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Ela, olhos claros
castanho-esverdeados, sensuais tâmaras, cabelo quase
ruivo, bem penteada, traje discreto. Ele, olhos azuis
prejudicados por lentes de óculos de grau avançado, ainda que de
armação bastante moderna, todo de branco: camisa social de manga
enrolada até o cotovelo e calça de brim..
Sentada na cadeira do meio, entre
os dois, ela tinha dificuldade de escolher a direção da cabeça.
Olhava hora para o homem, hora para a mulher. Como em platéia de
tênis. O pescoço começava a chiar pela contorção obrigatória,
mas não desistia. Um imã a levava para ambos inapelavelmente.
Charme inegável da dupla.
- A Guerra de 40 não nos
atingiu como raio, mas indiretamente passamos bem mal.
- É verdade. Só o fato de não
termos o arroz com feijão de todo dia!
- E mais o açúcar e a carne.
Sobretudo, a carne.
- Minha mãe pegava toda a
roupa dispensável, mais panelas, garrafões de água, marmitas -
sabe, aquelas marmitas de colocar uma em cima da outra quando se
comia de pensão - garfos, facas, colheres, copos... Um monturo
empilhado nas esquinas da rua principal, à espera dos caminhões
que faziam o transporte para os mais necessitados.
- Ninguém se lembrava de que
a tralha toda podia fazer falta um belo dia. Queriam mesmo era
servir à pátria de algum modo.
- E o black out!
Virava clima do dia. Hoje vai ter? Ainda não ouvi barulho
de sirene. Era o sinal pra que a gente se enfiasse debaixo das
camas.
- É mesmo. Lá em casa, éramos
seis crianças se escondendo no vão da escada.
Enquanto emendavam as falas,
os olhares nostálgicos se trocavam cada vez mais sedutores, em
segredo de cama. Passava um calafrio pelo corpo dos falantes e
da ouvinte intrusa. O encontro ganhava solenidade, respeito,
dignidade, a cada passo.
Era assunto de pátria
ofendida, afinal de contas. Não se referiam a uma brincadeira de
mau gosto, a uma campanha de poucos dias para angariar fundos
para os pobres do morro. Pra valer o amor cívico que os pequenos
gestos demonstravam. Adultos, velhos, crianças na azáfama do
combate a domicílio, sem vítimas evidentes, muito menos, feridos
ensangüentados, mortos.
Talvez tivessem um ou outro
parente Pracinha, no front italiano, quem sabe? Não importava. O
momento os atingia pelo rádio, convocava-os à ação, de algum
modo. E nada de mercado negro: filas de dobrar esquinas nos
armazéns da cidade, para obter mantimentos de sobrevivência.
- No meu bairro, anunciavam
boca a boca: chegou arroz branco no Seu Joaquim. Todos corriam
e, em segundos, fila quilométrica, panelas, sacos e baldes na
mão.
- No meu, era no empório de
Seu Lucas. Chegou açúcar! Dá pra gente colocar no café uma
semana.
A fala da senhora de lábios
finos sensuais, à la Greta Garbo, combinava às maravilhas com a
do senhor de lábios mais cheios e porte de James Stewart. Dueto
de almas, no mesmo sentimento de recordação, de um tempo que
tinha acabado no Brasil, graças a Deus.
- Teve gente que criticou o
Getúlio, mas eu acho que ele fez muito bem de aderir à guerra.
Você sabe que se suspeita dos americanos fingirem de alemães
ameaçadores? Até hoje se fala nisso. O certo é que de alemão não
se via sombra, só se ouvia falar. Mas americano, este sim,
desembarcava no Norte do Brasil, abocanhava o que podia.
- Daí a dança, o For All,
que virou a palavra forró, segundo dizem, mas ninguém prova.
Riram-se os três. Brasileiro
tem cada idéia! Quem poderia imaginar que uma dança tão popular
no Nordeste pudesse ter sido batizada por americano!
A ouvinte se sentia cada vez
mais intrometida em conversa que não lhe era destinada. Tentava
uma ou outra palavra, em vão. O cruzamento de emoções não
admitia gente de fora. Passou, então, a reparar na beleza da
senhora, verdadeira dama.
Ficaria perfeita num traje
dos anos de 1940: uma Vivien Leigh no filme A ponte de Waterloo,
só que com cabelos ruivos e mais encaracolados. A mesma figura
que deixava Robert Taylor estonteado de paixão. E seu galã de
hoje, não menos atraído, não desgrudava dela, soltando
histórias, emendando sentenças que lhe patenteassem a cultura,
adquirida ao longo de seus oitenta anos viajados, lidos,
vividos.
- Acho que a gente está se
traindo na idade, com essas lembranças todas.
- Somos contemporâneos, minha
querida. Devemos nos orgulhar do vivido; nunca nos envergonhar.
Muito pouca gente pode se vangloriar de ter feito parte de uma
guerra no Brasil, ainda que em criança..Foi assim que os
ingleses aprenderam a comer pouco. Com a guerra, tinham que
racionar a comida e se acostumaram. Refeições na Inglaterra não
passam de porções frugais. E olhe como são até hoje.
- É mesmo. Continuam esguios,
esbeltos, elegantes, sem vislumbre de barriga. A não ser um ou
outro da classe popular..
- A italianada é que não
aprendeu coisa alguma com a guerra. Tome de massa para inchar a
pança. Também, com Mussolini de exemplo: baixo e pançudo, não é
mesmo?
De pescoço duro e doído, a
espectadora acompanhava o que podia do diálogo sentimental, dos
flashes das miradas, dos sorrisos meio disfarçados...
Mais nova que o casal de companheiros ricos de reminiscência,
calava-se, em admiração profunda.
Suspirou, com inveja
flagrante. Quem dera tivesse tanto para reviver!
Maria Lindgren |