Maria Lindgren

 Notícia  Mal Digerida

             Olhos azuis sempre me chamaram a atenção, confesso. Talvez por causa do acastanhado dos olhos da maioria de minha gente luso-brasileira. De vez em quando, por extravagância, a família fabrica uns olhos verdes ou castanho-esverdeados, como os de meu tio paterno: assombro geral.

            Esses olhos azuis do jornal de hoje, triviais não são. Marca-lhes a diferença a postura do dono diante da situação sem escapatória. Redondos, bem desenhados, destacam-se sob a camiseta branca, levantada até o começo do nariz, a fingir embaraço diante da descoberta da polícia.

 A mim, não enganam. Não lhes percebo vergonha ou medo. Noto, isso sim, desejo de exibição diante das câmeras da mídia impressa, quiçá da mídia televisiva.

            A moça a seu lado, pecados à parte, esconde com a blusa a cabeça toda. Deixa entrever uma barriga sem-barriga, índice de juventude bem moderna. O mesmo malfeito, sem dúvida, mas, diferente do companheiro, um certo pudor.

O rapaz, mais baixo do que ela, apesar de estrangeiro declarado, não cuida de esconder todo o rosto, como é comum nos bandidos. Olha para a câmera como quem diz: - Ói eu aqui! Quero aparecer, ficar famoso.

Idade de ambos: uns vinte e poucos anos, não mais. Tento uma reflexão séria sobre os jovens contraventores, à imitação dos antropólogos ou sociólogos. Engasgo com um pedaço de torrada do café da manhã, tosse, tosse, lágrimas nos olhos, coriza no nariz, pensamento e emoção interrompidos pela força das reações corporais.

 Instantes depois, driblo o engasgo, consigo ler a matéria completa do feito dos policiais: descobriram o carregamento clandestino, realizado em vias internas do corpo humano: cocaína ou similar, formatada quais pequenos charutos brancos. Enfiados onde haviam sido, devem incomodar bastante. Sinto-me mal fisicamente ao imaginar a sensação quase dor.

 Embora não fossem inusitadas as vias estranhas, escolhidas pelos traficantes. Há outras, para o mesmo fim. Num filme mexicano, as moçoilas dispostas a subir na vida aceitam atravessar a fronteira dos Estados Unidos, pacotinhos engolidos de cocaína ou crack, vomitados tão logo cheguem ao hotel texano bem furreca. Desses que americano adora focalizar para que se pense que o México é uma porcaria. No filme, os pacotes se abrem no estômago de uma das moças e a coitada morre.

Os dois traficantes da foto do jornal têm mais sorte: a droga bem escondida não se abre: é detectada pela polícia no aeroporto, por incúria dos jovens.

 A meta seria chegarem a um chefão mafioso no exterior, receberem o pagamento farto, para então adquirirem comprimidos do tipo ecstasy, vendidos, mais tarde, a preço bem mais alto. São as famosas bolinhas que transformam as boates de baladas em centros de excitação, euforia, felicidade, enfim, logo evaporados no suor da dança frenética dos corpos em desvario.

Dissolvidas em bebida alcoólica da juventude de classe média alta causam atos inusitados, loucos mesmo. Não raro, seus clientes desembocam em alamedas e avenidas da cidade maluca, em carros clones dos da Fórmula I, com freqüência, devastadores de vidas. Ao amanhecer, os veículos em frangalhos supõem corpos em estado semelhante - saldo fúnebre das batidas cinematográficas sem direção, nem freio. Quando não bóiam no canal sujo da minha rua tão bonita.

Aí, lacrimejam-se os olhos, contorcem-se as bocas das famílias, em desespero. Enquanto os habitantes comuns da cidade, no máximo, comentam o fato ou dão uma rápida olhadela em mais um desastre, enquanto seguem a caminho da praia ou do trabalho.

Não sou especialista. Apenas observadora ou ouvinte estupefata do que me contam os amigos: os poucos usuários de droga, salvos por sorte ou um pouco de consciência, mal conseguem esconder da família desorientada as marcas físico-psicológicas das loucuras cometidas.

 Sem falar nos viciados conhecidos: filhos ou parentes de amigos que, depois de várias goles e cheiradas, não demoram a sentir a exigência orgânica e psicológica de  mais, mais, mais e mais bolinha ou papelote, em cadeia sem fim, nem cura.

Mas nada disso passa pelos olhos azuis do traficante estrangeiro ou e pela barriga sem barriga da companheira brasileira. Talvez nunca passe.

Maria Lindgren

Nov/2007

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