Doía-lhe, mais que o habitual, a ausência do irmão, eterno
forasteiro. Sem a alma bem embrulhada do
irmão a seu lado, o espaço da falta
tornava-se mais oco e dorido.
Para uma pessoa que, como
a felicidade do poeta melancólico, nunca está onde nós estamos,
saudades do Brasil e da família, ficam em banho-maria. E
disfarçadas. Exceto nas festas para conterrâneos de destino
semelhante. Aí, ao primeiro som tirado do violão mavioso, os
olhos dos forasteiros todos dão de lacrimejar. Vontade de voar,
asas reais, para a terra natal, falsamente engrandecida pelo
visão onírica dos ausentes à força.
“Injusta
a vida! Por que justo ele?”, pensou, enquanto procurava uma
fotografia recebida há pouco tempo. Sempre havia sido um
admirador inconteste das brasileirices: feijoada, tutu de feijão
à mineira, botequim com caipirinha, chope gelado e, sobretudo,
torresmo. Mais ainda, serestas bem
servidas e sorvidas: cardápio farto, cerveja e violão.
Em memória consentida, ela
ouvia nítidos, inconfundíveis, os acordes nada elétricos das
serestas caseiras. Ao irmão violeiro, juntavam-se primos e
amigos da velha guarda, para acompanharem, ritmados e afinados,
as vozes nem tanto, de quem quisesse cantar. E lá vinham
tentativas válidas da bossa-nova de João Gilberto, Vinicius e
Tom Jobim, dos sambinhas de Paulinho da Viola, do “tique-taque
do meu coração”, da Carmem Miranda
antes de descoberta pela América. E, gran finale,
o fado trinado da lusitana Amália Rodrigues, com xaile e tudo...
Desde pequeno, o irmão
tinha destino traçado. Mostrava-se um leitor faminto de
clássicos e modernos. Herança paterna. Escrevia muito bem e não
temia as línguas estrangeiras. Preparava-se, sem se dar conta,
para a futura profissão itinerante.
Na
adolescência, com seu cortejo de indecisões, atônito, sem saber
como se tornar um profissional “de truz”, à altura do sonho da
família do imigrante sem carreira profissional de qualidade,
submetera-se a um teste vocacional, muito em voga à época.
Resultado: Itamarati. Diplomacia.
A
idéia de conhecer o “mundo, mundo, vasto mundo”
e sair de uma vida familiar, sufocante
em carinhos e normas, não lhe era desagradável.
-
Diplomata, meu filho, é coisa muito séria. É profissão de
nobreza -, afirmara-lhe o pai sério, patenteando o orgulho.
Adeus, serestas pelas ruas
Adeus, acepipes da culinária brasileira típica! Adeus, esbórneas
com a galera do bairro! Começava o ir-e-vir pior do que o de
caixeiro-viajante. Os familiares mal iam-se habituando à sua
presença e ele, às amizades revistas e ao país de origem, nova
partida. Viena, Praga, Tunis, Nova York, São Francisco...
Cartões e mais cartões guardados, quando não usados como
marcador de livro!
E ela, socada na mesma
cidade, admitia uma ponta de inveja. São Francisco,
meca de seus ego-modelos dos anos 60, dos hippies
de sua admiração, hei-la no horizonte do irmão diplomata. Não,
no dela. “Não importa. Posso visitá-lo, do jeito que estive em
Praga e Nova York. Talvez ele mande a passagem. E pode ser que o
dólar caia”, pensou, sonhando os gurus Timothy Leary e Jack
Kerouac, mais a ponte, as ladeiras, as casas de época... Tudo
pronto para uma recepção de gala e um extasiar de coração.
Decepção!
O maldito dólar desembestou a subir e a moça sequer vislumbrou o
famoso Paz e Amor, da São Francisco idealizada. A cidade
permaneceu invento imaginativo de jovem imatura. Mesmo após
a crítica feroz do irmão, via e-mail:
-
São Francisco é linda, mas fria, em todos os sentidos. Só dá
americano metido a dono do mundo e fechado à maneira austríaca.
Não fizemos nenhum amigo. Até minha filha, só tem colegas da
escola, na escola. Em casa, jamais. Brasileiro aqui não tem vez.
Ai, essa carrièrre
do mano! As “women in love” da casa
sempre se recusaram a aceitar o despedir-se, sem tempo
determinado, do convívio ameno, gostoso do viajante por
contingência profissional. A mãe, então... Luto de morte ao
pressentir o filho caçula, soltando-lhe a barra da saia de vez.
Só o pai imigrante não reagiu mal. Acostumara-se a viver a
família por correspondência.
Riso esboçado, apesar do
clima nostálgico em que mergulhara de cabeça, em domingo de
chuva, apareceu-lhe, em flashback, o
episódio pitoresco de uma certa “Noite de Adeus”, à saída de um
bar-restaurante badalado, do Rio de Janeiro. Pretensa alegria
geral e choradeira desenfreada à porta, mal esperando a partida
definitiva. Em meio aos abraços soluçantes, um paquerador de
calçada ousara dirigir-se a uma das irmãs:
- Topa tomarmos um
chopinho?
- De jeito nenhum! Não vê
que eu estou em prantos? Meu irmão vai embora, meu filho!
Não
me conformo.
Estréia
ainda. Despedida para Brasília, não tão distante assim. Depois,
o choque brutal do primeiro posto no exterior: Viena d´ Áustria.
Aí, então: vendavais e tornados devastadores do coração, à moda
daqueles ventos rodopiando em funil, matéria de filme-catástrofe
americano.
Mistura
de português com brasileira dá nisso, toda vez que um se
desgarra. Influência indubitável do fado e do samba-canção: “Bem
pensado, todos temos nosso fado/ E quem
nasce malfadado, melhor sorte não terá... “Tristeza
não tem fim/felicidade, sim”.
Para
o spoiled child, a dor da solidão absurda,
da perda das raízes, da orfandade obrigatória. A bela Áustria,
dos cartões postais, metamorfoseada, nua e crua, pela
convivência com estranhos estrangeiros, que tacham de árabe, não
importa que moreno for. Para os austríacos, eram os brancos... e
o resto. Flagrante menosprezo aos diferentes. Panegírico ao tipo
ariano e ponto final.
Viena lúgubre para o pobre
rapaz, em lugar do ensolarado castelo de Sissi, a Imperatriz, do
filme clássico de Romy Schneider. Pudera! Hitler era austríaco,
embora se fizesse passar por alemão, de origem e convicção.
- Socorro, minha irmã! Vem
morar aqui comigo! Estou definhando...
Impossível salvá-lo. O
pobre irmão foi resgatado, náufrago de calor humano, pela
Tchecoslováquia e um embaixador simpático à causa do exílio
profissional em terras inóspitas.
Na
velha e linda Praga, dominada pela União Soviética no auge do
poderio, o irmão deu de ombros para o apregoado “regime de
opressão”. Aninhou-se em braços tchecos. Literalmente. Casou-se,
“véu e grinalda”, em cerimônia litúrgica solene, não
testemunhada por ninguém da família.
As consoantes amontoadas do falar tcheco, sem vogal para
desatar a língua dos sofredores falantes brasileiros, não
causaram grandes divergências. Foi no Brasil, que começou a se
esfarinhar, a pouco e pouco, aquilo que parecia uma rocha
inexpugnável. Choque cultural.
Ultimo recurso, a
fascinante Manhattan, a New York, New York
de Frank Sinatra e Lisa Minelli. As
torres do World Trade Center, em pé ainda,
não ancoraram a queda matrimonial. Tombou-se o casório.
Definitivamente.
Um novo lar,
em uma Brasília bem mais aconchegante,
apaziguou-lhe os azedumes da alma pirilampa. Casou-se. Dessa
vez, com uma brasileira autêntica. Carioca. E, inda para
completar, pariram uma bela filha. As vindas ao Rio de Janeiro
matam, desde então, dois coelhos: famílias do marido e da
mulher.
Um tempo com a língua
portuguesa, que beleza! O irmão purista nem ligava mais para os
descalabros gramaticais impingidos pela TV brasileira: o pobre
subjuntivo morto e enterrado, as concordâncias discordando das
regras gramaticais, a boçalidade e o palavreado chulo dos
programas de domingo. Soavam-lhe Mozart.
- Será que ele agora vai
fincar pé em algum lugar? -, perguntávamo-nos todos, parentes e
amigos.
Qual o quê! Por
coincidência, a Europa Central chegou-lhe, sem aviso: a pequena
Sófia, pérola no mundo, abrigo seguro. Sem conflitos eternos,
nem terrorismos de Bin Laden ou Bush. Mais que tudo, sem as
balas atiradas a esmo ou bem miradas dos traficantes e da
polícia, nas favelas cariocas.
“Ah! Desta vez, hei de conferir!”, decidiu Miriam, sem titubear.
“Nem o frio de menos zero, nem o euro ou o dólar lá nas alturas
serão escudos a me deter. Posso até empenhar as jóias de mamãe”.
Lembrou-se de uma linda blusa búlgara, bordada de linha
grossa vermelha, de há trinta anos, que não destoava da moda
iniciada entre as atuais garotas de Ipanema, junto às túnicas
indianas. Para completar, bateu com os olhos num anúncio de
perfume recém-lançado, no Brasil das revistas de consultório
médico ou dentista, exaltando a “fragrância sensual das flores
da Bulgária”: Bulgary!
Braços e pernas em posição
fetal, na cama confortável do apart-residência novo, conjecturas
residuais sobre o irmão forasteiro:
-
Coitado! Deve sentir um falta danada do Brasil com
todas as crises.
E
assim, quase entregue aos músculos amolecidos do sono,
encheu-lhe os
sentidos o odor da
feijoada, o sabor das batidas, o estalar do torresmo.
Foi dormir reconfortada. |