O verão, esta época danada para
quem mora em país tropical, chegou com ar estranho. Força
menor de calor do que no final da primavera e chuva. Em plenas
festas de fim de ano, o receio de chuvarada, raios e trovões
sondava o ambiente. A chegada do Menino-Deus, causadora sem
nenhuma culpa de desvarios das classes medias, venceu as
ameaças das nuvens. O Réveillon de Copacabana, ameaçado de ter
seus fogos de artifício conspurcados, saiu melhor do que a
encomenda. A igreja da Penha se iluminou e encheu de piedosos,
agradecidos pela paz no bairro e adjacências. Uma alegria.
Mas, o mês de
janeiro, obedecendo aos comandos de nossa impiedosa
mãe-natureza, logo que acabou a farra quase obrigatória de
muitos, mostrou que não se brinca impunemente com o tempo:
nossa bela Região Serrana, logo no dia 11, foi literalmente
inundada. Verdadeiro tsunami de água doce.
A televisão,
sempre cheia de cócegas para contar tragédia, não se
contentara com as imagens aflitivas das cheias do rio Tietê e
outros de São Paulo, de triste celebridade, devido ás águas
superabundantes das enchentes. Mal deixara de lado as vozes,
os tiros e outros ruídos beligerantes do afamado local de
traficantes de drogas do Rio de Janeiro, o Complexo do Alemão,
“pacificado” a ferro e fogo pelas Forças Armadas brasileiras,
fixou suas câmeras e seus comentários em outras paragens,
episódios trágicos costumeiros, no próprio estado que a sedia.
Um assassinato aqui, um transbordamento de gente nas cadeias
ali, um assalto a transeunte ou acidente do trânsito acolá...
E deu-se a repetição dos borbotões de chuva a arras ar a bela
Região Serrana, como o havia feito com a não menos bela região
praiana de Angra dos Reis, em 2010, e com Niterói, não tão
bela assim.
Mais uma vez,
um absurdo de avalanches despencou dos morros, fez transbordar
os poéticos “ rios de minha aldeia”, como dizia Fernando
Pessoa, invadiu casas de pobre e de rico. Porque aqui no nosso
estado não escaparam as mansões, construídas sem a inspeção
cautelosa do solo como qualquer casebre de pobres. Dizem que
algumas residências foram feitas por cima de um charco em
Itaipava, Petrópolis, do mesmo modo que os mais necessitados
no lixão de Niterói. Não sei.
Os
comentaristas das universidades, de plantão imediato nessas
horas sofridas, inundaram os canais de comentários sabidos
sobre o que deveria ter sido feito e não o foi.
- O
desconhecimento do terreno onde se constroi é uma das piores
causas.
- As margens
dos rios, desmatadas sem a inspeção necessária, some com os
anteparos para a força das águas.
- Os monturos
de lixo, jogados a esmo pela população mal-educada, causam
obstrução dos bueiros e outras vias de escoamento nas cidades.
- A
necessidade de moradia para os pobres não os faz cautelosos
com seus locais de construção de casas e o fazem em zonas de
risco.
- As
prefeituras não dão contam dos serviços de prevenção às
enchentes, não me perguntem por que. (Aqui os entrevistadores
do partido no poder fazem o possível para não culpar os
governos; um ou outro deixa escapar uma queixa.)
E tome de
enxurrada e tome de horror, de gente morta e de feridos. Para
desespero da gente que perdeu tudo e, muitas vezes, toda a
família. E para o nosso,
telespectadores-cidadãos, por nos sentirmos sem armas para
livrar-nos de tudo isso.
Até quando,
Deus Meu!!!!!!!
Maria
Lindgren