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Sei que não sou crítica de cinema, mas estou habituada a
refletir sobre os filmes que vejo. Não sou antropóloga ou
socióloga, mas discuto a sociedade, talvez as sociedades, porque
leio e sou metida a discutir com os “sábios”. Falo como
professora que sempre quis ser e como cidadã brasileira.
O primeiro Tropa de Elite vi na televisão. Relutei
muito em ir ao cinema porque sabia que o filme ia me chatear.
Mesmo na telinha mixuruca deu-me raiva. Jamais achei que
violência se refreia com mais violência que mata um bando de
inocentes, crianças inclusive (as tais “balas perdidas” estavam
em plena moda nesta terra que não consegue mais fazer juz ao
epíteto “maravilhosa”.
O BOPE explorado no filme, com seu lúgubre grito de guerra
Caveirão, Caveirão e sua mentalidade de arrasar primeiro,
depois, se justificar, era um hit na cambada da classe
média com que convivo, sobretudo, depois de aposentada. A figura
do “gato” Wagner Moura, imitava os eternos John Wayne, Henry
Fonda e o “gatíssimo Clint Eastwood, das minhas fantasias de
outrora, em filmes de cowboy. Assassinos, sim, porém, como diz
um dos candidatos à presidência em 2010, em slogan de campanha,
“do Bem”. Eram violentos, sem dúvida. Em comparação com os dias
de hoje, que diferença! Conquistavam os corações dos
frequentadores de cinema, isto é, dos que tinham grana para
pagar cinema, contra os bandidos, os assaltantes de banco, lá
neles, e pronto. Hoje, os assaltantes privilegiados são os
próprios bancos . Os bandidos, os que cometem delitos graves, os
que fazem parte das mamatas, tantos... Na cabeça de muitas
pessoas, se confundem com favelados, “porcaria de gente que só
serve para trabalhar pra nós”.
O Capitão Nascimento, no primeiro filme, comandava a tropa com
sua figura de justiceiro carioca, sempre em meio aos mesmos
palavrões filho da p..., cara..., po..., ao som dos berros
uníssonos de “Caveira”, num hino-rap abrasileirado de inflamar
espectadores menos exigentes. O herói não apenas (de)formava
seus subalternos, como atirava e matava, com armas de dar inveja
a muito exército subdesenvolvido, para acabar com a raça de quem
achava que não prestava. Resultado: sucesso total, game em que
os jogadores são o Capitão Nascimento ou, pior, os bandidos,
conforme escolha, DVD rápido e pirateado para quem não pode ir
ao cinema, Urso de Ouro no Festival de Veneza de 2007, grana
para fazer outro filme despontando no ar. Gerou polêmica entre a
soi-disant esquerda , da qual faço parte sem executar
nenhuma ação, confesso, e a velha direita do “pega, mata e
come”. Foi acusado de fascista na Europa e, talvez, por um
ou outro brasileiro mais inclinado aos direitos humanos.
Como não podia deixar de ser, vem o Tropa de Elite 2 ,
em 2010. Aparece bem na hora em que se tentam Polícias
Pacificadoras na cidade, entre o primeiro e o segundo turno de
uma eleição para Presidente do país. Na hora em que os favelados
começam a respirar. Elogios abundantes da crítica, bonequinho
aplaudindo de pé, como era de se esperar, palmas durante a cena
mais sangrenta de justiça à moda western, sem sequer a linda
mocinha ser prêmio para o “justiceiro” Nascimento: ela prefere o
subdesenvolvido professor, depois deputado.
Atraída pela propaganda que não dá tregua e pelos comentários
favoráveis de todos os cariocas que ainda se auto-denominam como
tal, por certo orgulho remanescente, caí na arapuca, com a
desculpa de que sou fã do Wagner Moura, desde que o vi em um
Hamlet, do qual só ele escapava.
O filme deixou-me indignada. Desta feita, é a milícia maquinada
com os políticos que domina a violência do filme. O mocinho “do
Bem”, o “gato” do BOPE, está envelhecido por talco nas têmporas,
caminha de terno e gravata a passos pequenos. Transformou-se o
bom ator em canastrão. No final, ele muda completamente de
bandidão do Caveirão para bom moço, não sem antes revidar e como
ao tiroteio. Porque o filho leva um tiro dos inimigos do
professor-deputado-eleito da tal esquerda, aliás a única figura
que escapa da montoeira de facínoras. A transformação de
Nascimento se dá por razões particulares, como os americanos
adoram mostrar – família antes de tudo. O filho, atingido por
bala da milícia e seus congêneres, o faz vomitar impropérios
contra todos os políticos, em plena Assembleia Legislativa,
pedindo a extinção da Polícia Militar: “ A Polícia Militar
tem que acabar”, acusando, de dedo em riste, os deputados
presentes, em cena de filme da Máfia, muito melhores, por sinal.
Os políticos eleitos e seus asseclas, sem exceção - até o
presidente é insinuado- são maquinados com o tráfico e com as
milícias assassinas, assim como antes manipulavam o comando do
BOPE, o que já era de bom tamanho. O que pode ser verdade para
alguns, mas como fato generalizado do jeito que aparece no
filme, torna-se, na minha opinião de professora, nocivo à
conformação presente e futura de nossa sociedade. Afinal, as
eleições ainda são a esperança de transformação para melhor,
“fichas sujas” à parte.
Grande filme, aplaudido de pé, por quê? Tem planos magníficos,
filmagens sofisticadas, texto de substância, sangue verdadeiro a
jorrar dos bandidos e policiais mortos, como o que testemunhamos
todos os dias na televisão não-ficcional? O ator,
tenente-coronel Nascimento, que vira quase-secretário de
segurança, convence em seu trabalho magistral? O diretor
descobriu algum jeito godardiano ou resnaisiano de usar a
linguagem cinematográfica?
O que fica deste filme de ação, imitado ao cinema americano, é a
irritação contra as oportunidades dadas a quem visa apenas o
lucro fácil de um filme comercial e apelativo – até o Wagner
Moura se fez produtor da película.
E a grande tristeza de ver um jovem do meu lado, gritar, junto
com milicianos e policiais, “com todo o respeito”, como se
repete no filme, todos os palavrões vociferados ou falados em
conversa casual, ferindo meu ouvidos cansados de tantos chavões.
Ou as palmas da platéia de um cinema entupido dos frequentadores
cretinos da Zona Sul do Rio de Janeiro, que se babam com
qualquer filmeco violento, e vão depois para os bares e baladas
onde rolam as drogas. Tristeza muito grande de ver exposto, como
legitimamente carioca, um horror de arrepiar, exatamente quando
nosso país apresenta alguma melhora em seu desenvolvimento,
embora ainda falte muito para a decantada queda das diferenças
sociais.
Enquanto isso, o cinema argentino nos mostra seu valor, com
O segredo de seus olhos, também aplaudido de pé,
por espectadores cariocas bem diferentes. E tantos outros de sua
rica filmografia moderna que, com delicadeza, criticam a
ditadura – vide a História Oficial – e os problemas
sociais de seu país.
Maria Lindgren
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