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De
repente, saio à rua para um de meus tratamentos da coluna e vejo
um bairro meio vazio. A princípio, enclausurada em minha própria
obsessão da doença, estranho. Passo a esperar um taxi, como
sempre e, para minha surpresa, está fácil demais de se entrar em
um. “Deve ser a proximidade do final do mês, afinal, estamos no
dia 25de novembro”, penso, alienada.
Entro e o motorista, de rádio ligado bem alto, me traz as piores
notícias do Rio de Janeiro, cidade dita e repetida Maravilhosa,
ninguém entende por que. Trinta e três mortos e não sei quantos
feridos na guerra retomada(?) dos bandidos contra a polícia e,
agora, contra nós, que mal bebemos um copo de chope. O clima da
Rádio Tupi é de arrepiar os poucos pelos que tenho no braço. Uma
gritaria nas entrevistas, uma barulheira de sirenes, um
constatar do não-poder-fazer-nada, um horror.
Eu
que já ando meio zonza por conta de uma labirintite, só fiz
piorar. Saltei do táxi quase caindo nas pedras portuguesas meio
desfalcadas das calçadas, ainda com a voz do motorista a me
aconselhar:
-
Eu, se fosse a senhora, não saía de casa esses dias. Inda mais
com tonteira.
À
saída do consultório do fisioterapeuta, deparo-me com um
elevador vazio, o que é raro no prédio repleto de consultórios.
Certamente, fizeram como eu, que adiei uma consulta de manhã
cedo na Barra da Tijuca. Só que, no meu caso, por motivo
particular.
Acho
que não foi surpresa para ninguém que pensa o mundo de hoje a
reação dos famigerados bandidos, depois da implantação de
sucesso das Unidades de Polícia Pacificadora. Os miseráveis
tinham que provar que podem mais que a polícia e o estão fazendo
com enorme alarido.
Vi
cenas na tevê de desanimar: montes de ônibus incendiados, balas
misturadas da polícia e dos bandidos, famílias em correria
desenfreada para suas casas (mães e filhos pequenos, em geral).
Nem as vans, preferidas da classe popular carioca, também
ninguém entende porque, escaparam do absurdo bélico: estão sendo
igualmente incendiadas. O comércio de pouca venda fecha as
portas e reza para o problemão não chegar até às vésperas do
Natal. Clima de Afeganistão ou Iraque.
Na
volta do tratamento, ouço um idiota dizer no rádio:
·
Pior que tudo é
o triste papel do Brasil no exterior. Todos os jornais do mundo
noticiaram a tragédia do Rio.
Revoltada, quero sair bem rápido, mas ainda tenho tempo de dizer
ao taxista:
·
Pior por causa
do mundo, nada. O mundo é uma vergonha de tanta guerra. Pior
mesmo é para nós, da nossa terra, que sofremos esta barbárie há
muito tempo.
Lembrei-me de minha filha, que já teve revólver e faca apontados
para ela em tr|~es ocasiões. E olhe que ela continua a sair
sozinha, que fazer?
que-fazer são as palavras que não saem das bocas dos cariocas,
em lugar dos festejos natalinos que se aproximam.
Que
o menino-Deus possa ser comemorado em paz, amém!
Maria Lindgren |