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Atenção,
atenção! 90 anos do Leblon! Tudo mudado no bairro normalmente
tranqüilo. Gente, muita gente. Parece até Copacabana em dia de
evento. Rua Dias Ferreira, rua de elite, em agito democrático.
Pessoas de todos os tipos se mesclam, em regozijo pela festa. Ou
seria pelo Jazz? Eu nem sabia que leblonenses ou leblonianos
gostavam de jazz. Que surpresa agradável. Não é só americano
preto ou branco que se amarra na dissonância jazzística.
Chega a tevê. A coisa esquenta, claro.
- Heitor, como você vê o evento daí da Praça Cazuza?
- Boa tarde, Marina. Estou debaixo do pôster do principal
saxofonista da noite. Tá tudo muito animado. A apresentação mal
começou, mas promete.
- E o friozinho, a chuva fina não atrapalham?
- Que nada! Carioca falou em farra é com ele mesmo. Além disso,
tem garotas até de vestido de alça e sandália rasteira, de pleno
verão. Basta um casaquinho na mão.
- E o conjunto, que tal? Eu confesso que não conheço todos, mas
sei que alguns tocavam na rua. Depois foram descobertos. Tal
qual o americano Stanley Jordan, lembra?
- Bem, Marina, o sax tá muito bom. É o que mais se distingue.
Mas tem som de piano, trompete, bateria etc. Cê sabe, em jazz, o
que importa mesmo é o instrumental. O melhor do show deve ficar
para a noite. Vai até meia-noite.
- Voltamos depois do intervalo. Vamos acompanhar o grande
concerto jazzístico todo o tempo. Não percam!
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- Alô, Heitor! Tá me ouvindo? Heitor-----
- Aqui vai tudo na maior ordem. Nem parece o Rio tão criticado
pela violência. É como no Reveillon, com menos gente. Todo mundo
querendo mesmo é curtir o programa.
- Quem você viu por aí, de celebridades?
- Não tem ainda muita porque o pessoal gosta de aparecer mais
tarde. Cê sabe, gente da noite. Ah! Agora mesmo passou aquele
cantor nordestino de cabelão, com uma garota com cara de
intelectual (rs) Parou um pouco e vai seguindo em direção ao
Café. Será que ele vai dar uma canja? Acho que não combina jazz
com baião, mas...(rs)
- Heitor, vou ter que fazer intervalo para os comerciais, tá?
Volto daqui a pouco.
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- Heitor, Heitor, tá me ouvindo bem?
- Certo. O som tá bem alto. Atrapalha um pouco a audição. Mas,
tá dando pra ouvir sua voz.
- Conta pra nós como está a rua mais sofisticada do Leblon! Tem
muita gente elegante? Olha que as lojas daí são finas.
- Tem de tudo, Marina. O bom da rua do carioca é isso. Ninguém
se importa. Tem um único mendigo, por sinal que muito criativo.
Ele colocou uma bermuda verde-cheguei cortada, em cima da calça
jeans e lançou a moda. Na certa, vai ser copiado pela rapaziada
fashion. Tem bebê de colo todo agasalhadinho, com a mãe
meio que dançando ao ritmo do jazz. A farra começa cedo (rs).
Tem uma moça de gorro russo, sabe aqueles de pele do anúncio da
NET COMBO? Acho que disseram a ela que é inverno no Rio e ela
acreditou. Tem cachorro grande, pequeno, mais ou menos, tudo
quietinho na coleira, acostumados com o barulho da rua. Olha,
ali tem dois que se estranharam um pouco, ensaiaram um latido,
mas não foram adiante. Agora passam dois rapazes pretos bem
“fortes” (não se pode mais dizer gordo porque ofende, né
Marina), com seus violoncelos na capa. Acho que vão tocar mais
tarde. Nem deu tempo de ver quem eram. Noto que sacola de papel
reciclado vai entrando com tudo na moda. De grife ou sem. Ainda
tem sacola de supermercado de plástico, mas a tendência é acabar
com elas. È mais ecológico. Em prol do Planeta, topa-se correr o
risco de ver laranjas e maçãs rolando, como nos filmes
americanos.(rs) Olha, passa um típico rancheiro do Sul.
Só falta o chimarrão. Vou ver se falo com ele.
- Amigo, por favor! O senhor veio de onde?
- Da minha casa, ali no Alto Leblon. Por que?
- Bem, sua roupa é do Sul, não é? De rancheiro. Parece que tou
vendo a roda de chimarrão ao pé do fogo.
- Acho que foi um presente que ganhei de uma tia há muito tempo.
Hoje tá meio frio, resolvi estrear.
- Faz uma pose aí para a tevê. Não está lindo este “ cabra
macho” de facão e tudo?
- Heitor, Heitor, mais um intervalo, tá?
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- Cheguei de volta, Heitor. Continue com as descrições que estão
muito legais.
- Olha, Marina, passa por mim uma mulher daquelas de anúncio, só
que toda vestida de botas, cachecol e casaco em cima de uma
mini-saia com meia preta. Dizem que é a última moda. Parece moda
paulista. Linda!!!!!Hei, moça, por favor, uma palavrinha!
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- Como as pessoas ficam mais bem vestidas de roupa de inverno!
Até os rapazes deixaram as bermudas em casa e estão de calça
jeans comprida, casaco de capuz de malha preto e tênis. Alguns
vieram de casaco de couro. Será daqui ou da Argentina?
- Meu irmão, cê tá muito elegante. Seu casaco é brasileiro?
- Não, é argentino ou uruguaio, sei lá. Tava já com mofo. Foi um
amigo que me trouxe.
- Desculpe, mas nós temos excelentes casacos, principalmente em
São Paulo e no Sul, que faz um frio danado.
- E eu lá tenho grana pra desperdiçar em casaco? Não saio do Rio
NUNCA. Inda mais com a crise permanente do Brasil. O Lula...
Corte rápido da tevê.
O show vai rolando. Bares cheios, rua cheia, muita cerveja,
muito chope, alguns salgadinhos. Ao som de jazz, a gente se
sente no Village de Nova York. Valeu!!!!!
Maria
Lindgren |