|
Não
se falou em Cristo, nem ninguém se vestiu de Papai Noel para
fingir o que deveria viver apenas na imaginação das crianças Não
se cantaram cânticos religiosos, nem se exaltou nenhuma
divindade em particular.
Mas o Natal estava ali, muito presente. Nas guirlandas
de flores de papel crepom verde e vermelho, no rosto esfuziante
da diretora e das professoras, no olhar excitado das crianças de
todos os credos, de todas as tonalidades de pele.
Chegamos a tempo de ver a dança das mais velhas, do
último ano, da quarta série. Magras, gordas, roliças, altas,
baixas, vestiam a camisola rosa claro, bailarinas em seu melhor
tchutchu. Em lugar das sapatilhas, sandalinhas de plástico em
diferentes cores, desde o preto das grandes ocasiões, ao branco
dos dias ensolarados. Nos cabelos soltos ou presos uma flor
repolhuda do mesmo tom da roupa, dava o tom espanhol ao rock
suave, do tempo da Jovem Guarda. Coreografia estudada com afinco
por alunas e professora de dança, passos no ritmo certo e,
sobretudo, sorriso nos lábios de batom vermelho bastavam para
encantar a platéia sentada ao chão, de chapeuzinho verde vivo –
as crianças menores – e as mães em cadeiras ao fundo, em seu
melhor vestido de festa, junto aos irmãos trajados quase a
rigor. Trajes autênticas imitações das grifes do Leblon, bairro
eclético onde se encontra esta escola pública aberta a todos.
Viva o Leblon da mistura!
E nós, do Coral do Colégio Santo Agostinho, também do
Leblon e igualmente aberto, de blusas vermelhas e calças jeans,
nosso uniforme especialmente dedicado ao dia. O “Coral das
Coroas”, conforme expliquei à menina que sorriu amplo para mim,
lá de seu cantinho no chão. Sentadas em cadeiras a nós
destinadas, éramos um grupo solene, compenetrado de sua função
de introduzir o Natal bem no final da festa de encerramento do
ano letivo. Noite azul. Sem igual, Deus nos dê um feliz
Natal...
- E
o maestro que não chega, minha gente!
-
Está preso no trânsito da Avenida Maracanã, coitado.Tá horrível
com a chuva.
-
Sem maestro, quem vai nos conduzir?
-
Ué, nós mesmos.
A
aflição aliada à emoção me deixou de mãos geladas. Salvou-me a
menina de seis anos que quis tirar uma foto entre mim e a
companheira do meu lado. A mãe sacou duas para se assegurar do
sucesso. Quase chorei.
Quase chorei em vários momentos: logo à entrada do grande pátio
ao me lembrar de minha escola perto do Morro da Mangueira com
suas festas de arromba, sob a batuta da diretora, terna
generala; quase chorei ao perceber o quanto me fazem falta os
meus e os outros aluninhos; ao ouvir o discurso de despedida da
aluna de olhos marejados e voz tremelicada; quase chorei ao
bater palmas acompanhando o ritmo das crianças; quase chorei ao
nos ver como grupo que leva a sério a missão de cantar...
Maestro à frente, tão nervoso quanto nós, o palco forrado de
vermelho foi pequeno para tanto coro nessa tarde de luz. Fomos
bem.
Desafinamos um pouco, esquecemos uma ou outra palavra das cinco
canções entoadas? Não importa. Tenho certeza de que contribuímos
para o Natal de uma gente que nem sei se terá outras grandes
comemorações.
Que
Natal pode ser melhor que este?
. Maria Lindgren |