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O dia fatidico chegara
manso. Um céu tinindo de azul, sem nenhuma pincelada
branca a lhe conspurcar a uniformidade da cor apareceu
bem cedinho, junto ao horário de verão. Em plena
primavera.
A manhã corria e tostava
os corpos que se despojavam das recomendações contra o
sol depois das dez da manhã e se entregavam à ardência
gostosa na pele. Os outros, coitados, sofriam os 35
graus inesperados, o suor a lhes escorrer pelo corpo.
Tinham que cumprir o dever diário, sonhar com um final
de semana digno de pegar uma cor daquelas. Fosse para
relaxar, fosse para vender petiscos na areia.
Para Lucia, o dever se
impunha talvez mais porque só tinha um único dia,
marcado para executar o comando do governador: só
receberia seus proventos de aposentada se fosse em
pessoa no SEU dia. Não fora a cadeira de rodas,
acrescida da presença da filha, não escaparia do destino
dos portadores de necessidades especiais:
esquecimento ou desprezo.
Nas vésperas da
obrigação começava a faina: localizar motorista e taxi,
pedir de joelhos – quem podia se ajoelhar, é claro – a
Seu Aristides que lhe reservasse a manhã.
- Não posso faltar, viu
Seu Aristides? Só mesmo o senhor pode me atender nesta
situação difícil. Vai dar um trabalhão.
Com antecedência, Marcia
avisou no trabalho a sacralização da data: 26 de outubro
de 2011. Impossível deixar a mãe se virar sozinha. Seria
necessário armar e desarmar a cadeira de rodas, colocar
as pernas da senhora dentro do carro com o maior cuidado
– qualquer pancadinha lhe fazia uma mancha roxa, além da
dor crônica dos noventa anos quase. Depois, era tocar
para a Cidade Nova, à procura de um local sem pressa de
despejar passageiro, o que é uma parada no Rio de
Janeiro atual.
O chofer, acostumado à
Zona Sul, errou todas as saídas e entradas, deu meia
dúzia de voltas para, finalmente, chegar à porta de um
enorme galpão e perguntar se era lá que se processava a
transação complexa de mudar de banco.
Ao saber que mais de
sessenta mil servidores tinham a mesma obrigação, o
homem apelou para a cadeira de rodas de sua cliente mais
antiga. Não sem antes percorrer uns cem metros para
chegar a um dos atendentes, todos com sotaque de
paulista. Estranhou sobretudo os erres, sem saber que
banco é negócio de paulista, não de carioca, pois até o
pobre do BANERJ há muito se havia acabado por
privatização insensata.
Depois de andar para cá
e para lá, observando várias mesinhas e cartazes de
boas-vindas ao mais completo banco de nossa terra, soube
que a primeira fila, logo na entrada, era para
cadeirantes e outros deficientes físicos. Percebeu a
cena pungente de uma senhora a se arrastar no meio de
duas outras, todas bufando de calor e desespero; deu
graças aos céus pela cadeira de sua cliente.
Acostumado ao ir e vir a
pé ou de carro, Seu Aristides correu ao portão de
entrada e avisou à D. Lucia que era sopa fazer a
transação. A pobre senhora, cansadíssima, conseguiu, no
entanto, mostrar uma imitação de sorriso. Passou para a
cadeira com mais esperança, foi conduzida pela filha até
um balcão com duas atendentes simpáticas, elegantes,
apesar do preto da moda discordar da canícula. Verdade
que o clima era amenizado pelo ar condicionado.
Mais uns minutinhos e a
aposentada de muitos anos receberia a honra de estar na
mais requintada agência do tal banco repleto de
regalias.
Meia hora de desce
pernas ajeita cadeira, carrega corpo, assenta trazeiro e
costas, carros apinhados na rua, buzinas frenéticas,
vendedores de água e refrigerante – por que não um
sanduiche? – e Lucia empurrada pela filha apenas:
motorista tinha que ficar dentro do carro para não
perder a vez, conforme explicara o guarda de trânsito,
um maníaco por apito estridente.
Chão repleto de
impecilhos, a título de decoração, superados pela
astúcia de Marcia, habituada a sofrer nas vias comuns da
cidade, terminava numa porta bem larga, graças a Deus,
em algumas poltronas superconfortável bem branquinhas,
não para D. Lucia, para os normais e, afinal, o balcão
especial. Depois, explicações aos montes, das quais a
metade ninguém entendia, mais uma ou duas caminhadas a
outros balcões para os últimos esclarecimentos, uma
pasta obesa de propagandas e mimos para os clientes, o
reconhecimento eletrônico da palma trêmula da senhora,
requinte do novo status... Pronto, de volta ao lar.
A essa altura, eram
quase quatro horas da tarde e o trânsito começava a
engrossar, fazer arder corpos e miolos.
- Né possível, Seu
Aristides! Não são nem cinco horas. Essa gente vem de
onde? O rush nem começou ainda, gritou Marcia
para o impotente condutor do veiculo que não se mexia,
comoos demias.
- Calma, D. Marcia! É
assim mesmo. Só penso como vai ser o Ano da Copa nesta
cidade que não aguenta tanta gente, tanto carro. D.
Lucia nem vai poder dar sua voltinha até à praia. O
calçadão vai ficar danado.
- Eu acho que vamos
passar uns três meses numa cidade do interior para ouvir
apenas os ecos da Copa pela televisão. Muita gente está
pensando nisso, acescentou Marcia.
D. Lucia, boca não diz
mais palavra, dormitava no arzinho artificial do taxi.
Bem que no fundo pensava na imbecilidade de obrigar
deficientes físicos a se locomover de suas casas. Logo
um banco tão bacana! Talvez por isso mesmo: gente rica
não sabe dessas coisas. Anda de helicóptero.
Mas eu acho que para mim
seria ainda bem pior esse dia fatídico. Sinto dor no
corpo todo e tenho que enfrentare tudo a pé. Quando não
me estatelo no chão. Ah! Deus meu! Por que não tenho uma
cadeira de rodas?
Maria Lindgren |