Maria Lindgren

 Minhas Mãos

À imitação da grande Cecília Meireles, pergunto, assombrada: "- Em que espelho deixei perdidas as minhas mãos ?".

No ônibus frescão, ar condicionado e abençoado pelos exauridos de calor, de volta do trabalho, contemplo demoradamente minhas mãos plácidas - ou cansadas?-, depositadas em cima da bolsa. Deparo-me, em aparente indiferença,  com veias estufadas, pele de cobra que começa a  se soltar, nódulos que não tinha ontem, tenho certeza. Mãos que não mais me enchem de orgulho.

Comparo-as com as  do senhor ao meu lado, nenhum "belo tipo faceiro", bem entrado em anos,  e me pergunto, entre ansiosa e estupefata: "Será que envelheci tanto  assim e não o percebi, no alvoroço da vida?" Eita mãos-denúncia!

O senhor revira páginas de uma revista " en français". O ônibus frescão, que vem do Centro da cidade para a Zona Sul, em fim de tarde,  tem disso: gente, às vezes bem requintada. Em geral, pessoas que não gostam de se misturar à plebe dos ônibus comuns e detestam dirigir automóveis.

 Disfarçadamente, dou uma passada de olhos pela figura. Observo os cabelos muito grisalhos, os sulcos pronunciados ao lado da boca e  as rugas na face esquerda, a que me é possível ver. Certamente, indícios de velhice inapelável, talvez galopante. Respiro, mais aliviada.

 No entanto, as mãos fazem-me inveja. Lisinhas ou bem pouco marcadas, pequenas veias nada protuberantes, ramificadas sobre a pele muito branca. Não têm comparação possível com as minhas. A julgar pelas mãos, sou, pelo menos, uns dez anos mais velha do que ele. Os rios caudalosos e azulados que me saem do pulso para desembocar nos dedos, os anéis, que uso com relativa abundância, rodopiando nos dedos magros, não deixam dúvidas.

Será por que, Deus meu?! Nunca fui dona de casa ao pé da letra. Sabia mandar mais que executar. Nunca tive que “ralar”com as mãos, mesmo quando a sorte me foi mais madrasta.

As lavagens de quilos de roupa, decantadas, com certo grau de heroísmo, pelas raras mulheres sem empregada doméstica do meu mundo florido, jamais me foram familiares. Até porque, quando fiquei mais pobre, a tecnologia correu em meu socorro. Para mim, tudo se resumia a uma ou outra calcinha das duas mulheres da casa, lavadas debaixo do chuveiro mesmo; uma peça de louça ou outra, mal esfregada. Não me lembro de ter-me debruçado sobre um tanque ou uma pia da cozinha.

Minha mãe, dona de casa por força de uma casamento antiquado, mas, segundo seu próprio depoimento, sem grandes vocações para habilidades domésticas, tratou de nos afastar, a mim e a minha irmã, de quaisquer afazeres domésticos, como abjetos. Com exceção da costura - naquele tempo caía bem saber costurar.

 E olhe que mamãe elaborava um simples feijão com arroz com a dignidade e a delicadeza do melhor chef de hotel cinco estrelas! A gente rezava para ficar sem cozinheira, só para saborear seus quitutes, mesmo que xingados à hora da execução.

Por que, então, a pele do dorso e da palma de minhas mãos ressecando-se  inexpugnavelmente? Necessitam de quilos de creme de dermatologista para ficarem decentes, ao menos. Culpo, às vezes, a secura do ar condicionado sempre ligado no meu local de trabalho. Desculpa esfarrapada típica de quem quer ser jovem ad eternum!

Miro e remiro, com certa repulsa, as mãos que não são minhas, apesar do esforço semanal de torná-las mais in, trocando a tonalidade do esmalte: de incolor ou misturinha branca para vermelhão moderníssimo, a la 1950. Impulso vital de afastar a avassaladora SPV - Síndrome da Porra da Velhice, como diz o vulgo.

Qual a razão de só agora ter atentado para o fato de estar marchando indefectivelmente para a decadência física? E logo no frescão, abrigo de gente da Terceira Idade até bem mais encarquilhada do que eu?! E graças a quê? Às malditas dedo-duro denunciadoras. 

De que modo posso escondê-las, se não mais se usa luva, nem nessa rentrée estilizada  dos anos 40, 50, na moda de 2001! Justo eu, que tenho pavor de aplicação de silicone, botox e outros artifícios passíveis de rejeição pelo corpo humano cruel.

 Assisti, certa vez, muitos anos atrás, um documentário, pela televisão, sobre travestis do baixo mundo, cujo material mal injetado escorria por dentro das faces e por outros lugares do corpo, transformando-os em transformistas-monstros. Tremi.

Recordo a história tragicômica das minhas mãos. É a história de muitos  fãs que as admiravam, em época de juventude. Ao mesmo tempo, de muitas dores carregadas em meu filme-dramalhão particular.

Numa cena, tenho quatro anos e sambo com as mãozinhas frenéticas, em gestos imitadores dos trejeitos das sambistas da época. Noutra, derreto-me toda de prazer, aos quinze anos, ouvindo meu primeiro pedido de casamento:

-         Minha coisinha maluca! Você tem as mãos mais bonitas do mundo!

Ainda em outra, aceno para o homem que viria a ser meu primeiro marido, do alto de um navio, lacrimosa,  em soluços mesmo, partindo em direção a uma Europa indesejada, obrigada por meu pai.

Boa costureira, bordadeira mediana, usei e abusei das mãos, em tarefas gentis, confeccionando roupas, enxovais e, até mesmo, chapéus, antes de me descobrir uma intelectual, forçada pelas feministas e por mim mesma.

Em flagrantes repetidos, seguro, com firmeza, o lápis ou a caneta, fiéis companheiros de escola, de casa, de hotéis, de trabalho... Salvo quando sofri um acidente de carro e perdi a sensação do braço direito. O que me impediu, durante um ano e meio, de escrever como gente bem alfabetizada. Graças a isso, aprendi a bater, mal e porcamente, com um dedinho só, na máquina de escrever. E daí para o computador foi um passo. Deus tira, Deus dá, é verdade.

De mãos, recordo também, de mau grado, a aliança reluzente no dedo esquerdo - símbolo de amarração  a um marido para o resto da vida. Logo que me separei, fora com ela, para nunca mais. Não porque eu seja contra o casamento, mas porque o meu tinha terminado muito mal: gritos, ameaças, constrangimentos infinitos, dois filhos para criar sem pai, pouca grana etc, etc.

Em compensação, de bom grado, aparece-me a quentura macia das mãos que amei pela vida afora: de minha mãe, de meus filhos, de meus namorados e amantes.

 Hoje, acaricio e seguro, conforto do amor,  a mão bem formada de meu segundo  companheiro. E, não menos emocionada,  a de meu filho e a de minha filha, mãos almofadas de penas levíssimas. Embora crescidos, eles nunca prescindem de uma mão firme que os ampare, em boa quantidade de momentos. Apesar da minha fraqueza patente.

 Para que servem as mãos, se não para isso? Não sei mais do que tratava o monólogo “As mãos de Eurídice”, de Pedro Bloch, há tanto tempo encenado no teatro. Sei que expressavam sentimentos, e como! Há ainda a recordar as mãos decantadas por Villaret, grande declamador português: “ Mãos criminosas, mãos do fado e do pecado...”, gravadas em disco de vinil de meu pai.

 “Para o sentimento amoroso, que importância tem a decrepitude das mãos?!”, digo a mim mesma quase em voz alta, interrompendo meus pensamentos pessimistas!

E no frescão civilizado, porque sem pressa, em nada similar ao transporte de pobre do Rio de Janeiro, vou semi-cerrando os olhos, quase cochilando, conformada com minhas mãos, até o Leblon. Que me importa!

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