Maria Lindgren

 Natal Em Meu Bairro

Naquele dezembro, percebi que o Natal chegava quando desci de meu lar-abrigo e dei de cara com umas ridículas fileiras de luzes à volta das duas lindas palmeiras, sobras da construção impiedosa de meu prédio.

Vou adiante no meu projeto de comprar coisas de armarinho, tipo retroz, agulha e elástico. Ensejo alguns passo e tenho que atravessar a primeira rua, normalmente quase sem trânsito. Tudo encalacrado: montes de ônibus gigantescos, vazios, fantasmas, que o prefeito nos impinge há bem uns seis anos; vans legalizadas e piratas em número apreciável, cheias de passageiros pobres; um mundo de carros de classe média, mais ou menos padronizados, nem grandes nem pequenos, que ninguém é besta de pôr um Mercedes de novo na rua, para morrer de tiro numa esquina do Leblon; bicicletas ousadas na contramão, assustando a gente que espera o sinal certo para atravessar; motoboys entregadores, frenéticos como sempre ou mais um pouco, não sossegam enquanto não sofrem um acidente grave. Senhoras, senhores, moças, rapazes, mães com filho na barriga, de mãos dadas com crianças mais velhas, ou ambas as situações; estudantes que ficaram em recuperação fajuta de um mês de aula; mendigos esparsos pelas calçadas, meninos de seus dez onze anos descalços e sujos, com jeito de quem vai pedir trocado ou consegui-lo de qualquer jeito.

Para piorar, guardas a fazer piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiu  em gestos largos, nos cruzamentos. Táxis aos borbotões e chuva fina apenas iniciada pioram o caos do bairro até ontem hipervalorizado: o meu, logo o meu, conseguido a esforços de vários trabalhos concomitantes meus e de meu marido.

Enfim, a rua do comércio principal do bairro. Uma avenida cheia de carros estacionados ou em embarque e desembarque, improvisado a cada momento. Incontáveis farmácias e drogarias, uns dois ou três bazares de ferragens e louças; lojas de calçado recém-abertas, uma defronte à outra; umas poucas galerias de roupas quase tudo de mulher, ou melhor, de mocinha, que senhora aqui não tem vez; duas papelarias com xérox; dois atendimentos ortopédicos, sempre pululando de pessoas de todas as idades, principalmente velhos, com torções múltiplas e cara de chateação;.

E cafés, muitos Cafés. Com letra minúscula são os de sempre, dos botequins; com maiúscula, os da última moda, às vezes, colados um ao outro. Casas de sucos variados e açaís no copo duplo – pedida dos mais jovens – café somente expresso, de máquina italiana e mil sabores: pingado, maquiado, capuccino... até com whisky.

Bar de cerveja e chope, no máximo, uns três bem caducos.

Uma única casa lotérica, atulhada de filas para a sorte grande ou para xérox, duas farmácia homeopáticas ou de manipulação, uma padaria com cheiro de frango assado de estourar narinas, e pilhas de tudo o que uma padaria condigna tem, desde o pão francês até os produtos de limpeza, que esquecemos de comprar na lista do mercado.

Engraçado: a padaria veste-se para a Páscoa, enfeitada de ovos, mas não para o Natal. Será que o português converteu-se ao judaísmo?

 E bancos, dezenas de bancos, cheios até às quatro. Daí em diante, fila nas caixas eletrônicas. Os bancos, expressão máxima da sociedade neoliberal de consumo, estes, sim, com luzes, papais-noéis, árvores enormes douradas, prateadas de galhos secos enroscados ou de outro artesanato da moda,  lacinhos, bolhinhas, bolões, enfim, toda a parafernália do Natal. E olhe que nem todos receberam o depósito do décimo terceiro salário!!!

Procuro, desanimada, o tal do armarinho. Encontro um bazar de outros tempos, dividido em duas partes: uma vende presentes, vasos para planta e seus devidos apetrechos, umas tantas panelas e louças; outra, uniformes de empregada, camisolas feias, roupa de baixo idem e... aleluia: artigos de costura.

Aí me veio a idéia de comprar uma garrafa térmica que não desonre o nome e conserve a quentura por, pelo menos, umas duas horas. Que idéia, meu Deus! Percorro todas as lojas possíveis, grito da porta: - Tem garrafa térmica? Corro o risco de apanhar dos vendedores: NÃO!!!

Urge dizer que, em meu bairro chique, ninguém que se preze toma café da manhã em casa. Toda a família vai para a calçada da padaria e do açougue velho transformado em confeitaria. Pedem lautos brunchs, sobretudo, nos fins de semana. Se dá praia, alguns vão de biquini, maiô, short e bata indiana: os mais jovens. Se não dá praia ou são mais velhos, bermudão unissex, camiseta ou calça jeans bem gasta, tênis ou sandálias confortáveis. Bonés e chapéus de proteção às faces e às carecas.

Nas lojas de moda, sem enfeite de Natal, que não seja, quando muito, uma carreirinha de luzes pisca-pisca, o vazio da crise financeira. Ar de desolamento. Nada se vende. Ninguém a experimentar roupa ou calçado, como outrora, mesmo no brasil com crise.

Chego ao começo da Avenida e tudo muda: o shoping de luxo, filho único e acarinhado, vai surgindo em decoração de Papai-Noel, trenó, neve falsa, bolões, luzes feéricas e tudo mais. Penso que o Natal vai mesmo chegar.

Só que, nem sombra de presépio. Maria e José, com o menino ao centro, deitado em berço tosco de palha, com alguns animais à volta,  a estrela no hipotético céu e os três Reis Magos escafederam-se, de vez.

Volto depressa para casa. Benzo-me, rezo Padre-Nosso e Ave-Maria, peço de antemão a Deus que me perdoe e, de olhos cheios d`água, solto um sonoro palavrão.

Maria Lindgren

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