Maria Lindgren

 O Forasteiro

A Meu Irmão

Doía-lhe, mais que o habitual, a ausência do irmão, eterno forasteiro. Sem a alma bem embrulhada do  irmão a seu lado, o espaço da  falta tornava-se mais oco e dorido.

Para uma pessoa que, como a felicidade do poeta melancólico, nunca está onde nós estamos,  saudades do Brasil e da família, ficam em banho-maria. E disfarçadas. Exceto nas festas para conterrâneos de destino semelhante. Aí, ao primeiro som tirado do violão mavioso, os olhos dos forasteiros todos dão de lacrimejar. Vontade de voar, asas reais, para a terra natal, falsamente engrandecida pelo visão onírica dos ausentes à força.

 “Injusta a vida! Por que justo ele?”, pensou, enquanto procurava uma fotografia recebida há pouco tempo. Sempre havia sido um admirador inconteste das brasileirices: feijoada, tutu de feijão à mineira, botequim com caipirinha, chope gelado e, sobretudo, torresmo. Mais ainda,  serestas bem servidas e sorvidas: cardápio farto, cerveja e violão.

Em memória consentida, ela ouvia nítidos, inconfundíveis, os acordes nada elétricos das serestas caseiras. Ao irmão violeiro, juntavam-se primos e amigos da velha guarda, para acompanharem, ritmados e afinados, as vozes nem tanto, de quem quisesse cantar. E lá vinham tentativas válidas da bossa-nova de João Gilberto, Vinicius e Tom Jobim, dos sambinhas de Paulinho da Viola, do “tique-taque do meu coração”, da Carmem  Miranda  antes de descoberta pela América. E, gran finale, o fado trinado da lusitana Amália Rodrigues, com xaile e tudo...

Desde pequeno, o irmão tinha destino traçado. Mostrava-se um leitor faminto de clássicos e modernos. Herança paterna. Escrevia muito bem e não temia as línguas estrangeiras. Preparava-se, sem se dar conta, para a futura profissão itinerante. 

 Na adolescência, com seu cortejo de indecisões, atônito, sem saber como se tornar um profissional “de truz”, à altura do sonho da família do imigrante sem carreira profissional de qualidade, submetera-se a um teste vocacional, muito em voga à época. Resultado: Itamarati. Diplomacia.

  A idéia de conhecer o “mundo, mundo, vasto mundo” e  sair de uma vida familiar, sufocante em carinhos e normas, não lhe era desagradável.

 - Diplomata, meu filho, é coisa muito séria. É profissão de nobreza -, afirmara-lhe o pai sério, patenteando o orgulho.

Adeus, serestas pelas ruas Adeus, acepipes da culinária brasileira típica! Adeus, esbórneas com a galera do bairro! Começava o ir-e-vir pior do que o de caixeiro-viajante. Os familiares mal iam-se habituando à sua presença e ele, às amizades revistas e ao país de origem, nova partida. Viena, Praga, Tunis, Nova York, São Francisco... Cartões e mais cartões guardados, quando não usados como marcador de livro!

E ela, socada na mesma cidade, admitia uma ponta de inveja. São Francisco,  meca de seus ego-modelos dos anos 60, dos hippies de sua admiração, hei-la no horizonte do irmão diplomata. Não, no dela. “Não importa. Posso visitá-lo, do jeito que estive em Praga e Nova York. Talvez ele mande a passagem. E pode ser que o dólar caia”, pensou, sonhando os gurus Timothy Leary e Jack Kerouac, mais a ponte, as ladeiras, as casas de época... Tudo pronto para uma recepção de gala e um extasiar de coração. 

 Decepção! O maldito dólar desembestou a subir e a moça sequer vislumbrou o famoso Paz e Amor, da São Francisco idealizada. A cidade permaneceu invento imaginativo de jovem imatura. Mesmo após a crítica feroz do irmão, via e-mail:

  - São Francisco é linda, mas fria, em todos os sentidos. Só dá americano metido a dono do mundo e fechado à maneira austríaca. Não fizemos nenhum amigo. Até minha filha, só tem colegas da escola, na escola. Em casa, jamais. Brasileiro aqui não tem vez.

      Ai, essa carrièrre do mano! As “women in love” da casa sempre se recusaram a aceitar o despedir-se, sem tempo determinado, do convívio ameno, gostoso do viajante por contingência profissional. A mãe, então... Luto de morte ao pressentir o filho caçula, soltando-lhe a barra da saia de vez. Só o pai imigrante não reagiu mal. Acostumara-se a viver a família por correspondência.

Riso esboçado, apesar do clima nostálgico em que mergulhara de cabeça, em domingo de chuva, apareceu-lhe, em flashback, o episódio pitoresco de uma certa “Noite de Adeus”, à saída de um bar-restaurante badalado, do Rio de Janeiro. Pretensa alegria geral e choradeira desenfreada à porta, mal esperando a partida definitiva. Em meio aos abraços soluçantes, um paquerador de calçada ousara dirigir-se a uma das irmãs:

- Topa tomarmos um chopinho?

- De jeito nenhum! Não vê que eu estou em prantos? Meu irmão vai embora, meu filho!  Não me conformo.

 Estréia ainda. Despedida para Brasília, não tão distante assim. Depois, o choque brutal do primeiro posto no exterior: Viena d´ Áustria. Aí, então: vendavais e tornados devastadores do coração, à moda daqueles ventos rodopiando em funil, matéria de filme-catástrofe americano. 

 Mistura de português com brasileira dá nisso, toda vez que um se desgarra. Influência indubitável do fado e do samba-canção: “Bem pensado, todos temos nosso fado/ E quem nasce malfadado, melhor sorte não terá...Tristeza não tem fim/felicidade, sim”.

 Para o spoiled child, a dor da solidão absurda, da perda das raízes, da orfandade obrigatória. A bela Áustria, dos cartões postais, metamorfoseada, nua e crua, pela convivência com estranhos estrangeiros, que tacham de árabe, não importa que moreno for. Para os austríacos, eram os brancos... e o resto. Flagrante menosprezo aos diferentes. Panegírico ao tipo ariano e ponto final.

Viena lúgubre para o pobre rapaz, em lugar do ensolarado castelo de Sissi, a Imperatriz, do filme clássico de Romy Schneider. Pudera! Hitler era austríaco, embora se fizesse passar por alemão, de origem e convicção. 

- Socorro, minha irmã! Vem morar aqui comigo! Estou definhando...

Impossível salvá-lo. O pobre irmão foi resgatado, náufrago de calor humano, pela Tchecoslováquia e um embaixador simpático à causa do exílio profissional em terras inóspitas.

 Na velha e linda Praga, dominada pela União Soviética no auge do poderio, o irmão deu de ombros para o apregoado “regime de opressão”. Aninhou-se em braços tchecos. Literalmente. Casou-se, “véu e grinalda”, em cerimônia litúrgica solene, não testemunhada por ninguém da família.

           As consoantes amontoadas do falar tcheco, sem vogal para desatar a língua dos sofredores falantes brasileiros, não causaram grandes divergências. Foi no Brasil, que começou a se esfarinhar, a pouco e pouco, aquilo que parecia uma rocha inexpugnável. Choque cultural.

Ultimo recurso, a fascinante Manhattan, a New York, New York de Frank Sinatra  e Lisa Minelli. As torres do World Trade Center, em pé ainda, não ancoraram a queda matrimonial. Tombou-se o casório. Definitivamente.

Um novo lar, em uma Brasília bem mais aconchegante, apaziguou-lhe os azedumes da alma pirilampa. Casou-se. Dessa vez, com uma brasileira autêntica. Carioca. E, inda para completar, pariram uma bela filha. As vindas ao Rio de Janeiro matam, desde então, dois coelhos: famílias do marido e da mulher.

Um tempo com a língua portuguesa, que beleza! O irmão purista nem ligava mais para os descalabros gramaticais impingidos pela TV brasileira: o pobre subjuntivo morto e enterrado, as concordâncias discordando das regras gramaticais, a boçalidade e o palavreado chulo dos programas de domingo. Soavam-lhe Mozart.

- Será que ele agora vai fincar pé em algum lugar? -, perguntávamo-nos todos, parentes e amigos.

Qual o quê! Por coincidência, a Europa Central chegou-lhe, sem aviso: a pequena Sófia, pérola no mundo, abrigo seguro. Sem conflitos eternos, nem terrorismos de Bin Laden ou Bush. Mais que tudo, sem as balas atiradas a esmo ou bem miradas dos traficantes e da polícia, nas favelas cariocas.

   “Ah! Desta vez, hei de conferir!”, decidiu Miriam, sem titubear. “Nem o frio de menos zero, nem o euro ou o dólar lá nas alturas serão escudos a me deter. Posso até empenhar as jóias de mamãe”.

      Lembrou-se de uma linda blusa búlgara, bordada de linha grossa vermelha, de há trinta anos, que não destoava da moda iniciada entre as atuais garotas de Ipanema, junto às túnicas indianas. Para completar, bateu com os olhos num anúncio de perfume recém-lançado, no Brasil das revistas de consultório médico ou dentista, exaltando a “fragrância sensual das flores da Bulgária”: Bulgary!

Braços e pernas em posição fetal, na cama confortável do apart-residência novo, conjecturas residuais sobre o irmão forasteiro:

-         Coitado! Deve sentir um falta danada do Brasil com todas as crises.

 E assim, quase entregue aos músculos amolecidos do sono, encheu-lhe os

sentidos o odor da feijoada, o sabor das batidas, o estalar do torresmo.

Foi dormir reconfortada.

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