|
01
de março. O ano começa no Brasil, como de praxe, depois do
Carnaval. Dizem que o verão acabou. Crianças e professores
suarentos voltam a agüentar as aulas. Pingam, quando não
desmaiam, mesmo ao anúncio do outono. A cidade não respira:
resfolega. O trânsito piora, mães frenéticas a deixar os filhos
na escola, bem no meio da rua.
Bandidos e polícia continuam a se digladiar, sem pejo, nas
favelas. Crianças pobres são notícia e reportagem de todo jeito:
porque levam raspões de bala perdida, porque morrem de bala
perdida, porque, pasmem, alguém as prostitui, porque nascem e
500 mil não são registradas... Nada muda. Mendigos se espalham
nas calçadas ou nas areias de Copacabana. Não pedem esmola.
“Enfeiam a paisagem”, diz a gente fina.
No
meu mundeco bem micro, marido trabalha e eu... Bem, eu dou
ordens à empregada, vou ao supermercado e me preocupo com filhos
taludos. Profissão “Do Lar” é essa mixaria. Sinônimo de burrice,
no imaginário popular.
Quebro a cabeça para ver se consigo mostrar que tenho cabeça, de
algum modo. Tipo: fazer papel de malvada ou santa em novela de
TV; escrever uma novela de televisão ou um livro, sei lá; fazer
mestrado e doutorado; quiçá, pósdoutorado. Estudar Filosofia –
ciência do pensar, por excelência. Não faço por menos. Hei de
pensar!
Estou mais sozinha no casamento do que no nascimento. Pois,
claro: quem é que se sente só no próprio nascimento?! Só mesmo
psicanalista acredita nas marcas da gestação, do parto, do
nascimento, enfim. Nunca ouvi alma a se queixar de ter nascido
sem companhia. Aliás, dentro da pança da mãe, cadê solidão?!
Por
que, então me casei, se sou o oposto de Greta Garbo ao se
despedir do cinema com um I want to be alone? Eu, nunca!
Agora, cadê marido? E amigos? Alijados, sumiram. E os filhos?
Filhos crescem, mesmo que se invente meios e modos de
infantilizá-los ad aeternum. A gente torce para eles
crescerem e se dana toda, quando acontece. Mulher - ser
insignificante, incoerente, egoísta.
10
de abril - Pensam que entrei para a faculdade de filosofia? Qual
o quê! Espero marido trabalhador e viajante, filhos liberados
sempre ausentes. Resultado: corpo doído de frustração.
Não abdico dos planos. Sonho-me professora
universitária altamente solicitada. Querem me escutar, aqui e
alhures. Uma Marilena Chauí dos bons tempos das séries
filosóficas no Rio de Janeiro. Além de filósofa, sei dos
destinos da globalização econômica. Tenho uma teoria nova, uma
quarta via que vai ser a redenção dos pobres, sem afetar os
ricos. Concedo a poucos a honra de assistir minhas palestras e
workshops. Porrilhões de convites. – Não posso, sorry!
Falo em Londres, no mês de maio. Depois, quem sabe? States,
Alemanha, Suécia... Aceito apenas país de alta categoria, que
nunca fui boba.
Acordo com o grito de dependência às margens de minha cama:
“Mãe! Estou precisando de grana!”, pede minha filha mais velha
não tão liberada assim.
01
de maio - Feriado emendado - Feriadão. Eu chamo chateadão. A
praia logo ali e eu melando e torrando, trancafiada em casa,
marido aos pedaços. De trabalho ou de farra com os colegas?
Chi lo
sa!
Nem o consolo de poder
olhar um filmeco ou um seriado de TV Futebol, teu nome é homem.
A bola tem absoluta prioridade. É a única hora do despertar da
modorra da barriga cheia. Dele.
Quem
manda ser pão-dura e ter uma única televisão! Tem prestação de
12 vezes, gente! E eu, o máximo que faço é escutar meu radinho,
ler revista, ligar para uma amiga e desligar rápido porque o
“patrão” dela atende, urro raivoso de King Kong.
Os
filhotes aproveitam os dias livres. Teresópolis ou Cabo Frio.
Nem bola para a mãe que “desdobra fibra por fibra o coração”e
se aporrinha sem eles.
Que
o manto da noite me envolva, o ar condicionado não pife e a
insônia não me ataque! “Tomorrow is another day”, penso,
esperança a me espreitar.
01
de julho - Friinho na cidade brasa. Raro. Solidão escolhida,
hoje. A vida anda tão fel que silêncio da casa vira mel. Até
rimou. Eu disse silêncio não infelicidade. Som suave de melodia
sussurrando ao fundo, basta-me.
Desce o marido, mala na mão: mais uma viagem.
Desisti da reclamação faz tempo. Estico a face, retribuo o
beijo, disfarço a meia-lágrima, tento sorrir. É a vida que ele
pediu a Deus. Não eu, que imantada queria companheiro grudado em
mim.
De repente, fantasma revisitado, vontade de usar a
máquina de costura nova. Como nos velhos tempos de roupa feita
por minha mãe ou minha madrinha costureira. Urgência de costurar
me entranha o corpo. Pronta para a máquina complexa porque
moderna, sem, nem de longe, o conforto da antiga, insuperável
Singer de mesa. Colocar o retrós é trabalho de Hercules. Acho
que esta porcaria foi feita para canhotas. Ou sou eu que não me
lembro mais, de tanto comprar roupa ready-made.
Luto contra a destreza esquecida por horas e horas. Sem pressa.
Acabamento meio torto, como vivo atualmente. Tudo preso, feito à
máquina, orgulho-me, enfim.
10
de julho - Cama ainda deserta de homem. Arrepio de frio. Onde
estão os braços fortes, o peito e a barriga que aninham meu
carinho, o bafo quente e excitante no meu pescoço? Falo mal, mas
gosto de cheiro e quentura de homem.
Aflige-me uma hipótese de ciúme. Minhas amigas o acham lindo.
Algumas confessam, frase desajeitada, entrelinhas do texto
cruel: - O quê que você fez para ter um homão desses?! Eu lá
sou um bagulho?!!!
Dividir, compartilhar amante ou marido não é de praxe, para
mulher do tempo das anquinhas quase, como eu. Mas fazer o quê?
Desisto dos ciúmes. Não quero me aporrinhar à-toa na maturidade
plena. Levanto e olho-me ao espelho: ainda dou pro gasto.
Passado longínquo o tempo em que as cinqüentonas, de meio
caminho para os sessenta, não tinham vez. Talvez, um caso
amoroso ajudasse, idéia que me parece salvadora.
Semana passada, almoço em restaurante, certa de poder fechar os
pensamentos macambúzios.Tomo um susto: um fazendeiro da Bahia,
musculoso, corado do sol da fazenda, me pede, cara de quero
transar: - Me dê licença de sentar aqui? Dei. Conversamos. Fico
sabida: aprendo tudo sobre fazenda de cacau. Não cedo à tentação
de ser alimento de tesão do interior da Bahia. Se não, como vou
comungar domingo? Guardo os telefones todos do bendito homem.
Num dia desesperado, quem sabe?
10
de setembro - Dia da Pátria passa ileso. Frase ridícula o tempo
passa. Corre e como! Tempo é maratonista famoso, salvo quando se
está muito chateada, já se sabe. Setembro e lá vem calor, neste
Rio de fogo. Primavera, os cocos! Parece que se encolhe dentro
de nuvens pesadas. Chuva torrencial de verão. Trovoada e tudo.
Não acalma a temperaturas ainda morna, nem sentimentos ainda
loucos.
Penso em aprender a dançar. Sério. Tanta academia legal! Talvez
sirva de compressa fria no temperamento exaltado. O corpo
esquenta, a chateação esfria. Repetir a vida todos os dias, não
dá. Agir rápido, antes de encarquilhar e endurecer as juntas.
Filhos quase criados não precisam tanto de mim. Marido ausente,
na rua ou em casa, idem. Posso preencher os inúmeros vazios com
diversão inocente. Nem só de canseira, de tédio vive a mulher.
Trago músculos treinados em ginástica. Não o coração, é claro,
que este músculo danado é só vibração.
05
de outubro - Mês besta! Sem personalidade e longo. 31 dias
contadinhos. Nada acontece. Ninguém da família ou dos amigos faz
anos. Parece que outubro é ficção. Mês de espera do fim do ano.
Desde quando prenúncio de festa é festa?!
Dias
insossos. Tépidos, qual trilhar de dona de casa sem brilho,
eira, nem beira. Nem sei porquê anoto o mês estúpido em diário.
Acho que é compulsão de escrever. Como não levo jeito, boto
palavras sentidas no diário. Volto à adolescência, sem o mesmo
vigor. Também, pudera! O assunto varia pouco. Reflito demais,
sem a base filosófica indispensável que deixei perder-se ao
recusar a academia. A frustração é a maior companhia. Dos que
não agem a tempo.
02
de novembro - Expectativa de mais feriados nunca vividos como
tal. Hoje e dia 15, pelo menos. Finados sofridos. Não por causa
dos mortos propriamente: não atrapalham em nada. Nem milagre
tira meu marido da cama, nos feriad- inhos ou ões deste país que
detesta trabalhar. Embora os políticos afirmem o contrário. –
Nosso nome é Trabalho. Sobretudo, em época de eleição.
Cansaço, fastio, náusea... Pareço existencialista sem o charme
dos café de Paris. Recuso-me a perder tempo com o que não se
resolve. Prática, arranjo-me com plantas novas a regar, leituras
leves, papos telefônicos. Pena não conseguir entrar na era do
computador! Tenho uma prima que soluciona tudo nas
virtualidades.
As horas escorrem igual a outubro: passo
descompassado e trôpego de ancião doente. Procuro vocações
escondidas: bordar, talvez. Quem sabe, um tapete tipo
Diamantina, um painel decorativo? Tenho duas mãos e a fé.
Faltam-me lã ou algodão grossos, mais “engenho e arte”.
Tento nova incursão à máquina de costura. O ruído dela provoca
reação imediata do marido: - Que rom-rom-rom é este, Deus do
céu! Como é que eu posso descansar? EU trabalho, viu?
Mensagem decodificada, descanso a máquina, pedindo
quase perdão. Não fico ofendida. Vou deitar a seu lado. Quem
sabe, não atiço o homem?
21
de dezembro - Vem vindo o Natal, meu Deus!!! Que grande
chatice! Meu irmão, na Europa, minha amiga americana, eles se
preparam, com justa razão: neve, lareira, agasalhos, clima
propício ao aconchego familiar. Papai Noel autêntico: Santa
Klaus.
No
Rio, torpor. Adultos tentam insistentes as mil compras; crianças
hoje, não sei. As pequeninas devem adorar. Principalmente quando
têm alguma grana disponível.
Mais confusão na rua e na TV. Falatório e
preparativos para o pósnatal: o Grande Reveillon na praia. Em
terra de poucos atentos, a classe média se regala e o povão a
imita: fluídos da televisão. Os muito pobres, que se lixem!
Quero ser fada e dar uma varinhada geral: faço mudar o país,
talvez, o mundo. Marco cada minuto que falta para a festa
obrigatória. Brutal ansiedade! A coluna vertebral sinaliza que
vai chiar. Comme toujours.
Tenho planos, como sempre: este ano que entra me largo da
família. Embarco para uma tribo indígena, a conselho de meu
primo antropólogo, amante de índios desde pequenino. Como Darcy
Ribeiro, Marechal Rondon...
Na
pior das hipóteses, tiro a ferrugem do revólver de herança do
meu pai e... Passo a fazer parte da história medíocre da minha
família. Com h bem minúsculo. |