Maria Lindgren

Sábado De Aleluia

Meu Deus! Que diferença! Que dia mas triste este que se chama de alegria, aleluia!

Sozinha em casa, nem o telefone hoje bem-vindo! Pensamentos fluem. Que coisa mais estranha este silêncio no prédio e na rua. E olhe que minha rua é barulhenta, tem bastante trânsito! Nem passa ambulância, gente!

Onde se meteu o povo rico, de classe média-média e pobre, do Leblon? Encafuaram-se em suas casas, como em dia de muita chuva? Resolvem proteger-se de um mau tempo apenas anunciado? Não posso acreditar: o calor continua e não chove nadinha para  que se possa finalmente anunciar a chegada do outono.

Onde ficaram as crianças que malhavam Judas com grande alarido, desde cedo, em minha infância? Rejeito a idéia  de que é bondade dos pais afastá-los da moda odiosa, quando, na verdade, não as conseguem afastar de outras violências diárias, de maior dano!

Mesmo nas favelas, tudo parece calmo, como se bandidos e pessoas decentes estivessem descansando. Estarão rezando, rejubilando-se pela ressurreição de Jesús Cristo? Mas a festa da Páscoa, com os tais ovos de chocolate, não é sempre festejada no Domingo de Páscoa? Portanto, é amanhã que os ovos comprados à vista ou em suaves prestações vão ser devorados.

Preocupo-me de novo. Deve ser hábito. Será que houve tiroteio na Rocinha ou no Vidigal – favelas mais próximas do bairro - enquanto eu ressonava protegida pelo ar condicionado um tanto desgastado pelo uso?

Uma hipótese possível: as famílias acharam mais cômodo postar as crianças diante da televisão e seus eternos desenhos animados, enquanto o pai da casa bebe umas e outras nos bares. Não seria muito diferente dum tempo em que favela era uma moradia pertinho do céu, romantizada pela canção: “ Favela, oi, favela! Favelaque mora no meu coração...”?  

Quanto aos mais abastados ou cheios da grana mesmo, já se sabe: todos aos resorts de luxo ou às casas de campo ou praia, uma vez que nem a primeira classe escapa ao problema dos controladores de avião, agora considerados “amotinados” – temo que me lembra os piratas dos filmes. Só entra em avião o “povo eleito”, que voa de jatinho particular. Assim mesmo, dá medo. 

Famílias nem ricas nem pobres devem ter fugido também do Rio ameaçador, como o fazem nos feriadões famosos do nosso calendário. Em geral, praia. Nem que seja em casas ou pousadas modestas. A esta altura, empilham-se, junto aos turistas nas praias da Região dos Lagos, sobretudo em Cabo Frio ou Búzios.

Decido dar uma volta. Em meu bairro, pouca gente, com cara de preguiça, sai da praia sem sol ou da casa entediante. Senhoras e senhoras “sem-tetos” de praia ou campo sentam-se nos muitos Cafés que, a todo dia, abrem. Poucas pessoas, se penso na quantidade dos sábados de sol comuns.

Mas, os bares de nossa cultura etílica, ah, nesses, acotovelam-se os gritos os mesmos beberrões de todos os sábados e domingos comuns.

Ninguém fala de igreja católica, de Paixão de Cristo. Parece que Jesus se foi de vez ontem. Vamos ver se ressuscita amanhã.

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