Salta do avião, quase teco-teco, no aeroporto Walter Bünchen,
pai da Gisele Bunchen, uma moça, quase clone da modelo Viaja
conosco para um pouso antes de Santa Rosa, Rio Grande do
Sul. Muito bonita, mesmo. Explicam-me que é a mistura de
alemães, japoneses, italianos e quejandos. Cá pra nós, não
percebo vislumbre de japonês.
Continuamos a chacoalhar, trepidar, zunir, apitar, na
aeronave mínima, pior do que a enfrentada para Campos dos
Goytacazes, uns dez anos atrás.
O piloto tipo camarão quase grená, de uma praia inexistente,
não me merece confiança. Morro de medo. O calor é
insuportável, além do barulhão daqueles de boate de decibéis
assassinos, mesmo para ouvidos jovens.
Mais um tempo de inferno e... chegamos. Perto da fronteira
com o Uruguai, Santa Rosa tem soldados e tanques no pequeno
e vazio aeroporto. Explicam-me que é apenas para terem o que
fazer: são manobras. Lembro-me do filme do antigo galã, o
belo ator, Gérard
Philipe, cujas manobras militares acabavam em
cama. Os soldados de Santa Rosa também não são feios.
A cidade não tem violência e de guerra nem se menciona a do
tráfico ou a do Iraque, Faixa de Gaza...Os habitantes, do
exército ou não, são simpáticos, educados, alguns, bonitos.
Os que descendem de italianos de Venuto - não confundir com
Veneto -, então! Crianças louras de tipo meio alemão,
mulheres cheias, corpulentas, nem aí para magreza enfeitam
as ruas. Muitas louras autênticas, de olhos claros.
Somos recebidos com banda e fanfarra, surpreendente
recepção para quem vai receber uma avaliação: meu marido
veio avaliar o Programa Médico de Família. Mas lá, o SUS
existe. Atende até em psiquiatria.
O hotel, limpo como em Weiner, a única cidade alemã que
conheci em 1975, porque fronteiriça à Praga. Um rapazola na
recepção serve para o que der e vier, até onze da noite.
Descendência italiana, delicadeza de sulista, “ Nenhum
problema”, a cada pedido meu.
- A senhorita me desculpe, mas seu colar é lindo!- comenta
sorrindo.
Bastaria para me conquistar o
senhorita, coisa
que não sou desde os dezenove anos. Ainda por cima, com
sotaque gaúcho e os pá,
tche,
guria, etc..
De tarde, o calor aperta. Vou para a piscina geladíssima,
sem viv´alma. Refresco-me, volto à cama gostosa, leio e
cochilo à espera da
janta e do marido.
Jantar não se
diz, nem em hotel quatro estrelas.
A tal janta, minha gente, me faz babar até agora: Piaba
fresquinha aberta na brasa, acompanhada de um arroz branco
de doer a vista, mais batatinhas redondas, vinho e amor.
Classe média chata não percebo. Os doutores e residentes
fazem piada, riem das minhas, numa empatia imediata.
O único sinal de moda da classe média fica no solado das
sandálias a la Carmem Miranda. Os trajes de verão são
vestidos frescos e uma ou outra calça pouco comprida.
Ninguém tem rosto e corpo bronzeados pelo sol. Acho que sou
mesmo amulatada..
Saio para ver a casa de Xuxa, atração maior da cidade:
simples e repleta de brinquedos para crianças. Aproveito e
vou ao comércio local bem modesto, com algumas indicações de
confecções especiais bastante caras, por causa da lonjura da
cidade. Para mim, no máximo, uma liquidação meio feiosa.
Noto a falta de cinema, deplorando-a. Vai ver está todo
mundo grudado na TV. A amiga local conta do
footing, nas
praças arborizadas de minha juventude.
E, pasmem! Os médicos dão horário integral nos postos do
SUS. Quase me desmancho em lágrimas, ao pensar na saúde da
cidade em que vivo e arredores.
Adoro Santa Rosa. Dá para se ir ao Uruguai fácil, fácil.
Encanta-me até mesmo a casa de Xuxa, eu que nunca fui de
Xuxa.
Tranqüilidade contamina. Recupero o hábito de ler sem
nenhum, ruído à volta., nem de rádio. Ah! O rádio continua
sendo o grande veículo de comunicação da terra. Qualquer
cidadão tem um e sabe das notícias e fofocas.
Quanto a mim, prefiro escutar o córrego pequenino, que passa
defronte ao hotel. Não sei de onde vem, nem para onde vai.
Faz chuá, chuá, a água a
correr, chuê, chuê, e me basta.
Maria
Lindgren