|
Coroai-me de rosas
E de folhas breves,
E basta
(Ricardo Reis)
Era um jardim às avessas. O que devia exibir-se à frente da
casa, ficava nos fundos. Coisa de gente esquiva, temente da
invasão de crianças, cachorros, gatos e, mais que tudo, de
intrusos da vizinhança. O homem preferia a privacidade de um
jardim oculto à exibição de flores e vegetação, cobiçadas por
sua exuberância. Mal-olhado pode matar. Sabe-se lá?!
A hera fechada do muro
de trás abria-se aos beija-flores: vinham bicar a água dos
potinhos de vidro espalhados, pousavam aqui e acolá em pétalas
frágeis, asas ventoinhas frenéticas a sustentar-lhes o peso.
Bem-te-vis afoitos praticavam seu canto natural. Uma ou outra
planta crescera em árvore, raízes ameaçando romper o calçamento.
Mas, poda-las nunca. Deixa-las morrer escuras, encarquilhadas,
jamais! Que se danasse o chão! A sombra dadivosa compensava
possíveis topadas.
Muita vegetação, poucas
flores. Requintadas, embora. Sobretudo, no mês de setembro:
hortências petropolitanas, em guirlanda de variadas formas,
orquídeas roxas e amarelas apegadas ao tronco de duas árvores.
Flores da noite, jasmins, violetas e rosas, muitas roseiras,
como as do Norte de Portugal na primavera. As Mariasemvergonhas,
por mais que o epíteto lhes caísse bem, não ousavam expandir-se.
O único grande trabalho, as gibóias alpinistas de troncos.
Estas, sim, tinham que ser arrancadas. Às flores e vegetação
baixa, água fresca e muito carinho.
As manhãs eram suadas
para um aposentado na casa dos sessenta. Bem cedinho, tesouras
e pás de diversos tamanhos, regadores de mão ou mangueiras
ocupavam mãos ágeis. Em mágica, o mato invasor, os galhos
ressecados, as folhas doentes, a sujeira de terra pelo chão...
desvanesciam-se. E a água fresca borrifava as plantas, fazia
brilhar as recém-natas e as ainda na flor da idade.
As noites, estreladas ou não
eram dele, só dele. Olhava o céu: cada estrela destacada em
brilho, um extasiar novo; lua cheia, festa íntima segura; nuvem
pesada, prenúncio de chuva de bonança. Tempestade, nem cogitava.
Começava ao entardecer o ritual
da yoga ecológica. Sentava-se no banco, de madeira, braços
abertos ou a segurar-lhe a cabeça, pernas esticadas ou em pose
de Buda, e a respiração profunda, em compasso lento. Inspirar,
barriga para dentro; expirar, barriga para fora - intróito ao
olhar observador. Acompanhava a carreirinha de formigas
carregando pedaços de folha, a minhoca sinuosa escorregando de
um ou outro canteiro, uma pequena lagarta perdida. Escutava a
música das cigarras em prenúncio de verão e a voz dos grilos.
Bem mais tarde, macaquinhos de
circo, perdidos de pequenas florestas do bairro, corriam em
maratona, em cima do muro. Paravam por instantes, se ele lhes
oferecesse banana. Raro uma gambá malcheirosa seguia a mesma
trilha, um ou outro morcego bêbado quase o tocava. Muito raro
mesmo.
Três horas de rotina e ceia bem
leve, sono de criança sadia. Sem relógio, o homem dormia e
despertava no horário do jardim.
Certo dia, a surpresa: à hora do
sono do sol, aproximou-se do seu éden privativo. Estranhou a
falta do odor da flor da noite, não ouviu as cigarras anunciando
o verão, nem o cri-cri dos grilos. Sentou-se, com dificuldade,
num banco de tábuas a se soltarem, meio torto pelo estufar do
chão. Gambás sem banho cafungavam à vontade, donas do terreno,
quase a lhe galgarem as pernas. Barulheira infernal de gatas no
cio. Nenhum passarinho despedindo-se a chilrear.
Nem minhoca serpejante, nem
formiguinhas laboradoras: grandes formigueiros por toda parte.
Árvores e plantas queixavam-se de sede desértica. Flores murchas
ou caídas pediam socorro. Hera despencada sem pena sobre as
plantas menores, a esmagá-las. Morcegos sanguessugas de frutas
inexistentes vingavam-se pra lá e pra cá, em vôo rasante.
E as rosas?! As belas rosas do
Norte de Portugal, mudas trazidas de avião, com desvelo de pai.
Como explicar tamanho descuido?!
Ergueu os olhos ao céu: breu
puro, sem estrelas, que dirá lua Entrou em casa na ponta dos
pés, como de hábito. Percorreu a casa cômodo, por cômodo. Vazia
de ser humano. Mobiliário e nada mais. No quarto, cama de um
casal inexistente. Ninguém a espera-lo dormindo. Viúvo, de vez.
Maria Lindgren |