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Depois da noite difícil, cheia de sentimentos de culpa
inexplicáveis, acusadores de um mal talvez feito, mas não
recordado, acordo mal. Todo o meu corpo dói. Sobretudo, da
cintura para baixo. Até mesmo o local das delícias me arranha,
incomoda.
Visões do filme sadomasoquista de ontem à noite não cessam de
me perturbar. Como George Clooney, em Siriana, também minhas
unhas seriam arrancadas à força, me bateriam o rosto na parede,
no chão, onde doesse e inchasse mais? Ao final da sessão
sanguinolenta me embrulhariam em plástico preto bem grosso, me
jogariam no lixo? E meus pares, me esqueceriam; meus filhos me
culpariam? Perderia meu filho eletrocutado na piscina de um
emir, defeituosa em suas instalações elétricas? Ou seria
obrigada pela religião fundamentalista a me transformar em
mulher-bomba, atirando-me contra navio de infiéis? Nunca sairia
do buraco por força do capitalismo selvagem das empresas
nacionais e internacionais do lucro? Teria que falar árabe, mas
qual árabe? Acabaria explodida por uma bomba “ aliada”, depois
de todo o sofrimento anterior, só por estar na companhia do
filho rejeitado do emir cobiçado?
Misturo filmes, cabeça confusa do meio-sonho-pesadelo. O da TV
de horas atrás também maldizia um árabe, com seu jeito de louco
árabe, seu terrorismo coletivo, e mais um espanhol de cabelão em
rabo de cavalo, com suas drogas e assassinatos individuais.
Nesse filme sem prêmios de Oscar, o americanos, expelindo
fuck you, damn e outros palavras nada gentís, era
policial de Los Angeles, heróico superhomem. A “banda podre” da
democracia americana não se mostrava, como em Siriana.
Durmo ao amanhecer, às custas de calmante em dose dupla. Daí, a
manhã nebulosa de olhos pesados e idéia fixa: “ Tenho que ir à
Missa ou à Via-Sacra! Ser católica o exige”.
A
Via-Sacra de minha paróquia é na favela, bem longe da minha
pouca fé, reconheço. A igreja mais chique do Leblon, isto é, os
católicos fervorosos que não viajaram, vão in loco, onde
as balas costumam zunir e se alojar em qualquer corpo, seja de
fiel a Deus ou bandido, aí incluindo a polícia, é claro.
Decido-me por Ipanema,. Não, sem antes repassar a mais forte
possível causa do meu sofrimento: a celebração familiar da
Páscoa, sempre temida. Mudo a idéia de almoçar fora e chamo quem
quiser vir para o Domingo de Páscoa de minha casa. Com bacalhau
azeitado, vinho e amor.
Pronto. Agora, sim, posso ir à Missa e comungar. Na igreja,
parece que toda a Ipanema resolveu não viajar e prestar
solidariedade ao Cristo na Cruz. Um bando de velhos, meia-idade
e moços, de variadas colorações de pele - incluo no grupão
ajoelhado, sentado ou em pé por falta de espaço, os estrangeiros
católicos que, definitivamente, descobriram o Brasil da Zona
Sul, leia-se Copacabana e Ipanema, sem trégua.
A
igreja triste, mal iluminada e calorenta, nesta tarde de verão
outonal de 2007, os três padres contritos, ressaltados por
paramentos vermelhos, de sangue, e as carolas de plantão por
certo não me consideram idosa o suficiente para me acomodar em
cadeira especial. Quem manda vestir-me com braços de fora e saia
rodada, arriscando o ridículo, mas garantindo o pequeno alívio
do calor de outono!?
De
pé, primeiro, depois, sentada graças ao sacrifício de um menino
de seus dez anos, que não se conforma e desconta nas minhas
pernas, passo meia hora a tentar o acompanhamento da reza. Não
consigo ajoelhar de fala em fala, milhares de vezes. Observo,
invejosa, idosos bem piores do que eu, que o fazem, custe o que
custar: demonstração explícita de solidariedade com o sofrimento
de Cristo na cruz.
Sinto-me mal duplamente: acho uma bobagem forçar joelhos e
quadris enferrujados ao movimento contínuo e constante do
ajoelhar, levantar, falar, ajoelhar, levantar, falar... Além
disso, reconheço minha fragilidade corporal, meu corpo sem alma
deteriorado pela coluna há mais de trinta anos, em progressão
tão contínua quanto o palavrório dos padres. Desculpem-me os
muito crentes.
Lembro de um filme antigo, acho que era Madre Joana dos Anjos,
em que a reza tinha que ser feita deitada de bruços no chão, com
os braços bem abertos. Penso que poderia ser melhor, para meu
corpo dolorido, do que o sacrifício em pé, de hoje. Mas o caso é
que nos dias de hoje, a invasão da turba eclética e palpitante,
definiu as posturas, sem retorno..
Benzo-me, guardo na bolsa o panfleto da Missa da Paixão de
Cristo, caminho uma quadra, bem devagar, muito pouco à vontade.
Chego ao café de que tanto gosto, peço um cappucino e
uma água e, em dois minutos, relaxo. Estou viva, afinal. Cristo
que me perdoe!!!!! |