Maria Lindgren

Páscoa eterna - história verdadeira

Lá longe ficaram os tempo lúgubres, eu diria bem falsos, das lágrimas forçadas, da música sacra ou, no máximo, erudita, tocada nas rádios na Sexta-feira da Paixão. Não me obrigam mais a falar baixinho, quase a sussurrar, a não dar risada, nem sentir outro sentimento se não o de consternação. De há muito, não me revolto por dias inteiros de angústia, contenção e reza intimadas por tradição familiar.

Depois que voltei à igreja por meu próprios pés, esquecida dos grilhões impostos por muitos anos, vejo a Semana Santa com olhos quase santos. Não, que tenha me tornado carola ou puritana, ou que seja obrigada a viver com Cristo o sacrifício só dele e de Maria, porque mãe, já se sabe, sofre. E, finalmente, não preciso da festa pagã de sábado e domingo, jogando fora o sofrimento de Cristo ou malhando Judas, para descontar os ódios.

Compro ovos porque a família adora chocolate, mas detesto a decoração cafona das confeitarias. 

O não-ter mais religião, para mim, foi tão forçado como ser religiosa a muque. Queria combinar à perfeição com os agnósticos à minha volta. Aí que, na Semana Santa, fuga imposta aos burgueses, como eu. Tinha porque tinha que arranjar um lugar para esquecer da igreja.

Antes de fugir, passava em revista outras cidades, praias e montanhas.

Minas não dava: era religião pura. Toparia com imensas procissões pelas ruas pedregosas das cidades – patrimônio. Praias, sempre boa pedida. Búzios, sobretudo, no próprio Estado, com seu ar sensual de pecado. Mais fácil de chegar do que as não menos afrodisíacas praias do Nordeste.

Mais fácil? Coisa nenhuma. Uma vez , a Região dos Lagos recebeu tamanha gente, que me fez tomar horror de enfrentar o calorão da Costa do Sol, no emperramento do trânsito da estrada e da rua principal de Búzios, o belo mar lá longe, a nos aguardar por muitas horas.

E o Nordeste, o Nordeste sorridente, desdentado ainda pela seca infalível, perdeu-se pelo problema do descontrole de avião e do país: viuvez  de marido vivo, mas inatingível.

Restavam nas oções da fuga, as montanhas, abundantes de oferecimento de lazer, para quem tem alguma grana. Terezópoilis, Petrópolis, Nova Friburgo

-  Manjadas demais! Já fomos mil vezes- desanimava-me o marido.

- Que tal Mauá? Dizem que é linda -, sugeria, entusiasmada pelo ecos dos hippies. Experimentamos, gostamos e... desistimos de voltar algum dia, depois da aventura das derrapagens nas estradas poeirentas da época. 

Itaipava, eis a solução. Mais viável para quem mora no Rio e quer correr dos/nos feriadões de quatro dias emendados, como no Carnaval. Quando íamos preparar as malas,  Itaipava virou moda e se abarrotou de turistas por todo lado.

Semana Santa no Rio, agora, sim. A fé católica retomada por necessidade da alma, dou graças a Deus por ter voltado, comunhão e tudo, à igreja de minha infância e adolescência. Passo a Semana sentindo-a Santa de fato.

 Não faço jejuns, mas como peixe, numa boa. Estou bem desde a Missa de Ramos. Linda de emocionar! A partir de amanhã, vou à igreja, se sentir vontade de apreciar a cerimônia de humildade do Lava-Pés, da quinta-feira, a Via Sacra do flagelo de Jesus Cristo, na sexta, as rezas do sábado de Aleluia e, finalmente, a missa mais bonita do ano: a inigualável Missa de Páscoa.

Preparo meu coração para a alegria que não me era permitida durante a Semana Santa obrigatória, sem o sentimento forçado da fuga do ritual religioso. Sou livre e louvo Nosso Senhor Jesus Cristo Salvador Revivido. 

Feliz Páscoa a todos!!!!

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