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Olhos azuis sempre me chamaram a atenção, confesso. Talvez por
causa do acastanhado dos olhos da maioria de minha gente
luso-brasileira. De vez em quando, por extravagância, a família
fabrica uns olhos verdes ou castanho-esverdeados, como os de meu
tio paterno: assombro geral.
Esses olhos azuis do
jornal de hoje, triviais não são. Marca-lhes a diferença a
postura do dono diante da situação sem escapatória. Redondos,
bem desenhados, destacam-se sob a camiseta branca, levantada até
o começo do nariz, a fingir embaraço diante da descoberta da
polícia.
A mim, não enganam. Não lhes
percebo vergonha ou medo. Noto, isso sim, desejo de exibição
diante das câmeras da mídia impressa, quiçá da mídia televisiva.
A moça a seu lado,
pecados à parte, esconde com a blusa a cabeça toda. Deixa
entrever uma barriga sem-barriga, índice de juventude bem
moderna. O mesmo malfeito, sem dúvida, mas, diferente do
companheiro, um certo pudor.
O rapaz, mais baixo do que ela,
apesar de estrangeiro declarado, não cuida de esconder todo o
rosto, como é comum nos bandidos. Olha para a câmera como quem
diz: - Ói eu aqui! Quero aparecer, ficar famoso.
Idade de ambos: uns vinte e
poucos anos, não mais. Tento uma reflexão séria sobre os jovens
contraventores, à imitação dos antropólogos ou sociólogos.
Engasgo com um pedaço de torrada do café da manhã, tosse, tosse,
lágrimas nos olhos, coriza no nariz, pensamento e emoção
interrompidos pela força das reações corporais.
Instantes depois, driblo o
engasgo, consigo ler a matéria completa do feito dos policiais:
descobriram o carregamento clandestino, realizado em vias
internas do corpo humano: cocaína ou similar, formatada quais
pequenos charutos brancos. Enfiados onde haviam sido, devem
incomodar bastante. Sinto-me mal fisicamente ao imaginar a
sensação quase dor.
Embora não fossem inusitadas as
vias estranhas, escolhidas pelos traficantes. Há outras, para o
mesmo fim. Num filme mexicano, as moçoilas dispostas a subir na
vida aceitam atravessar a fronteira dos Estados Unidos,
pacotinhos engolidos de cocaína ou crack, vomitados tão
logo cheguem ao hotel texano bem furreca. Desses que americano
adora focalizar para que se pense que o México é uma porcaria.
No filme, os pacotes se abrem no estômago de uma das moças e a
coitada morre.
Os dois traficantes da foto do
jornal têm mais sorte: a droga bem escondida não se abre: é
detectada pela polícia no aeroporto, por incúria dos jovens.
A meta seria chegarem a um
chefão mafioso no exterior, receberem o pagamento farto, para
então adquirirem comprimidos do tipo ecstasy, vendidos,
mais tarde, a preço bem mais alto. São as famosas bolinhas que
transformam as boates de baladas em centros de excitação,
euforia, felicidade, enfim, logo evaporados no suor da dança
frenética dos corpos em desvario.
Dissolvidas em bebida alcoólica
da juventude de classe média alta causam atos inusitados, loucos
mesmo. Não raro, seus clientes desembocam em alamedas e avenidas
da cidade maluca, em carros clones dos da Fórmula I, com
freqüência, devastadores de vidas. Ao amanhecer, os veículos em
frangalhos supõem corpos em estado semelhante - saldo fúnebre
das batidas cinematográficas sem direção, nem freio. Quando não
bóiam no canal sujo da minha rua tão bonita.
Aí, lacrimejam-se os olhos,
contorcem-se as bocas das famílias, em desespero. Enquanto os
habitantes comuns da cidade, no máximo, comentam o fato ou dão
uma rápida olhadela em mais um desastre, enquanto seguem a
caminho da praia ou do trabalho.
Não sou especialista. Apenas
observadora ou ouvinte estupefata do que me contam os amigos: os
poucos usuários de droga, salvos por sorte ou um pouco de
consciência, mal conseguem esconder da família desorientada as
marcas físico-psicológicas das loucuras cometidas.
Sem falar nos viciados
conhecidos: filhos ou parentes de amigos que, depois de várias
goles e cheiradas, não demoram a sentir a exigência orgânica e
psicológica de mais, mais, mais e mais bolinha ou papelote, em
cadeia sem fim, nem cura.
Mas nada disso passa pelos olhos
azuis do traficante estrangeiro ou e pela barriga sem barriga da
companheira brasileira. Talvez nunca passe.
Maria Lindgren
Nov/2007 |