por Villaret,
grande declamador português: “ Mãos criminosas, mãos do fado
e do pecado...”, gravadas em disco de vinil de meu pai.
“Para o sentimento amoroso, que importância tem a decrepitude
das mãos?!”, digo a mim mesma quase em voz alta, interrompendo
meus pensamentos pessimistas!
E no frescão civilizado, porque sem pressa, em nada similar ao
transporte de pobre do Rio de Janeiro, vou semi-cerrando os
olhos, quase cochilando, conformada com minhas mãos, até o
Leblon. Que me importa! |