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Largo o jornal, uma pontada aguda
de angústia a me fisgar o âmago. Sabe, daquelas que não chegam
ao ponto de nos obrigar a ir para a cama ou a visitar os
consultórios psiquiátricos, mas que incomodam, não nos deixam
relaxar.
Não, não foram as notícias
costumeiras de violência, corrupção, desobediência às leis,
fofocas políticas... as quais nem me dou mais ao trabalho de ler
além da chamada inicial. Foi, sim, uma razão muito forte para
uma professora aposentada, educadora para sempre: a UERJ, a
universidade estadual mais antiga e querida no Estado do Rio de
Janeiro, está a perigo. Foi obrigada, pasmem, a adiar o
vestibular de 2006, por falta de recursos do governo estadual.
Não é a primeira vez
que sofro com a UERJ. Há meses, fui lá conversar sobre possível
projeto de trabalho com um grupo de professores. Constatei,
assombrada, o estado de desmazelo físico da universidade. Logo à
entrada, em lugar do burburinho contagiante de outrora, pessoas
automatizadas, a se trombarem sem sorrisos. Na cantina da
entrada, sempre difícil de se conseguir comprar mesmo um
simples cafezinho, em dias comuns de aula, estancou-se o vozerio
de alunos, professores, funcionários e visitantes, pela
desesperança. Uns poucos sonâmbulos tentavam levar adiante suas
obrigações. Universidade calada, sinal de perigo. Como acontecia
nos tempos da ditadura, por medo à repressão.
Paredes mal conservadas
abraçavam-me, prisioneira de seu desolamento. Um ou outro
funcionário da casa pelos corredores, onde antes mal cabia o
vaivém excitado dos que trabalham com ânimo.
Abismada, assim que
cheguei ao encontro, comentei o que observado com uma das
professoras. Resposta do rosto compungido: - Falta de grana até
para conservação e reforma, minha filha. O reitor já fez o que
pode, mas não consegue convencer a governadora da importância da
universidade.
Saí mais rápido do que
pretendia, para evitar que vissem a decepção plantada no meu
rosto, os olhos bem abertos para não desabar em choro.
O que fazem, ou melhor,
desfazem os governantes do nosso Estado do Rio de Janeiro em
relação à universidade do orgulho fluminense? Como podem
esquecer do exemplo de universidade pública que a UERJ
representa, e começa no cuidado das paredes, das salas, dos
banheiros... e continua através do sucesso social de seus alunos
e ex-alunos, por conta de bons e dedicados professores, seus
professores, mestres e doutores em suas respectivas
especialidades?
Os alunos da Universidade
Estadual do Rio de Janeiro, diferente de outras universidades
públicas, não têm o perfil de ricaços, conforme alegam os que
querem acabar com a universidade pública, em tristes tempos
neoliberais. Os da noite, sobretudo, vêm das classes popular e
média, conforme o comprovam as pesquisas realizadas. São
trabalhadores à procura de aprimoramento em sua própria
profissão ou conhecimento avançado em outra área, após passar
pelo gargalo apertado do megavestibular.
Os professores de todas as áreas
são concursados, têm uma carreira ascendente que os obriga a
cada vez estudar mais, até distinguirem-se pelo “notório saber”,
demonstrado em avaliações, encontros com professores de outras
universidade e, até mesmo, em programas sérios de debates de
opinião, na mídia. Os médicos do Hospital Pedro Ernesto estão
entre os melhores do país. Num hospital caro para os cofres
públicos, sim, mas absolutamente necessário à comunidade. A
apertura financeira o atinge, sim, mais do que às demais áreas,
uma vez que seu objetivo, além de formar pessoal de saúde, é
lidar com a doença, prolongar a vida, tornando-a mais saudável.
O Colégio de Aplicação, o
CAP-UERJ, é tão reconhecido pela sociedade que se vê obrigado a
lançar mão de sorteios e testes para ingresso dos alunos. E
funciona com professores tão habilitados quanto os da
licenciatura ou pósgraduação
Acabo de ouvir pelo
rádio que a greve de professores acabou, à força do medo, quando
lhes cortaram os salários minguados injustos. Mais uma decepção,
numa democracia repleta de corrupção, privilégio, nepotismo e
outras mazelas não solucionadas desde os anos 80 do século
passado.
No fundo, tenho pena
desses políticos que não descobriram o valor da pesquisa, do
debate acadêmico, a enorme satisfação do ampliar conhecimentos,
na era do conhecimento. Ignoram o mal que causam ao futuro do
país, talvez porque se deixam atolar no vício do poder político
inoperante.
Rezo para que, com a
chegada de novos governantes eleitos pelo povo, se dê prioridade
de fato à Saúde e à Educação, incluindo no cardápio das
destinações orçamentárias a Universidade que criou o primeiro
Instituto de Medicina Social do Estado do Rio de Janeiro, que
construiu a Capela Ecumênica para eventos solenes, conserva o
Teatrão para oferecer cultura à comunidade onde se localiza, que
se abre aos projetos culturais também no Teatro Noel Rosa, na
editora, na sala de artes plásticas e nos inúmeros auditórios.
Maria Lindgren |