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Saio do cinema ainda com
lágrimas nos olhos, o discurso do rei, em anúncio da guerra pelo
rádio, reboando em todo o meu corpo. Como súdita fiel, senti-me
parte de um povo glorioso a acreditar em seu rei: ...We shal
prevail!
Não o sei o que têm estes
ingleses que me dão sempre vontade de ouvir mais de seu sotaque
impecável. Até hoje, não mudo : continuo a correr para um bom
filme inglês bem mais rápido do que o faço para os de outra
nacionalidade. É o incrível esnobismo da pronúncia o que mais me
atrai.
Desde de meu curso de inglês da
Cultura Inglesa, me maravilho com o idioma na boca dos
britânicos, como Mr. Paige, meu inesquecível professor. Depois,
na universidade o curso de poesia me abalou de tal forma que
jamais deixei de admirar o povo inglês, não importa quantas
colônias tivesse e quantos nelas sonhassem com a liberdade. Era
gente escolhida, sem dúvida, os tais selected few, tão
badalados em meus primeiros tempos de metida à intelectual
brasileira. Que classe, Senhor!
A aristocracia existe em outros
países, bem sei, mas é na Inglaterra que sua expressão é mais
forte porque vem ao lado do esnobismo do sotaque, mais do que da
pose de seus representantes. A rainha Elizabeth, se não abrisse
a boca, seria uma senhora qualquer, com manias estranhas, como
a caça, por exemplo. Nada de tão elegante assim. Mas quando o
filme A Raínha foi anunciado, corrí ao cinema para vê-lo,
impelida não pelo desejo de louvar Lady Dy, mas para me dar o
prazer de duas horas em meio à corte de sotaque especial.
Portanto, o enredo sobre a
gagueira do rei George VI era imperdível. Assistir a duas horas
ou mais de gente que fala a língua de meu sonhos, gago ou não,
era imperioso para uma fã de longa data. Juntar o maravilhoso
ator Colin Firth era demais. Subi as escadas em leveza de garça,
esquecida de que meus joelhos já não são lá muito elásticos.
Sentei em meio ao gelo do ar condicionado do cinema Leblon e,
junto com pequena multidão de aficcionados, me sentí em Londres,
igual àquela vez em que usava o mesmo casaco preto , as mesma
botas e suéteres para enfrentar o frio primaveril da capital da
Inglaterra. Agora, como antes, sem dar bola para o calor de
quarenta graus do meu mundo exterior. Afinal, era Your
Royal Majesty que me esperava de braços abertos.
Tudo perfeito: o talento e a
beleza de Colin Firth, engalanado ou simplesmente de chapéu de
coco e sobretudo ou mesmo de terno impecável me estonteava, a
graça de sua esposa que viria a ser aquela rainha-mãe que tanto
conheci, a atriz sempre correta, Helena Bonham Carter e a
perfeição do sotaque do “treinador de fala”, o excelente
Geoffrey Rush garantiram o filme de um diretor que eu mal
conhecia na minha burrice cinematográfica atual. É bom, o
danado, assim como a trilha sonora, o roteiro e tudo mais: um
grande filme.
Talvez não ganhe o Oscar o rei
gago mais lindo do mundo porque há outros atores excelentes na
disputa. Mas com o mesma classe, a mesma beleza de atitude,
sobretudo quando grita a plenos pulmões I have a voice ou
no perfeito discurso final, por certo, não haverá.
Viva a famosa classe (
aplomb) dos britânicos! O mundo americanizado precisa
dela e como!
. Maria Lindgren |