|
Coroai-me de rosas
E de folhas breves,
E basta
(Ricardo Reis)
Primeiro, penso na crise da sólida classe média
americana. Como é que pode? Inventora de moda fácil, adotou o
tênis, a calça jeans, as bermudas e os bermudões, o boné, as
camisetas de malha..., para gente gorda, magra, obesa,
esquelética, jovem, coroa. Sem dar a mínima para a
estética. No verão, é claro. E o mundo inteiro a copiou, sem
pestanejar. Até o japonês de cultura tão diversa, tão logo
acabou a guerra Estados Unidos x Japão, jogou para o lado os
quimonos incômodos, guardou-os para o teatro ou, talvez, para
uma ou outra cerimônia tradicional e se enfiou na praticidade
americana. Junto com a mania do rock e da língua inglesa, é
certo.
Depois, vem-me ao pensamento a classe média
portuguesa imigrante, aquela que, sem jamais menosprezar índios
e negros, mais diretamente me influenciou, com seus costumes
rígidos católicos, apostólicos, romanos. Resolvo pousar nela.
Chega de pensar nos descendentes dos engomados ingleses, por
mais que ainda haja quem comente no Brasil: - Ah Se o brasileiro
tivesse sido colonizado pelos ingleses! Que diferença! Que
classe! Que erudição!
Detesto puritanismo. Daí que o termo puritano
até hoje me dá arrepios. Uma pitada de pimenta nunca fez mal
a ninguém e, se tenho a pele morena, é por causa da miscigenação
que a portuguesada quente logo começou a por em prática –
mal tratos à parte - graças às graças das índias e à
semgracice das lusitanas em terras brasileiras. Nada de
Pilgrims de hábitos de ferro, nada de exploradores
disfarçados em highbrows. Brancos puros, Deus me livre!
Lembram os nazistas e sua busca da raça ariana perdida. Viva a
mistura!
Descanso, bebo um golinho de vinho do Porto, em
homenagem ao friozinho carioca, e volto a pensar um pouco mais,
enquanto o saco de água quente me relaxa a abalada coluna
vertebral..
Fala-se, hoje, na desagregação dos costumes
brasileiros. Mas, será que algum dia houve agregação positiva,
sincera de costumes? E olhe que sondei os políticos: clientelistas,
favoritistas, corruptos, enfim, desde a Corte de
Dom João VI até o século XXI. Quase cometo uma tese acadêmica.
Não precisa
muito. Quando me contam das traições consentidas, embora
disfarçadas em cochichos, dos senhores maridos do tempo do
machismo exacerbado, não se trata de degeneração descarada da
fidelidade cristã? Sei de caso de senhor de colarinho duro,
colete e polainas, que bem poderia ter sido meu bisavô, que não
apenas comeu uma outra mulher, como teve filhos com ela
e os levou todos para morar na casa da esposa verdadeira. Sei de
defuntos de duas viúvas, que só se conheceram à hora dos ai-ais
como vou viver sem ele, diante da sepultura. Tudo gente da
classe média mais recatada da sociedade brasileira.
Portanto, esqueço os índios com suas tradições
tribais, segundo Darcy Ribeiro mais avançadas dos que as nossas,
e os negros, mesmo depois de oficialmente desescravizados
pela Lei Áurea - que estes não tiveram e talvez ainda não tenham
lá muita vez na minha sociedade privilegiada sem grandes
nobrezas.
A classe média está no fim, escuto dizer alguns
receosos pelos bares do Rio. Vai acabar no final de 2008, com o
retorno da bandida inflação galopante. Olha só os sinais
evidentes: as lojas estão cada vez mais vazias, apesar das
promoções e liquidações de Dia das Mães, Dia dos Namorados, Dia
dos Pais, Dia dos Santos Juninos etc. As prestações se
subdividem em exagerados anos de pagamento, sobretudo para
carros e casas – tem parcelamento de sapato no Leblon chique de
quatro vezes R$9,60. Os restaurantes de preços módicos são
freqüentados por gente que passava por eles de nariz em pé. Os
teatros, até ontem, cheios de velhotes aposentados, começam a
evidenciar algumas pulgas e cheiro de mofo, pois as baratas os
sprays modernos ainda liquidam. O cinema de telão tem preço de
Teatro Municipal e Sala Cecília Meireles de meu tempo de
mocinha. Os shows de desconhecidos ou pouco conhecidos estão a
preço de banana de feira minguada no final do expediente. Os
motoristas de taxi pululam a nossa volta, lábios movediços em
oração a São Judas Tadeu, para pegar passageiros de dois
quarteirões que sejam. As vans esbarram umas nas outras à
procura de gente fora do horário do rush e os ônibus andam
vazios onde eu moro porque dizem que tem marmelada nisso.
Mas eu vos digo, apesar de tudo: a crise da
classe média é velha. A decadência se iniciou há muito tempo.
Acho que dos anos de 1950 para cá. Mais precisamente, desde que
as mesas retangulares de família, bem arrumadas, de toalha e
guardanapos de pano engomado por fiéis empregadas de pouco ganho
e muito trabalho, de louça fina com estamparia0 imitada à melhor
Vista Alegre portuguesa ou à porcelana inglesa, conforme o
status familiar; mais os talheres de fino brilho, um para cada
tipo de alimento; os copos de cristal ou quase, a garrafa de
prata ou estanho com água ao ponto, os vinhos tintos ou brancos
a aguardarem nos estômagos a hora solene do Vinho do Porto...
foram esquecidos nos lares medianos.
Faziam parte de
um ritual sagrado e com rituais não se mexe. Eram o símbolo da
Ceia do Senhor, ampliada pela presença das mulheres, embora se
diga que Maria Madalena fez parte da Ceia Sagrada.
Comer em família, em torno da mesa de madeira
sólida – nada de aglomerados ou conglomerados – não era para ser
prosaicamente substituído por refeições à americana. Uma
catástrofe iniciada com a pressa dos pratos no colo, dos
talheres mal seguros nas mãos canhestras, dos copos no chão
muitas vezes chutados, ou colocados em mesinhas próximas, por
sorte. Só podia dar na desumanização da classe média. A velha
mesa de, pelo menos, oito lugares, talvez doze, desapareceu no
nevoeiro fatídico da moda americana do fast..
Ah que falta me faz a tradição, ainda que nem
sempre saísse tudo a contento! Havia discussões, estapear e
chutes dos filhos, resmungos das moças, gritaria do pai, desmaio
da mãe... Mas quem ousava levantar e sair antes dos componentes
todos saciarem por completo a gula, para ver desenho animado na
tevê, jogar vídeo-game, correr pela casa, encontrar amigos ou
namorados... Lavar a louça mal se acabava de comer, então!
Até hoje, escuto
o tim-tim dos copos, o barulho organizado dos pratos servidos um
a um – sopa de entrada, peixe primeiro, carne, depois, e, mais
que tudo, esquecida a zanga, o brinde aveludado de meu pai,
rude, mas cultivador das melhores tradições. Até hoje, espero os
ovos nevados de minha mãe, servidos nas cumbucas de
pseudo-cristal tcheco cor de rosa. Até hoje, abro meu
guarda-louça e vejo empilhado, sem uso, meu belo aparelho de
jantar herdado de meus pais. E choro.
Abaixo a modernidade idiota da cultura
fast!
Maria Lindgren
mariajoselindgren@gmail.com |