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Naquele dezembro, percebi que o Natal chegava quando desci de
meu lar-abrigo e dei de cara com umas ridículas fileiras de
luzes à volta das duas lindas palmeiras, sobras da construção
impiedosa de meu prédio.
Vou
adiante no meu projeto de comprar coisas de armarinho, tipo
retroz, agulha e elástico. Ensejo alguns passo e tenho que
atravessar a primeira rua, normalmente quase sem trânsito. Tudo
encalacrado: montes de ônibus gigantescos, vazios, fantasmas,
que o prefeito nos impinge há bem uns seis anos; vans
legalizadas e piratas em número apreciável, cheias de
passageiros pobres; um mundo de carros de classe média, mais ou
menos padronizados, nem grandes nem pequenos, que ninguém é
besta de pôr um Mercedes de novo na rua, para morrer de tiro
numa esquina do Leblon; bicicletas ousadas na contramão,
assustando a gente que espera o sinal certo para atravessar;
motoboys entregadores, frenéticos como sempre ou mais um pouco,
não sossegam enquanto não sofrem um acidente grave. Senhoras,
senhores, moças, rapazes, mães com filho na barriga, de mãos
dadas com crianças mais velhas, ou ambas as situações;
estudantes que ficaram em recuperação fajuta de um mês de aula;
mendigos esparsos pelas calçadas, meninos de seus dez onze anos
descalços e sujos, com jeito de quem vai pedir trocado ou
consegui-lo de qualquer jeito.
Para piorar, guardas a fazer piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiu
em gestos largos, nos cruzamentos. Táxis aos borbotões e chuva
fina apenas iniciada pioram o caos do bairro até ontem
hipervalorizado: o meu, logo o meu, conseguido a esforços de
vários trabalhos concomitantes meus e de meu marido.
Enfim, a rua do comércio principal do bairro. Uma avenida cheia
de carros estacionados ou em embarque e desembarque, improvisado
a cada momento. Incontáveis farmácias e drogarias, uns dois ou
três bazares de ferragens e louças; lojas de calçado
recém-abertas, uma defronte à outra; umas poucas galerias de
roupas quase tudo de mulher, ou melhor, de mocinha, que senhora
aqui não tem vez; duas papelarias com xérox; dois atendimentos
ortopédicos, sempre pululando de pessoas de todas as idades,
principalmente velhos, com torções múltiplas e cara de
chateação;.
E
cafés, muitos Cafés. Com letra minúscula são os de sempre, dos
botequins; com maiúscula, os da última moda, às vezes, colados
um ao outro. Casas de sucos variados e açaís no copo duplo –
pedida dos mais jovens – café somente expresso, de máquina
italiana e mil sabores: pingado, maquiado, capuccino... até com
whisky.
Bar
de cerveja e chope, no máximo, uns três bem caducos.
Uma
única casa lotérica, atulhada de filas para a sorte grande ou
para xérox, duas farmácia homeopáticas ou de manipulação, uma
padaria com cheiro de frango assado de estourar narinas, e
pilhas de tudo o que uma padaria condigna tem, desde o pão
francês até os produtos de limpeza, que esquecemos de comprar na
lista do mercado.
Engraçado: a padaria veste-se para a Páscoa, enfeitada de ovos,
mas não para o Natal. Será que o português converteu-se ao
judaísmo?
E
bancos, dezenas de bancos, cheios até às quatro. Daí em diante,
fila nas caixas eletrônicas. Os bancos, expressão máxima da
sociedade neoliberal de consumo, estes, sim, com luzes,
papais-noéis, árvores enormes douradas, prateadas de galhos
secos enroscados ou de outro artesanato da moda, lacinhos,
bolhinhas, bolões, enfim, toda a parafernália do Natal. E olhe
que nem todos receberam o depósito do décimo terceiro salário!!!
Procuro, desanimada, o tal do armarinho. Encontro um bazar de
outros tempos, dividido em duas partes: uma vende presentes,
vasos para planta e seus devidos apetrechos, umas tantas panelas
e louças; outra, uniformes de empregada, camisolas feias, roupa
de baixo idem e... aleluia: artigos de costura.
Aí
me veio a idéia de comprar uma garrafa térmica que não desonre o
nome e conserve a quentura por, pelo menos, umas duas horas. Que
idéia, meu Deus! Percorro todas as lojas possíveis, grito da
porta: - Tem garrafa térmica? Corro o risco de apanhar dos
vendedores: NÃO!!!
Urge dizer que, em meu bairro chique, ninguém que se preze toma
café da manhã em casa. Toda a família vai para a calçada da
padaria e do açougue velho transformado em confeitaria. Pedem
lautos brunchs, sobretudo, nos fins de semana. Se dá
praia, alguns vão de biquini, maiô, short e bata indiana: os
mais jovens. Se não dá praia ou são mais velhos, bermudão
unissex, camiseta ou calça jeans bem gasta, tênis ou sandálias
confortáveis. Bonés e chapéus de proteção às faces e às carecas.
Nas
lojas de moda, sem enfeite de Natal, que não seja, quando muito,
uma carreirinha de luzes pisca-pisca, o vazio da crise
financeira. Ar de desolamento. Nada se vende. Ninguém a
experimentar roupa ou calçado, como outrora, mesmo no brasil com
crise.
Chego ao começo da Avenida e tudo muda: o shoping de luxo, filho
único e acarinhado, vai surgindo em decoração de Papai-Noel,
trenó, neve falsa, bolões, luzes feéricas e tudo mais. Penso que
o Natal vai mesmo chegar.
Só
que, nem sombra de presépio. Maria e José, com o menino ao
centro, deitado em berço tosco de palha, com alguns animais à
volta, a estrela no hipotético céu e os três Reis Magos
escafederam-se, de vez.
Volto depressa para casa. Benzo-me, rezo Padre-Nosso e
Ave-Maria, peço de antemão a Deus que me perdoe e, de olhos
cheios d`água, solto um sonoro palavrão.
Maria Lindgren |