Maria Lindgren

No Embalo Do Navio

Olho para fora, vejo um céu nublado, nuvens carregadas em nuances de cor cinza. Estranho a janela. Não tem como abrir, nem a pau. Faço força, ainda sonolenta, sem perceber que estou em alto mar. Sabe, aquele mar que minhas amigas poetisas enfeitam de epítetos, que só elas e os maiorais da poesia sabem escolher e encaixar em seus poemas.

Como fui parar aqui nesse ermo, céus? Não consigo atinar a causa de tamanha temeridade, logo eu que nado nada, nem cachorrinho, isto é, caio no mar e me afogo instantaneamente. Nem a mergulhar aprendi porque sufocava logo, logo. Daí ter desistido de praia. Fico em piscina rasa, onde as crianças pequenas brincam, frustrada da vida.

Em minhas praias, onda vai, onda vem, marola ou vagalhão e eu parada quase na areia seca, deixando cair respingos de água no corpo suado, carente de alívio frio. Admirava os outros, que furavam ondas na maior facilidade, cabeça levantada dos vaidosos. E eu, no esforço inútil de quem aspira ser pintor ou desenhista e não sabe riscar mais que uma bola com tracinhos a imitar o sol.

Durmo um pouco para sair do pesadelo; só pode ser pesadelo. Acordo, e a mesma janela de vidro presa, a me desafiar a respiração. Desisto de lutar contra o inevitável. Vejo mar sem fim, rezo para que não chova, nem vente demais, o mar vire piscinão e o navio branco deslize, folha à brisa.

Sigo por um enorme corredor de portas coladas uma à outra. Admito um hotel flutuante de inúmeros quartos minúsculos. Não vejo viv´alma conhecida ou desconhecida. Coração se acelera. Dobro à esquerda, deparo-me com escadas de muitos degraus: sobem e descem em desafio aos meus joelhos de quase-anciã. Vou, em estresse evidente, devagarinho, agarrada ao corrimão da direita, para não atrapalhar um possível passante à esquerda. Respeito as mãos ainda que a pé. Quase caio, mesmo assim. Sobretudo, ao passar de uma escada para outra: batida certa na parede de pseudo-madeira.

Penso que os anos e anos de ginástica não me ajudam como eu supunha num desejo de futuro livre, leve, solto. E olhe que foram de peso, sem peso, de dança, de Pilates...Tudo para manter um corpo sadio, sem pelancas demasiadas no por-do-sol da vida. Horror de voltar à ser balofa, como na infância. Bolão, vem cá, nunca mais.

Observo um vulto que se aproxima. Sorrio e o rapaz responde: Buen dia. Deve ser espanhol ou argentino, que maravilha. Só então atento para o nome do navio: Ibero. Enfim, posso por em prática o que estudo, preparar-me para uma aula gratuita em ambiente marítimo. Será que o balamço contínuo atrapalha a dicção? O muchacho passa como um raio sem tonteiras e surge atrás dele uma moça sorridente. Daquelas hiperbrancas, vestidas de preto, última moda para garçonetes metidas a chique. Dirijo-me a ela, capricho no sotaque:

- Por favor ( r com língua no céu da boca, não r gutural de carioca. Como puedo salir para ver el mar de más cerca?

- Senhora. É só seguir pela esquerda, passar as lojas Duty Free, a das fotos, o café do piano, continuar toda a vida e abrir a porta. Olha que é bem pesada. Cuidado com a soleira. Muita gente tropeça.

Brasileira, que azar! Morena de pele, cabelos esticados até as costas numa escova caprichada, mechas no cabelo escuro. Típica garota de novela.

Caminho sempre com muito cuidado, uma vez que não posso escolher o lado, canoa vazia de beira-rio, em equilíbrio instável, sempre agradecendo ao engenheiro pelos corrimões.

À porta entreaberta deixa passar um início de vendaval e um som de alucinar, mistura de vozerio humano e música aos berros. Ouvidos doem de vento e som, corpo não agüenta vento que, pior que tudo, me desmancha o cabelo fino, apurado no camarote e conservado nos corredores de ar condicionado. Dou inúmeros espirros. Gripe na certa.

Tanque à frente não é de lavar roupa. Um arremedo de piscina, apinhada de crianças, a pular freneticamente. Cadeiras espreguiçadeiras solucionam o problema de dor generalizada nos corpos frágeis. Ao sol, penso que vale a pena gastar dólares e admirar o mar sem fim.

Tenho sete dias pela frente e talvez aventuras de marinheiro de primeira viagem. Agradeço a Deus. Sou quase feliz.

Maria Lindgren

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