Maria Lindgren

O Grande Baque 

         A frustração do não ter feito me oprime. Nem cheguei a conhecer a pousada que nos aguardava em Conservatória e perdi um de meus maiores prazeres:: as serestas antigas, atrativo da região.

Tudo começou nas palavras de uma senhora que fazia unha do meu lado, palrando sem parar. Fizeram-me cócegas e... deu no que deu.

 – Olha! Tem vários grupos que vou te contar... Ninguém resiste: cai todo mundo na seresta. A lua estava assim enluarada/ quando a voz já bem cansada/ eu ouvi de um trovador...

Que idéia a minha! Obrigar um homem cansado e mau motorista a me conduzir ao paraíso das montanhas fluminenses, em estrada ainda sem asfalto, por incúria dos governantes, não sei se federais, estaduais ou municipais. Já se sabe, no Brasil, eles jamais assumem a culpa porque “não é da minha alçada”, dizem.

Dentro do carro, o ombro dói-lhe como se fincado por punhal afiado. Se é que punhal se finca em ombro. Aguda, a dor não lhe corta, todavia, os pensamentos secos, quando deviam ser agitados. A indiferença é o tom dominante, não importa o ruído de galhos secos e mato a roçarem o vidro da janela.

. “Se virar mais um pouco, caio de vez no precipício? Fico dependurada em algum galho de meio do caminho até o solo? Morro sem notar ou sofro a angústia própria do ser humano diante do desconhecido fatal?

Sei que estou de olhos fechados, em defesa. Mas, do quê?! Arrisco abri-los bem devagar. Vejo meio esquisito o que parece ser o teto do carro. Aos poucos, tomo consciência de que estamos de pernas pro ar. As quatro rodas. Se não, talvez fosse mais fácil a saída.

Ouço vozes em discussão, por perto: a de meu marido, e mais longe, as dos espectadores usuais de tragédias ou salvadores heróicos dos acidentados.

Continuo na tranqüilidade. Logo eu, a histérica, que perde a cabeça com coisas ínfimas do dia a dia. Penso em meus filhos, sem nenhuma aflição. Tenho certeza de que ficarão bem, caso eu morra: não faço falta.

E o marido? Estará bem mesmo, conforme sua voz firme sem vacilos ou gemidos? Ou disfarça para não me preocupar?. Eta homem delicado! E danado de barbeiro. Sorrio. Sempre dirige sonhando seus afazeres deixados de lado em hora difícil, doentes que podem morrer em sua ausência, atritos entre os companheiros de trabalho, intensificados pelo vazio dele.

Dor, dor e mais dor, até culminar com clarão e ploc de coisa quebrada. Dou um urro. O homenzarrão de botas empurra com as patas meu ombro infeliz e o encaixa perfeito. Estanca-se a dor. Só então percebo que o ombro direito havia caído. Segurava o braço sem o sentir, é verdade.

O marido me conta para me fazer rir: - Tive que dizer qualquer idade no posto de saúde. Você, nem entrando em coma, diz sua idade. Que coisa!

Ensaio uma gargalhada, mas não ouso: o sacolejo do carro pode provocar mais dor, destruir qualquer graça. Pergunto:

- Como é que me tiraram do carro?! - Curiosidade legitima, muito maior que o desconforto.

- Sei lá! Parece que puxaram você pelos antebraços, apesar dos gemidos só aumentarem. Lembrei de meus tempos de pronto-socorro e mandei você segurar o braço de ombro caído, enquanto examinava meu próprio corpo.

Lembro-me bem: era como se segurasse o braço de outra pessoa. Nunca, o meu próprio. O fato é que, mal ou bem, puseram o carro de pé, o motor pegou e lá seguimos em conversa e estrada, de volta para o Rio.

 Quem manda ficar toda assanhada. Bem feito! As serestas de minha juventude percorrem de novo meu corpo em frêmito. Meu irmão e dois amigos, no violão, e eu, apurando a voz para não fazer feio. Lua cheia de emocionar gente que vive trancafiada em si mesma, dentro de casa ou do trabalho. Ruas desertas receptivas. .

Depois, bem depois, quase um ano de braço sem uso, caligrafia entortada pelo sem jeito da mão esquerda, exercícios mil na fisioterapia e além.

Perco o braço em instantes, e me considero mutilada até hoje.

voltar