Maria Lindgren

 Retalhos De Um Diário

01 de março. O ano começa no Brasil, como de praxe, depois do Carnaval. Dizem que o verão acabou. Crianças  e professores suarentos voltam a agüentar as aulas. Pingam, quando não desmaiam, mesmo ao anúncio do outono. A cidade não respira: resfolega. O trânsito piora, mães frenéticas a deixar os filhos na escola, bem no meio da rua.

Bandidos e polícia continuam a se digladiar, sem pejo, nas favelas. Crianças pobres são notícia e reportagem de todo jeito: porque levam raspões de bala perdida, porque morrem de bala perdida, porque, pasmem, alguém as prostitui, porque nascem e 500 mil não são registradas... Nada muda. Mendigos se espalham nas calçadas ou nas areias de Copacabana. Não pedem esmola.  “Enfeiam a paisagem”, diz a gente fina.

No meu mundeco bem micro, marido trabalha e eu... Bem, eu dou ordens à empregada, vou ao supermercado e me preocupo com filhos taludos. Profissão “Do Lar” é essa mixaria. Sinônimo de burrice, no imaginário popular.

Quebro a cabeça para ver se consigo mostrar que tenho cabeça, de algum modo. Tipo: fazer papel de malvada ou santa em novela de TV; escrever uma novela de televisão ou um livro, sei lá; fazer mestrado e doutorado; quiçá, pósdoutorado. Estudar Filosofia – ciência do pensar, por excelência. Não faço por menos. Hei de pensar!

Estou mais sozinha no casamento do que no nascimento. Pois, claro: quem é que se sente só no próprio nascimento?! Só mesmo psicanalista acredita nas marcas da gestação, do parto, do nascimento, enfim. Nunca ouvi alma a se queixar de ter nascido sem companhia. Aliás, dentro da pança da mãe, cadê solidão?!

Por que, então me casei, se sou o oposto de Greta Garbo ao se despedir do cinema com um I want to be alone? Eu, nunca! Agora, cadê marido? E amigos? Alijados, sumiram. E os filhos? Filhos crescem, mesmo que se invente meios e modos de infantilizá-los ad aeternum. A gente torce para eles crescerem e se dana toda, quando acontece. Mulher - ser insignificante, incoerente, egoísta.

10 de abril - Pensam que entrei para a faculdade de filosofia? Qual o quê! Espero marido trabalhador e viajante, filhos liberados sempre ausentes. Resultado: corpo doído de frustração.

            Não abdico dos planos. Sonho-me professora universitária altamente solicitada. Querem me escutar, aqui e alhures. Uma Marilena Chauí dos bons tempos das séries filosóficas no Rio de Janeiro. Além de filósofa, sei dos destinos da globalização econômica. Tenho uma teoria nova, uma quarta via que vai ser  a redenção dos pobres, sem afetar os ricos. Concedo a poucos a honra de assistir minhas  palestras e workshops. Porrilhões de convites. – Não posso, sorry! Falo em Londres, no mês de maio. Depois, quem sabe? States, Alemanha, Suécia... Aceito apenas país de alta categoria, que nunca fui boba.

Acordo com o  grito de dependência às margens de minha cama: “Mãe! Estou precisando de grana!”, pede minha filha mais velha não tão liberada assim.

 01 de maio - Feriado emendado - Feriadão. Eu chamo chateadão. A praia logo ali e eu melando e torrando, trancafiada em casa, marido aos pedaços. De trabalho ou de farra com os colegas? Chi lo saNem o consolo de poder olhar um filmeco ou um seriado de TV Futebol, teu nome é homem. A bola tem absoluta prioridade. É a única hora do despertar da modorra da barriga cheia. Dele.

Quem manda ser pão-dura e  ter uma única televisão! Tem prestação de 12 vezes, gente! E eu, o máximo que faço é escutar meu radinho, ler revista, ligar para uma amiga e desligar rápido porque o “patrão” dela atende, urro raivoso de King Kong.

Os filhotes aproveitam os dias livres. Teresópolis ou Cabo Frio. Nem bola para a mãe que “desdobra fibra por fibra o coração”e se aporrinha  sem eles.

Que o manto da noite me envolva, o ar condicionado não pife  e a insônia não me ataque! “Tomorrow is another day”,  penso, esperança a me espreitar.

01 de julho - Friinho na cidade brasa. Raro. Solidão escolhida, hoje. A vida anda tão fel que silêncio da casa  vira mel. Até rimou. Eu disse silêncio não infelicidade. Som suave de melodia sussurrando ao fundo, basta-me.

            Desce o marido, mala na mão: mais uma viagem. Desisti da reclamação faz tempo. Estico a face, retribuo o beijo, disfarço a meia-lágrima, tento sorrir. É a vida que ele pediu a Deus. Não eu, que imantada queria companheiro grudado em mim.

            De repente, fantasma revisitado, vontade de usar a máquina de costura nova. Como nos velhos tempos de roupa feita por minha mãe ou minha madrinha costureira. Urgência de costurar me entranha o corpo. Pronta para a máquina complexa porque moderna, sem, nem de longe, o conforto da antiga, insuperável Singer de mesa. Colocar o retrós é trabalho de Hercules. Acho que esta porcaria foi feita para  canhotas. Ou sou eu que não me lembro mais, de tanto comprar roupa ready-made.

 Luto contra a destreza esquecida por horas e horas. Sem pressa. Acabamento meio torto, como vivo atualmente. Tudo preso, feito à máquina, orgulho-me, enfim. 

10 de julho  -   Cama ainda deserta de homem. Arrepio de frio. Onde estão os braços fortes, o peito e a barriga que aninham meu carinho, o bafo quente e excitante no meu pescoço? Falo mal, mas gosto de cheiro e quentura de homem.

Aflige-me uma hipótese de ciúme. Minhas amigas o acham lindo. Algumas confessam, frase desajeitada, entrelinhas do texto cruel: - O quê que você fez para ter um homão desses?!  Eu lá sou um bagulho?!!!

Dividir, compartilhar amante ou marido não é de praxe, para mulher do tempo das anquinhas quase, como eu. Mas fazer o quê? Desisto dos ciúmes. Não quero me aporrinhar à-toa na maturidade plena. Levanto e olho-me ao espelho: ainda dou pro gasto. Passado longínquo o tempo em que as cinqüentonas, de meio caminho para os sessenta, não tinham vez. Talvez, um caso amoroso ajudasse, idéia que me parece salvadora.

Semana passada, almoço em restaurante, certa de poder fechar os pensamentos macambúzios.Tomo um susto: um fazendeiro da Bahia, musculoso, corado do sol da fazenda, me pede, cara de quero transar: - Me dê licença de sentar aqui? Dei. Conversamos. Fico sabida: aprendo tudo sobre fazenda de cacau. Não cedo à tentação de ser alimento de tesão do interior da Bahia. Se não, como vou comungar domingo? Guardo os telefones todos do bendito homem. Num dia desesperado, quem sabe?

 10 de setembro - Dia da Pátria passa ileso. Frase ridícula o tempo passa. Corre e como! Tempo é maratonista famoso, salvo quando se está muito chateada, já se sabe. Setembro e lá vem calor, neste Rio de fogo. Primavera,  os cocos! Parece que se encolhe dentro de nuvens pesadas. Chuva torrencial de verão. Trovoada e tudo. Não acalma a temperaturas ainda morna,  nem sentimentos ainda loucos.

Penso em aprender a dançar. Sério. Tanta academia legal! Talvez sirva de compressa fria no temperamento exaltado. O corpo esquenta, a chateação esfria. Repetir a vida todos os dias, não dá. Agir rápido, antes de encarquilhar e endurecer as juntas. Filhos quase criados não precisam tanto de mim. Marido ausente, na rua ou em casa, idem. Posso preencher os inúmeros vazios com diversão inocente. Nem só de canseira, de tédio vive a mulher. Trago músculos treinados em ginástica. Não o coração, é claro, que este músculo danado é só vibração.

05 de outubro - Mês besta! Sem personalidade e longo. 31 dias contadinhos. Nada acontece. Ninguém da família ou dos amigos faz anos. Parece que outubro é ficção. Mês de espera do fim do ano. Desde quando prenúncio de festa é festa?!

Dias insossos. Tépidos, qual trilhar de dona de casa sem brilho, eira, nem beira. Nem sei porquê anoto o mês estúpido em diário. Acho que é compulsão de escrever. Como não levo jeito, boto palavras sentidas no diário. Volto à adolescência, sem o mesmo vigor. Também, pudera! O assunto varia pouco. Reflito demais, sem a base filosófica indispensável que deixei perder-se ao recusar a academia. A frustração é a maior companhia. Dos que não agem a tempo.

 02 de novembro - Expectativa de mais feriados nunca vividos como tal. Hoje e dia 15, pelo menos. Finados sofridos. Não por causa dos mortos propriamente: não atrapalham em nada. Nem milagre tira meu marido da cama, nos feriad- inhos ou ões deste país que detesta trabalhar. Embora os políticos afirmem o contrário. – Nosso nome é Trabalho. Sobretudo, em época de eleição.

 Cansaço, fastio, náusea... Pareço existencialista sem o charme dos café de Paris. Recuso-me a perder tempo com o que não se resolve. Prática, arranjo-me com plantas novas a regar, leituras leves, papos telefônicos. Pena não conseguir entrar na era do computador! Tenho uma prima que soluciona tudo nas virtualidades. 

            As horas escorrem igual a outubro: passo descompassado e trôpego de ancião doente. Procuro vocações escondidas: bordar, talvez. Quem sabe, um tapete tipo Diamantina, um painel decorativo? Tenho duas mãos e a fé. Faltam-me lã ou algodão grossos, mais “engenho e arte”.

Tento nova incursão à máquina de costura. O ruído dela provoca reação imediata do marido: - Que rom-rom-rom é este, Deus do céu! Como é que eu posso descansar? EU trabalho, viu?

            Mensagem decodificada, descanso a máquina, pedindo quase perdão. Não fico ofendida. Vou deitar a seu lado. Quem sabe, não atiço o homem?

 

21 de dezembro  - Vem vindo o Natal, meu Deus!!! Que grande chatice! Meu irmão, na Europa, minha amiga americana, eles se preparam, com justa razão: neve, lareira, agasalhos, clima propício ao aconchego familiar. Papai Noel autêntico: Santa Klaus.

 No Rio, torpor. Adultos tentam insistentes as mil compras; crianças hoje, não sei. As pequeninas devem adorar. Principalmente quando têm alguma grana disponível.

            Mais confusão na rua e na TV. Falatório e preparativos para o pósnatal: o Grande Reveillon na praia. Em terra de poucos atentos, a classe média se regala e o povão a imita: fluídos da televisão. Os muito pobres, que se lixem!

 Quero ser fada e dar uma varinhada geral: faço mudar o país, talvez, o mundo. Marco cada minuto que falta para a  festa obrigatória. Brutal ansiedade! A coluna vertebral sinaliza que vai chiar. Comme toujours.

Tenho planos, como sempre: este ano que entra me largo da família. Embarco para uma tribo indígena, a conselho de meu primo antropólogo, amante de índios desde pequenino. Como Darcy Ribeiro, Marechal Rondon...

Na pior das hipóteses, tiro a ferrugem do revólver de herança do meu pai e... Passo a fazer parte da história medíocre da minha família. Com h  bem minúsculo.

voltar