Maria Lindgren

 Sentimentos Cruzados

Ela, olhos claros castanho-esverdeados, sensuais tâmaras, cabelo quase ruivo, bem penteada, traje discreto. Ele, olhos azuis prejudicados por lentes de óculos de grau avançado, ainda que de armação bastante moderna, todo de branco: camisa social de manga enrolada até o cotovelo e calça de brim..

Sentada na cadeira do meio, entre os dois, ela tinha dificuldade de escolher a direção da cabeça. Olhava hora para o homem, hora para a mulher. Como em platéia de tênis. O pescoço começava a chiar pela contorção obrigatória, mas não desistia. Um imã a levava para ambos inapelavelmente. Charme inegável da dupla.

- A Guerra de 40 não nos atingiu como raio, mas indiretamente passamos bem mal.

- É verdade. Só o fato de não termos o arroz com feijão de todo dia!

- E mais o açúcar e a carne. Sobretudo, a carne.

- Minha mãe pegava toda a roupa dispensável, mais panelas, garrafões de água, marmitas - sabe, aquelas marmitas de colocar uma em cima da outra quando se comia de pensão - garfos, facas, colheres, copos... Um monturo empilhado nas esquinas da rua principal, à espera dos caminhões que faziam o transporte para os mais necessitados.

- Ninguém se lembrava de que a tralha toda podia fazer falta um belo dia. Queriam mesmo era servir à pátria de algum modo.

- E o black out! Virava clima do dia. Hoje vai ter? Ainda não ouvi barulho de sirene. Era o sinal pra que a gente se enfiasse debaixo das camas.

- É mesmo. Lá em casa, éramos seis crianças se escondendo no vão da escada.

Enquanto emendavam as falas, os olhares nostálgicos se trocavam cada vez mais sedutores, em segredo de cama. Passava um calafrio pelo corpo dos falantes e da ouvinte intrusa. O encontro ganhava solenidade, respeito, dignidade, a cada passo.

Era assunto de pátria ofendida, afinal de contas. Não se referiam a uma brincadeira de mau gosto, a uma campanha de poucos dias para angariar fundos para os pobres do morro. Pra valer o amor cívico que os pequenos gestos demonstravam. Adultos, velhos, crianças na azáfama do combate a domicílio, sem vítimas evidentes, muito menos, feridos ensangüentados, mortos.

Talvez tivessem um ou outro parente Pracinha, no front italiano, quem sabe? Não importava. O momento os atingia pelo rádio, convocava-os à ação, de algum modo. E nada de mercado negro: filas de dobrar esquinas nos armazéns da cidade, para obter mantimentos de sobrevivência.

- No meu bairro, anunciavam boca a boca: chegou arroz branco no Seu Joaquim. Todos corriam  e, em segundos, fila quilométrica, panelas, sacos e baldes na mão.

- No meu, era no empório de Seu Lucas. Chegou açúcar! Dá pra gente colocar no café uma semana.

A fala da senhora de lábios finos sensuais, à la Greta Garbo, combinava às maravilhas com a do senhor de lábios mais cheios e porte de James Stewart. Dueto de almas, no mesmo sentimento de recordação, de um tempo que tinha acabado no Brasil, graças a Deus.

- Teve gente que criticou o Getúlio, mas eu acho que ele fez muito bem de aderir à guerra. Você sabe que se suspeita dos americanos fingirem de alemães ameaçadores? Até hoje se fala nisso. O certo é que de alemão não se via sombra, só se ouvia falar. Mas americano, este sim, desembarcava no Norte do Brasil, abocanhava o que podia.

- Daí a dança, o For All, que virou a palavra forró, segundo dizem, mas ninguém prova.

Riram-se os três. Brasileiro tem cada idéia! Quem poderia imaginar que uma dança tão popular no Nordeste pudesse ter sido batizada por americano!

A ouvinte se sentia cada vez mais intrometida em conversa que não lhe era destinada. Tentava uma ou outra palavra, em vão. O cruzamento de emoções não admitia gente de fora. Passou, então, a reparar na beleza da senhora, verdadeira dama.

 Ficaria perfeita num traje dos anos de 1940: uma Vivien Leigh no filme A ponte de Waterloo, só que com cabelos ruivos e mais encaracolados. A mesma figura que deixava Robert Taylor estonteado de paixão. E seu galã de hoje, não menos atraído, não desgrudava dela, soltando histórias, emendando sentenças que lhe patenteassem a cultura, adquirida ao longo de seus oitenta anos viajados, lidos, vividos.

- Acho que a gente está se traindo na idade, com essas lembranças todas.

- Somos contemporâneos, minha querida. Devemos nos orgulhar do vivido; nunca nos envergonhar. Muito pouca gente pode se vangloriar de ter feito parte de uma guerra no Brasil, ainda que em criança..Foi assim que os ingleses aprenderam a comer pouco. Com a guerra, tinham que racionar a comida e se acostumaram. Refeições na Inglaterra não passam de porções frugais. E olhe como são até hoje.

- É mesmo. Continuam esguios, esbeltos, elegantes, sem vislumbre de barriga. A não ser um ou outro da classe popular..

- A italianada é que não aprendeu coisa alguma com a guerra. Tome de massa para inchar a pança. Também, com Mussolini de exemplo: baixo e pançudo, não é mesmo?

De pescoço duro e doído, a espectadora acompanhava o que podia do diálogo  sentimental, dos flashes das miradas, dos sorrisos meio disfarçados... Mais nova que o casal de companheiros ricos de reminiscência, calava-se, em admiração profunda.

 Suspirou, com inveja flagrante. Quem dera tivesse tanto para reviver!

Maria Lindgren

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