Maria Lindgren

 Para A Amiga Que Me Escreveu Pelo Natal


Querida amiga

Sou exatamente o  oposto de você. Sei bem porque o Natal me põe triste. São as memórias, estas inquietas divagações, que me fazem saudosa dos natais passados há muito tempo.

Revejo minha casa enfeitada de presépio apenas e singela árvore de pinheiro falso, com bolinhas de cores, sem iluminação elétrica e cafona. E choro.

Penso nos mortos mais do que nos vivos. Choro meu pai, que não se senta mais à cabeceira de uma enorme mesa retangular, maestro do espetáculo pantagruélico da ceia.

Sinto falta de minha Vó materna, que só me acompanhou até seis anos, com seu olhar azul acinzentado, sua barriga esbanjada em comida e doces, suas pernas inchadas de diabetes e sua convicção de não fazer nenhuma dieta.

 Revejo minha mãe à direita da mesa, seu sorriso de dentes ruins, mas legitimo, porque só dela. Revisito-me entre as filhas bonitinhas, que pedem muito e recebem mais ainda, em Natal de jóias e brinquedos - Natal de rico.

Observo com simpatia o primo português, que caiu em nosso lar, morava no quarto em cima da garagem, e descia sua cara de maus bofes, não importa a noite de Natal.

 Olho sem raiva o pároco da igreja antes odiado, sempre presente em sua avidez insaciável de bons vinhos e boa comida.

 Relembro o quadro do Sagrado Coração de Jesus, que a tudo assistia, abençoando nossas almas, mais ainda em condescendência natalina.

Penso numa ou noutra amiga, desgarrada de Natal por falta de família, convidada a tornar-se boquiaberta e plenamente enchida com a refeição de reis.

Depois, em outra casa, abro o baú de presentes de meus filhos, sempre renovado nesta época do ano. Vejo-os crianças, com sua torre de presentes empilhados quase até o teto, mais risonhos e contentes, por um dia que fosse. Dói-me seu inapelável crescimento, que lhes tirou o baú e muitos dos sonhos.

Atravesso, com a calma que já se foi,  minha antiga rua plácida,  sem carros, ônibus e caminhões a magoarem seu asfalto, de raras bicicletas recém recebidas de presente, pra baixo e pra cima, à tarde, depois de farto almoço.

Tenho pena dos vizinhos, invejosos de nossa pujança de luso-brasileiros abastados. Arrependo-me da atitude superior de nossa família e rezo em arrependimento..

Mais que tudo, tenho pena de mim.

Maria

Maria Lindgren

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