Maria Lindgren

Motivo De Angústia

Largo o jornal, uma pontada aguda de angústia a me fisgar o âmago. Sabe, daquelas que não chegam ao ponto de nos obrigar a ir para a cama ou a visitar os consultórios psiquiátricos,  mas que incomodam, não nos deixam relaxar.

Não, não foram as notícias costumeiras de violência, corrupção, desobediência às leis, fofocas políticas... as quais nem me dou mais ao trabalho de ler além da chamada inicial. Foi, sim, uma razão muito forte para uma professora aposentada, educadora para sempre: a UERJ, a universidade estadual mais antiga e querida no Estado do Rio de Janeiro, está a perigo. Foi obrigada, pasmem, a adiar o vestibular de 2006, por falta de recursos do governo estadual.

            Não é a primeira vez que sofro com a UERJ. Há meses, fui lá conversar sobre possível projeto de trabalho com um grupo de professores. Constatei, assombrada, o estado de desmazelo físico da universidade. Logo à entrada, em lugar do burburinho contagiante de outrora, pessoas automatizadas, a se trombarem sem sorrisos. Na cantina da entrada, sempre difícil de se conseguir comprar mesmo um  simples cafezinho, em dias comuns de aula, estancou-se o vozerio de alunos, professores, funcionários e visitantes, pela desesperança. Uns poucos sonâmbulos tentavam levar adiante suas obrigações. Universidade calada, sinal de perigo. Como acontecia nos tempos da ditadura, por medo à repressão.

Paredes mal conservadas abraçavam-me, prisioneira de seu desolamento. Um ou outro funcionário da casa pelos corredores, onde antes mal cabia o vaivém excitado dos que trabalham com ânimo.

            Abismada, assim que cheguei ao encontro, comentei o que observado com uma das professoras. Resposta do rosto compungido: - Falta de grana até para conservação e reforma, minha filha. O reitor já fez o que pode, mas não consegue convencer a governadora da importância da universidade.

Saí mais rápido do que pretendia, para evitar que vissem a decepção plantada no meu rosto, os olhos bem abertos para não desabar em choro.

            O que fazem, ou melhor, desfazem os governantes do nosso Estado do Rio de Janeiro em relação à universidade do orgulho fluminense? Como podem esquecer do exemplo de universidade pública que a UERJ representa, e começa no cuidado das paredes, das salas, dos banheiros... e continua através do sucesso social de seus alunos e ex-alunos, por conta de bons e dedicados professores, seus professores, mestres e doutores em suas respectivas especialidades?

Os alunos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, diferente de outras universidades públicas, não têm o perfil de ricaços, conforme alegam os que querem acabar com a universidade pública, em tristes tempos neoliberais. Os da noite, sobretudo, vêm das classes popular e média, conforme o comprovam as pesquisas realizadas. São trabalhadores à procura de aprimoramento em sua própria profissão ou conhecimento avançado em outra área, após passar pelo gargalo apertado do megavestibular.

Os professores de todas as áreas são concursados, têm uma carreira ascendente que os obriga a cada vez estudar mais, até distinguirem-se pelo “notório saber”, demonstrado em avaliações, encontros com professores de outras universidade e, até mesmo, em programas sérios de debates de opinião, na mídia. Os médicos do Hospital Pedro Ernesto estão entre os melhores do país. Num hospital caro para os cofres públicos, sim, mas absolutamente necessário à comunidade. A apertura financeira o atinge, sim, mais do que às demais áreas, uma vez que seu objetivo, além de formar pessoal de saúde, é lidar com a doença, prolongar a vida, tornando-a mais saudável.

O Colégio de Aplicação, o CAP-UERJ, é tão reconhecido pela sociedade que se vê obrigado a lançar mão de sorteios e testes para ingresso dos alunos. E funciona com professores tão habilitados quanto os da licenciatura ou pósgraduação

            Acabo de ouvir pelo rádio que a greve de professores acabou, à força do medo, quando lhes cortaram os salários minguados injustos. Mais uma decepção, numa democracia repleta de corrupção, privilégio, nepotismo e outras mazelas não solucionadas desde os anos 80 do século passado.

            No fundo, tenho pena desses políticos que não descobriram o valor da pesquisa, do debate acadêmico, a enorme satisfação do ampliar conhecimentos, na era do conhecimento. Ignoram o mal que causam ao futuro do país, talvez porque se deixam atolar no vício do poder político inoperante.

            Rezo para que, com a chegada de novos governantes eleitos pelo povo, se dê prioridade de fato à Saúde e à Educação, incluindo no cardápio das destinações orçamentárias a Universidade que criou o primeiro Instituto de Medicina Social do Estado do Rio de Janeiro, que construiu a Capela Ecumênica para eventos solenes, conserva o Teatrão para oferecer cultura à comunidade onde se localiza, que se abre aos projetos culturais também no Teatro Noel Rosa, na editora, na sala de artes plásticas e nos inúmeros auditórios.

Maria Lindgren

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