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Querida amiga
Sou
exatamente o oposto de você. Sei bem porque o Natal me põe
triste. São as memórias, estas inquietas divagações, que me
fazem saudosa dos natais passados há muito tempo.
Revejo minha
casa enfeitada de presépio apenas e singela árvore de pinheiro
falso, com bolinhas de cores, sem iluminação elétrica e cafona.
E choro.
Penso nos
mortos mais do que nos vivos. Choro meu pai, que não se senta
mais à cabeceira de uma enorme mesa retangular, maestro do
espetáculo pantagruélico da ceia.
Sinto falta
de minha Vó materna, que só me acompanhou até seis anos, com seu
olhar azul acinzentado, sua barriga esbanjada em comida e doces,
suas pernas inchadas de diabetes e sua convicção de não fazer
nenhuma dieta.
Revejo minha
mãe à direita da mesa, seu sorriso de dentes ruins, mas
legitimo, porque só dela. Revisito-me entre as filhas
bonitinhas, que pedem muito e recebem mais ainda, em Natal de
jóias e brinquedos - Natal de rico.
Observo com
simpatia o primo português, que caiu em nosso lar, morava no
quarto em cima da garagem, e descia sua cara de maus bofes, não
importa a noite de Natal.
Olho sem
raiva o pároco da igreja antes odiado, sempre presente em sua
avidez insaciável de bons vinhos e boa comida.
Relembro o
quadro do Sagrado Coração de Jesus, que a tudo assistia,
abençoando nossas almas, mais ainda em condescendência natalina.
Penso numa ou
noutra amiga, desgarrada de Natal por falta de família,
convidada a tornar-se boquiaberta e plenamente enchida com a
refeição de reis.
Depois, em
outra casa, abro o baú de presentes de meus filhos, sempre
renovado nesta época do ano. Vejo-os crianças, com sua torre de
presentes empilhados quase até o teto, mais risonhos e
contentes, por um dia que fosse. Dói-me seu inapelável
crescimento, que lhes tirou o baú e muitos dos sonhos.
Atravesso,
com a calma que já se foi, minha antiga rua plácida, sem
carros, ônibus e caminhões a magoarem seu asfalto, de raras
bicicletas recém recebidas de presente, pra baixo e pra cima, à
tarde, depois de farto almoço.
Tenho pena
dos vizinhos, invejosos de nossa pujança de luso-brasileiros
abastados. Arrependo-me da atitude superior de nossa família e
rezo em arrependimento..
Mais que
tudo, tenho pena de mim.
Maria
Maria
Lindgren |