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A frustração do não ter feito me
oprime. Nem cheguei a conhecer a pousada que nos aguardava em
Conservatória e perdi um de meus maiores prazeres:: as serestas
antigas, atrativo da região.
Tudo começou nas palavras de uma
senhora que fazia unha do meu lado, palrando sem parar.
Fizeram-me cócegas e... deu no que deu.
– Olha! Tem vários grupos que
vou te contar... Ninguém resiste: cai todo mundo na seresta.
A lua estava assim enluarada/ quando a voz já bem
cansada/ eu ouvi de um trovador...
Que idéia a minha! Obrigar um
homem cansado e mau motorista a me conduzir ao paraíso das
montanhas fluminenses, em estrada ainda sem asfalto, por incúria
dos governantes, não sei se federais, estaduais ou municipais.
Já se sabe, no Brasil, eles jamais assumem a culpa porque “não é
da minha alçada”, dizem.
Dentro do carro, o ombro dói-lhe
como se fincado por punhal afiado. Se é que punhal se finca em
ombro. Aguda, a dor não lhe corta, todavia, os pensamentos
secos, quando deviam ser agitados. A indiferença é o tom
dominante, não importa o ruído de galhos secos e mato a roçarem
o vidro da janela.
. “Se virar mais um pouco, caio
de vez no precipício? Fico dependurada em algum galho de meio do
caminho até o solo? Morro sem notar ou sofro a angústia própria
do ser humano diante do desconhecido fatal?
Sei que estou de olhos fechados,
em defesa. Mas, do quê?! Arrisco abri-los bem devagar. Vejo meio
esquisito o que parece ser o teto do carro. Aos poucos, tomo
consciência de que estamos de pernas pro ar. As quatro rodas. Se
não, talvez fosse mais fácil a saída.
Ouço vozes em discussão, por
perto: a de meu marido, e mais longe, as dos espectadores usuais
de tragédias ou salvadores heróicos dos acidentados.
Continuo na tranqüilidade. Logo
eu, a histérica, que perde a cabeça com coisas ínfimas do dia a
dia. Penso em meus filhos, sem nenhuma aflição. Tenho certeza de
que ficarão bem, caso eu morra: não faço falta.
E o marido? Estará bem mesmo,
conforme sua voz firme sem vacilos ou gemidos? Ou disfarça para
não me preocupar?. Eta homem delicado! E danado de barbeiro.
Sorrio. Sempre dirige sonhando seus afazeres deixados de lado em
hora difícil, doentes que podem morrer em sua ausência, atritos
entre os companheiros de trabalho, intensificados pelo vazio
dele.
Dor, dor e mais dor, até
culminar com clarão e ploc de coisa quebrada. Dou um urro. O
homenzarrão de botas empurra com as patas meu ombro infeliz e o
encaixa perfeito. Estanca-se a dor. Só então percebo que o ombro
direito havia caído. Segurava o braço sem o sentir, é verdade.
O marido me conta para me fazer
rir: - Tive que dizer qualquer idade no posto de saúde. Você,
nem entrando em coma, diz sua idade. Que coisa!
Ensaio uma gargalhada, mas não
ouso: o sacolejo do carro pode provocar mais dor, destruir
qualquer graça. Pergunto:
- Como é que me tiraram do
carro?! - Curiosidade legitima, muito maior que o desconforto.
- Sei lá! Parece que puxaram
você pelos antebraços, apesar dos gemidos só aumentarem. Lembrei
de meus tempos de pronto-socorro e mandei você segurar o braço
de ombro caído, enquanto examinava meu próprio corpo.
Lembro-me bem: era como se
segurasse o braço de outra pessoa. Nunca, o meu próprio. O fato
é que, mal ou bem, puseram o carro de pé, o motor pegou e lá
seguimos em conversa e estrada, de volta para o Rio.
Quem manda ficar toda
assanhada. Bem feito! As serestas de minha juventude percorrem
de novo meu corpo em frêmito. Meu irmão e dois amigos, no
violão, e eu, apurando a voz para não fazer feio. Lua cheia de
emocionar gente que vive trancafiada em si mesma, dentro de casa
ou do trabalho. Ruas desertas receptivas. .
Depois, bem depois, quase um ano
de braço sem uso, caligrafia entortada pelo sem jeito da mão
esquerda, exercícios mil na fisioterapia e além.
Perco o braço em instantes, e me
considero mutilada até hoje. |