|
Meu Deus! Que diferença! Que dia
mas triste este que se chama de alegria, aleluia!
Sozinha em casa, nem o telefone
hoje bem-vindo! Pensamentos fluem. Que coisa mais estranha este
silêncio no prédio e na rua. E olhe que minha rua é barulhenta,
tem bastante trânsito! Nem passa ambulância, gente!
Onde se meteu o povo rico, de
classe média-média e pobre, do Leblon? Encafuaram-se em suas
casas, como em dia de muita chuva? Resolvem proteger-se de um
mau tempo apenas anunciado? Não posso acreditar: o calor
continua e não chove nadinha para que se possa finalmente
anunciar a chegada do outono.
Onde ficaram as crianças que
malhavam Judas com grande alarido, desde cedo, em minha
infância? Rejeito a idéia de que é bondade dos pais afastá-los
da moda odiosa, quando, na verdade, não as conseguem afastar de
outras violências diárias, de maior dano!
Mesmo nas favelas, tudo parece
calmo, como se bandidos e pessoas decentes estivessem
descansando. Estarão rezando, rejubilando-se pela ressurreição
de Jesús Cristo? Mas a festa da Páscoa, com os tais ovos de
chocolate, não é sempre festejada no Domingo de Páscoa?
Portanto, é amanhã que os ovos comprados à vista ou em suaves
prestações vão ser devorados.
Preocupo-me de novo. Deve ser
hábito. Será que houve tiroteio na Rocinha ou no Vidigal –
favelas mais próximas do bairro - enquanto eu ressonava
protegida pelo ar condicionado um tanto desgastado pelo uso?
Uma hipótese possível: as
famílias acharam mais cômodo postar as crianças diante da
televisão e seus eternos desenhos animados, enquanto o pai da
casa bebe umas e outras nos bares. Não seria muito diferente dum
tempo em que favela era uma moradia pertinho do céu, romantizada
pela canção: “ Favela, oi, favela! Favelaque mora no meu
coração...”?
Quanto aos mais abastados ou
cheios da grana mesmo, já se sabe: todos aos resorts de
luxo ou às casas de campo ou praia, uma vez que nem a primeira
classe escapa ao problema dos controladores de avião, agora
considerados “amotinados” – temo que me lembra os piratas dos
filmes. Só entra em avião o “povo eleito”, que voa de jatinho
particular. Assim mesmo, dá medo.
Famílias nem ricas nem pobres
devem ter fugido também do Rio ameaçador, como o fazem nos
feriadões famosos do nosso calendário. Em geral, praia. Nem que
seja em casas ou pousadas modestas. A esta altura, empilham-se,
junto aos turistas nas praias da Região dos Lagos, sobretudo em
Cabo Frio ou Búzios.
Decido dar uma volta. Em meu
bairro, pouca gente, com cara de preguiça, sai da praia sem sol
ou da casa entediante. Senhoras e senhoras “sem-tetos” de praia
ou campo sentam-se nos muitos Cafés que, a todo dia, abrem.
Poucas pessoas, se penso na quantidade dos sábados de sol
comuns.
Mas, os bares de nossa cultura
etílica, ah, nesses, acotovelam-se os gritos os mesmos beberrões
de todos os sábados e domingos comuns.
Ninguém fala de igreja católica,
de Paixão de Cristo. Parece que Jesus se foi de vez ontem. Vamos
ver se ressuscita amanhã. |