Maria Lindgren

Um Natal De Verdade 

Não se falou em Cristo, nem ninguém se vestiu de Papai Noel para fingir o que deveria viver apenas na imaginação das crianças Não se cantaram cânticos religiosos, nem se exaltou nenhuma divindade em particular.

        Mas o Natal estava ali, muito presente. Nas guirlandas de flores de papel crepom verde e vermelho, no rosto esfuziante da diretora e das professoras, no olhar excitado das crianças de todos os credos, de todas as tonalidades de pele.

        Chegamos a tempo de ver a dança das mais velhas, do último ano, da quarta série. Magras, gordas, roliças, altas, baixas, vestiam a camisola rosa claro, bailarinas em seu melhor tchutchu. Em lugar das sapatilhas, sandalinhas de plástico em diferentes cores, desde o preto das grandes ocasiões, ao branco dos dias ensolarados. Nos cabelos soltos ou presos uma flor repolhuda do mesmo tom da roupa, dava o tom espanhol ao rock suave, do tempo da Jovem Guarda. Coreografia estudada com afinco por alunas e professora de dança, passos no ritmo certo e, sobretudo, sorriso nos lábios de batom vermelho bastavam para encantar a platéia sentada ao chão, de chapeuzinho verde vivo – as crianças menores – e as mães em cadeiras ao fundo, em seu melhor vestido de festa, junto aos irmãos trajados quase a rigor. Trajes autênticas imitações das grifes do Leblon, bairro eclético onde se encontra esta escola pública aberta a todos. Viva o Leblon da mistura!

        E nós, do Coral do Colégio Santo Agostinho, também do Leblon e igualmente aberto, de blusas vermelhas e calças jeans, nosso uniforme especialmente dedicado ao dia. O “Coral das Coroas”, conforme expliquei à menina que sorriu amplo para mim, lá de seu cantinho no chão. Sentadas em cadeiras a nós destinadas, éramos um grupo solene, compenetrado de sua função de introduzir o Natal bem no final da festa de encerramento do ano letivo. Noite azul. Sem igual, Deus nos dê um feliz Natal...

- E o maestro que não chega, minha gente!

- Está preso no trânsito da Avenida Maracanã, coitado.Tá horrível com a chuva.

- Sem maestro, quem vai nos conduzir?

- Ué, nós mesmos.

A aflição aliada à emoção me deixou de mãos geladas. Salvou-me a menina de seis anos que quis tirar uma foto entre mim e a companheira do meu lado. A mãe sacou duas para se assegurar do sucesso. Quase chorei.

Quase chorei em vários momentos: logo à entrada do grande pátio ao me lembrar de minha escola perto do Morro da Mangueira com suas festas de arromba, sob a batuta da diretora, terna generala; quase chorei ao perceber o quanto me fazem falta os meus e os outros aluninhos; ao ouvir o discurso de despedida da aluna de olhos marejados e voz tremelicada; quase chorei ao bater palmas acompanhando o ritmo das crianças; quase chorei ao nos ver como grupo que leva a sério a missão de cantar...

Maestro à frente, tão nervoso quanto nós, o palco forrado de vermelho foi pequeno para tanto coro nessa tarde de luz. Fomos bem.

Desafinamos um pouco, esquecemos uma ou outra palavra das cinco canções entoadas? Não importa. Tenho certeza de que contribuímos para o Natal de uma gente que nem sei se terá outras grandes comemorações.

Que Natal pode ser melhor que este?

. Maria Lindgren

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