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Lá longe ficaram os tempo
lúgubres, eu diria bem falsos, das lágrimas forçadas, da música
sacra ou, no máximo, erudita, tocada nas rádios na Sexta-feira
da Paixão. Não me obrigam mais a falar baixinho, quase a
sussurrar, a não dar risada, nem sentir outro sentimento se não
o de consternação. De há muito, não me revolto por dias inteiros
de angústia, contenção e reza intimadas por tradição familiar.
Depois que voltei à igreja por
meu próprios pés, esquecida dos grilhões impostos por muitos
anos, vejo a Semana Santa com olhos quase santos. Não, que tenha
me tornado carola ou puritana, ou que seja obrigada a viver com
Cristo o sacrifício só dele e de Maria, porque mãe, já se sabe,
sofre. E, finalmente, não preciso da festa pagã de sábado e
domingo, jogando fora o sofrimento de Cristo ou malhando Judas,
para descontar os ódios.
Compro ovos porque a família
adora chocolate, mas detesto a decoração cafona das
confeitarias.
O não-ter mais religião, para
mim, foi tão forçado como ser religiosa a muque. Queria combinar
à perfeição com os agnósticos à minha volta. Aí que, na Semana
Santa, fuga imposta aos burgueses, como eu. Tinha porque tinha
que arranjar um lugar para esquecer da igreja.
Antes de fugir, passava em
revista outras cidades, praias e montanhas.
Minas não dava: era religião
pura. Toparia com imensas procissões pelas ruas pedregosas das
cidades – patrimônio. Praias, sempre boa pedida. Búzios,
sobretudo, no próprio Estado, com seu ar sensual de pecado. Mais
fácil de chegar do que as não menos afrodisíacas praias do
Nordeste.
Mais fácil? Coisa nenhuma. Uma
vez , a Região dos Lagos recebeu tamanha gente, que me fez tomar
horror de enfrentar o calorão da Costa do Sol, no emperramento
do trânsito da estrada e da rua principal de Búzios, o belo mar
lá longe, a nos aguardar por muitas horas.
E o Nordeste, o Nordeste
sorridente, desdentado ainda pela seca infalível, perdeu-se pelo
problema do descontrole de avião e do país: viuvez de marido
vivo, mas inatingível.
Restavam nas oções da fuga, as
montanhas, abundantes de oferecimento de lazer, para quem tem
alguma grana. Terezópoilis, Petrópolis, Nova Friburgo
- Manjadas demais! Já fomos mil
vezes- desanimava-me o marido.
- Que tal Mauá? Dizem que é
linda -, sugeria, entusiasmada pelo ecos dos hippies.
Experimentamos, gostamos e... desistimos de voltar algum dia,
depois da aventura das derrapagens nas estradas poeirentas da
época.
Itaipava, eis a solução. Mais
viável para quem mora no Rio e quer correr dos/nos feriadões de
quatro dias emendados, como no Carnaval. Quando íamos preparar
as malas, Itaipava virou moda e se abarrotou de turistas por
todo lado.
Semana Santa no Rio, agora, sim.
A fé católica retomada por necessidade da alma, dou graças a
Deus por ter voltado, comunhão e tudo, à igreja de minha
infância e adolescência. Passo a Semana sentindo-a Santa de
fato.
Não faço jejuns, mas como
peixe, numa boa. Estou bem desde a Missa de Ramos. Linda de
emocionar! A partir de amanhã, vou à igreja, se sentir vontade
de apreciar a cerimônia de humildade do Lava-Pés, da
quinta-feira, a Via Sacra do flagelo de Jesus Cristo, na sexta,
as rezas do sábado de Aleluia e, finalmente, a missa mais bonita
do ano: a inigualável Missa de Páscoa.
Preparo meu coração para a
alegria que não me era permitida durante a Semana Santa
obrigatória, sem o sentimento forçado da fuga do ritual
religioso. Sou livre e louvo Nosso Senhor Jesus Cristo Salvador
Revivido.
Feliz Páscoa a todos!!!! |