Maria Lindgren

Sexta-feira Da Paixão

            Depois da noite difícil, cheia de sentimentos de culpa inexplicáveis, acusadores de um mal talvez feito, mas não recordado, acordo mal. Todo o meu corpo dói. Sobretudo, da cintura para baixo. Até mesmo o local das delícias me arranha, incomoda.

        Visões do filme sadomasoquista de ontem  à noite não cessam de me perturbar. Como George Clooney, em Siriana, também minhas unhas seriam arrancadas à força, me bateriam o rosto na parede, no chão, onde doesse e inchasse mais? Ao final da sessão sanguinolenta me embrulhariam em plástico preto bem grosso, me jogariam no lixo? E meus pares, me esqueceriam; meus filhos me culpariam? Perderia meu filho eletrocutado na piscina de um emir, defeituosa em suas instalações elétricas? Ou seria obrigada pela religião fundamentalista a me transformar em mulher-bomba, atirando-me contra navio de infiéis? Nunca sairia do buraco por força do capitalismo selvagem das empresas nacionais e internacionais do lucro? Teria que falar árabe, mas qual árabe? Acabaria explodida por uma bomba “ aliada”, depois de todo o sofrimento anterior, só por estar na companhia do filho rejeitado do emir cobiçado?

Misturo filmes, cabeça confusa do meio-sonho-pesadelo. O da TV de horas atrás também maldizia um árabe, com seu jeito de louco árabe, seu terrorismo coletivo, e mais um espanhol de cabelão em rabo de cavalo, com suas drogas e assassinatos individuais. Nesse filme sem prêmios de Oscar, o americanos, expelindo fuck you, damn e outros palavras nada gentís, era policial de Los Angeles, heróico superhomem. A “banda podre” da democracia americana não se mostrava, como em Siriana.

Durmo ao amanhecer, às custas de calmante em dose dupla. Daí, a manhã nebulosa de olhos pesados e idéia fixa: “ Tenho que ir à Missa ou à Via-Sacra! Ser católica o exige”.

A Via-Sacra de minha paróquia é na favela, bem longe da minha pouca fé, reconheço. A igreja mais chique do Leblon, isto é, os católicos fervorosos que não viajaram, vão in loco, onde as balas costumam zunir e se alojar em qualquer corpo, seja de fiel a Deus ou bandido, aí incluindo a polícia, é claro.

Decido-me por Ipanema,. Não, sem antes repassar a mais forte possível causa do meu sofrimento: a celebração familiar da Páscoa, sempre temida. Mudo a idéia de almoçar fora e chamo quem quiser vir para o Domingo de Páscoa de minha casa. Com bacalhau azeitado, vinho e amor.

Pronto. Agora, sim, posso ir à Missa e comungar. Na igreja, parece que toda a Ipanema resolveu não viajar e prestar solidariedade ao Cristo na Cruz. Um bando de velhos, meia-idade e moços, de variadas colorações de pele - incluo no grupão ajoelhado, sentado ou em pé por falta de espaço, os estrangeiros católicos que, definitivamente, descobriram o Brasil da Zona Sul, leia-se Copacabana e Ipanema, sem trégua.

A igreja triste, mal iluminada e calorenta, nesta tarde de verão outonal de 2007, os três padres contritos, ressaltados por paramentos vermelhos, de sangue, e as carolas de plantão por certo não me consideram idosa o suficiente para me acomodar em cadeira especial. Quem manda vestir-me com braços de fora e saia rodada, arriscando o ridículo, mas garantindo o pequeno alívio do calor de outono!?

De pé, primeiro, depois, sentada graças ao sacrifício de um menino de seus dez anos, que não se conforma e desconta nas minhas pernas, passo meia hora a tentar o acompanhamento da reza. Não consigo ajoelhar de fala em fala, milhares de vezes. Observo, invejosa, idosos bem piores do que eu, que o fazem, custe o que custar: demonstração explícita de solidariedade com o sofrimento de Cristo na cruz.

Sinto-me mal duplamente: acho uma bobagem forçar joelhos e quadris enferrujados ao movimento contínuo e constante do ajoelhar, levantar, falar, ajoelhar, levantar, falar... Além disso, reconheço minha fragilidade corporal, meu corpo sem alma deteriorado pela coluna há mais de trinta anos, em progressão tão contínua quanto o palavrório dos padres. Desculpem-me os muito crentes.

 Lembro de um filme antigo, acho que era Madre Joana dos Anjos, em que a reza tinha que ser feita deitada de bruços no chão, com os braços bem abertos. Penso que poderia ser melhor, para meu corpo dolorido, do que o sacrifício em pé, de hoje. Mas o caso é que nos dias de hoje, a invasão da turba eclética e palpitante, definiu as posturas, sem retorno..

Benzo-me, guardo na bolsa o panfleto da Missa da Paixão de Cristo, caminho uma quadra, bem devagar, muito pouco à vontade. Chego ao café de que tanto gosto, peço um cappucino  e uma água e, em dois minutos, relaxo. Estou viva, afinal. Cristo que me perdoe!!!!!

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