Olho para fora, vejo um céu nublado, nuvens carregadas em
nuances de cor cinza. Estranho a janela. Não tem como abrir,
nem a pau. Faço força, ainda sonolenta, sem perceber que estou
em alto mar. Sabe, aquele mar que minhas amigas poetisas
enfeitam de epítetos, que só elas e os maiorais da poesia
sabem escolher e encaixar em seus poemas.
Como fui parar aqui nesse ermo, céus? Não consigo atinar a
causa de tamanha temeridade, logo eu que nado nada, nem
cachorrinho, isto é, caio no mar e me afogo instantaneamente.
Nem a mergulhar aprendi porque sufocava logo, logo. Daí ter
desistido de praia. Fico em piscina rasa, onde as crianças
pequenas brincam, frustrada da vida.
Em minhas praias, onda vai, onda vem, marola ou vagalhão e eu
parada quase na areia seca, deixando cair respingos de água no
corpo suado, carente de alívio frio. Admirava os outros, que
furavam ondas na maior facilidade, cabeça levantada dos
vaidosos. E eu, no esforço inútil de quem aspira ser pintor ou
desenhista e não sabe riscar mais que uma bola com tracinhos a
imitar o sol.
Durmo um pouco para sair do pesadelo; só pode ser pesadelo.
Acordo, e a mesma janela de vidro presa, a me desafiar a
respiração. Desisto de lutar contra o inevitável. Vejo mar sem
fim, rezo para que não chova, nem vente demais, o mar vire
piscinão e o navio branco deslize, folha à brisa.
Sigo por um enorme corredor de portas coladas uma à outra.
Admito um hotel flutuante de inúmeros quartos minúsculos. Não
vejo viv´alma conhecida ou desconhecida. Coração se acelera.
Dobro à esquerda, deparo-me com escadas de muitos degraus:
sobem e descem em desafio aos meus joelhos de quase-anciã.
Vou, em estresse evidente, devagarinho, agarrada ao corrimão
da direita, para não atrapalhar um possível passante à
esquerda. Respeito as mãos ainda que a pé. Quase caio, mesmo
assim. Sobretudo, ao passar de uma escada para outra: batida
certa na parede de pseudo-madeira.
Penso que os anos e anos de ginástica não me ajudam como eu
supunha num desejo de futuro livre, leve, solto. E olhe que
foram de peso, sem peso, de dança, de Pilates...Tudo para
manter um corpo sadio, sem pelancas demasiadas no por-do-sol
da vida. Horror de voltar à ser balofa, como na infância.
Bolão, vem cá, nunca mais.
Observo um vulto que se aproxima. Sorrio e o rapaz responde:
Buen dia. Deve ser espanhol ou argentino, que
maravilha. Só então atento para o nome do navio: Ibero. Enfim,
posso por em prática o que estudo, preparar-me para uma aula
gratuita em ambiente marítimo. Será que o balamço contínuo
atrapalha a dicção? O muchacho passa como um raio sem
tonteiras e surge atrás dele uma moça sorridente. Daquelas
hiperbrancas, vestidas de preto, última moda para garçonetes
metidas a chique. Dirijo-me a ela, capricho no sotaque:
- Por favor ( r com
língua no céu da boca, não r gutural de carioca.
Como
puedo salir para ver el mar de más cerca?
- Senhora. É só seguir pela esquerda, passar as lojas Duty
Free, a das fotos, o café do piano, continuar toda a vida e
abrir a porta. Olha que é bem pesada. Cuidado com a soleira.
Muita gente tropeça.
Brasileira, que azar! Morena de pele, cabelos esticados até as
costas numa escova caprichada, mechas no cabelo escuro. Típica
garota de novela.
Caminho sempre com muito cuidado, uma vez que não posso
escolher o lado, canoa vazia de beira-rio, em equilíbrio
instável, sempre agradecendo ao engenheiro pelos corrimões.
À porta entreaberta deixa passar um início de vendaval e um
som de alucinar, mistura de vozerio humano e música aos
berros. Ouvidos doem de vento e som, corpo não agüenta vento
que, pior que tudo, me desmancha o cabelo fino, apurado no
camarote e conservado nos corredores de ar condicionado. Dou
inúmeros espirros. Gripe na certa.
Tanque à frente não é de lavar roupa. Um arremedo de piscina,
apinhada de crianças, a pular freneticamente. Cadeiras
espreguiçadeiras solucionam o problema de dor generalizada nos
corpos frágeis. Ao sol, penso que vale a pena gastar dólares e
admirar o mar sem fim.
Tenho sete dias pela frente e talvez aventuras de marinheiro
de primeira viagem. Agradeço a Deus. Sou quase feliz.
Maria
Lindgren