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Impossível esquecer o mês de março. Inda mais, este março de
2008, no Rio de Janeiro, de calor insistente, mas de céu azul de
poucas nuvens, flocos de algodão dos desenhos infantis, mar
parceiro de cor do céu, mesclado de verde, de vez em quando, e
alguma chuva, resto do verão de aguaceiro morno.
Sobretudo, mês das Mulheres, seu Dia Internacional comemorado
com mesmices e alguma poesia boa, celebrado, de qualquer modo.
E, para mal de minha pele, mês também de mais um, na
minha longa jornada.
Lembro-me das pessoas do meu sexo dignas de elogios. Em primeiro
lugar, louvo as lutadoras que, desde o século XIX, tentam a
sempre apregoada, mas descumprida, igualdade de direitos, sob o
risco do carimbo de sapatões - termo chulo que não
uso para homossexuais - ou do xingamento de impotentes sexuais e
cerebrais, percebidos em eventuais galhofas.
Em
seguida, meu pensamento sobe os morros cariocas, penetra nestas
e noutras favelas de rés-do-chão, recorda os inúmeros casos
dramáticos de maus tratos: abortos provocados pelas próprias
mulheres em desespero ou por carniceiros, abandono dos filhos
pequenos pelos pais, estupros, às vezes, seguidos de gravidez
indesejada, entre outros.
Para culminar, dou uma volta ao mundo em segundos, e esbarro nas
mulheres de burca, que vivem apartadas e agrupadas num mundo
totalmente masculino. Eu mesma testemunhei no Egito o quanto os
machos de lá se incomodam com a permanência em aberto de
mulheres de roupa ocidental, sobretudo, as jovens turistas,
importunadas por andarem de short, no calorão.
Em
compensação, abro ao azar uma revista brasileira e deparo-me com
fotos de coxas, seios e bundas, para divertimento de todos. As
mulheres, talvez por invejá-las e tratarem de correr atrás de
formas semelhantes. Os homens, para se deliciarem.
Em
lugar da autoconscientização do para quê se está no
mundo, algumas mulheres esquecem as lições de liberação feminina
dos anos 60, 70, do século XX e regridem, no desejo de se tornar
ideais, de acordo com o modelo vigente, ou famosas, a troco da
exposição corpórea, quase sempre bem tapeada pelos maquiadores e
fotógrafos, quando não, por cirurgiões plásticos.
Detesto moralismo, admiro quem pode exibir suas formas na praia
ou em teatros, cultivo a vontade de não envelhecer demais. Acho,
no entanto, que o Brasil exagera ao se tornar o país de mais
vaidade fútil do mundo, segundo me informaram ainda ontem.
Espero que os homens estejam aí incluídos pois, aos poucos,
passam a seguir o exemplo das mulheres.
Volto aos anos 60, apesar de execrar a ditadura de 64, imposta
ao meu país. Anos pioneiros do uso da pílula anti-concepcional,
facilitadora da liberdade sexual feminina. Fico triste com a
frustração das moças dos tempos atuais, obrigadas a levar
camisinhas dentro da bolsa, para se livrarem da AIDS. E mais
triste, ao perceber que muitas ainda não têm esta consciência,
por falta de quem as eduque.
Sou, sem dúvida, mulher da poetisa americana Dorothy Parker no
poema Ser Mulher, traduzido por Ângela Carneiro:
Por que será que quando estou em Roma/ daria tudo para estar em
casa na redoma/ mas se estou na terra americana/ minha alma
deseja a cidade italiana?/ E quando com você, meu amor, meu
remédio/ fico espetacularmente cheia de tédio/ Mas se você se
levantar e me deixar/ Grito para você voltar?
Apesar disso, declaro, sem titubear, meu grande entusiasmo pela
causa feminista e conto com sua continuidade, até vencermos as
trincheiras de defesa ainda existentes.
Maria Lindgren, no Dia Internacional das Mulheres;
Maria Lindgren
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