|
Acabo de desligar com
pena, muita pena, a abertura das Olimpíadas em Beijing, China.
È, gente, naquela China que deixava milhões de chineses famintos
no tempo de seus imperadores, naquela China que viveu o
amedrontador “comunismo” de Mão Tse Tung e de sua famigerada
senhora da Revolução Cultural, naquela mesma China que matou
cachorros, sem dó nem piedade, para poder matar a fome do povo,
e depois tornou-os iguaria fina, para meu engasgo e substituição
da sopa de terra do filme de Ingrid Bergman A
morada da Sexta Felicidade , de 1958, naquela Pequim da
Praça da Paz Celestial, jamais esquecida por quem viu a imagem
do estudante diante de um tanque de guerra, aímbolo de protesto,
da porcelana verde jade do aparelho de chá de meu enxoval de
classe média de posses, naquele país oriental do povo magro, que
come pouco e bem, como se vê até mesmo nos restaurantes chineses
do Rio de Janeiro, na China dos hábitos milenares preservados,
como a Opera de Pequim, dos trajes de seda muito barata, por
sinal, de gola alta a esconder possíveis rugas das mulheres mais
idosas, da elegância de quem tem peso pluma sem ter que vomitar
o que ingere, como muitas modelos o fizeram ou fazem para ficar
superesbeltas, a China das cores vivas dos muitos
desenhos de seus dragões, dos filmes lindíssimos da Gong Li,
como Lanternas Vermelhas, da arte de ouro roubada por
Gengis Khan, exposta no museu de Budapeste, a China dos corpos
atléticos flexíveis e fortes, da disciplina do viver para não
esbarrar no próximo, nem destoar nas paradas e exibições de
ginástica de multidões... Ufa, enfim, a controvertida China que
se torna a cada dia uma potência mundial no mundo capitalista,
para pavor dos norteamericanos e do grupo do euro.
Sempre fui entusiasta
da igualdade de oportunidades e da ginástica, portanto, apesar
de ter ouvido falar nos males do socialismo toda a vida,
continuei firme, hoje, dia 8 de agosto de 2008, diante da TV por
quatro horas, interrompidas, confesso, para minha hidroginástica
de quarenta e cinco minutos, à hora do longo desfile dos países.
Por isso, não vi se o Iraque desfilou, o que me deixou
constrangida..
Em compensação vi a
Palestina e Israel, o Afeganistão, o Líbano, a Arábia Saudita, a
Bósnia, a África do Sul, a Armênia e tantos outros sofredores de
infinitas guerras, sem darem a mínima para as autoridades
presentes, saudando o público e um ou outro amigo de longe, na
irmandade da alegria verdadeira. Paisecos e paisões, sem sombra
de competição, desfilaram sua elegância, sua desenvoltura, sua
espontaneidade e seu melhor sorriso, em trajes folclóricos ou
não.
Da abertura, restaram
dentro de mim as crianças e a professora, no centro e no alto,
como a proclamar que, sem educação e escola, não há salvação.
Apesar da incrível
pirotecnia, guardei também a imagem emocionante do meu país, de
delegação cheia de mulheres, a mostrar ao mundo que aqui no
Brasil o gênero feminino tem vez.
Ficou-me a frase de uma
bela chinesinha quase ao final da abertura:
“ ... pela glória do
esporte/ na honra de nosso filhos...” E basta.
Maria
José Lindgren Alves
08-08-008 |