Maria Lindgren

Um Olhar, Uma Esperança

Naquele dia, a catarata, sorrateira porque vem devagar e sempre para acabar com a clareza do que se olha, insiste em invadir meus dois olhos tão queridos.  Prestimosos olhos de escrever, ler, enxergar as paisagens, nesta ordem.

O dia amanhece mais turvo do que nunca e eu  penso na depressão de quem vai fazer muitos anos em março e contar outros tantos para trás, na mais absoluta tristeza.

Abri a janela de meu quarto, na esperança de clarear meu rosto ao espelho, com risco de acordar meu pobre marido em seu soninho da manhã. Qual o quê! Não percebo o aparelho nos dentes de cima. Escovo com vontade o aparelho e só então acordo para o fato de que não são os dentes ao vivo. Faço tudo outra vez, que chateação

No café da manhã,. me toco que a torrada está escura demais, assim como queijo branco e as demais iguarias de dieta, que ingiro com a parcimônia de que não quer deixar sobrar banha em assento nenhum.

Ligo o rádio porque o botão é facílimo de ver e apertar. Nem penso em CD, operação bem mais complexa. Ao pegar o jornal, novo impacto: nem com óculos de ver perto enxergo muito além das manchetes e dos títulos. Faço um enorme esforço para me concentrar nas notícias e nos artigos. Parece que a inteligência atrofia com a perda da visão: difícil entender as leituras para quem vê nublado.

Penso nos cegos do mundo que, coitados, têm que ler em Braille, uma linguagem, para mim, absolutamente hermética. Uma trabalheira. Além da dificuldade de andar pela rua pedregosa do Rio de Janeiro, coisa que percebo melhor pós catarata deflagrada.

Procuro o oftalmologista, mas o diagnóstico não me suaviza as intempéries da visão opaca. Pelo contrário, o medo da cirurgia me provoca torturante dor no pescoço e nas costas, deixando-me lesa e tesa por vários dias.

Enfim, empino o peito, às custas de muito perguntar aos operados de sucesso:

-         Foi tudo bem?

-         Não podia ser melhor. Não senti nada; estou enxergando que é uma beleza!

-   Catarata é sopa – afirma o médico.

Com minha sogra na cabeça, senhora de idade  que saiu saltitante da operação de poucos minutos, sinto-me de repente um bombeiro,  prestes a pular no fogaréu.

Dias depois, adentro a clínica oftalmológica de boa aparência e sou amavelmente recebida, com aquele frasório de quem fala com velho, cheia de –inhos e agrados.

-         Pode ficar sentadinha aí, que quando chegar sua vez eu chamo, tá, querida?

Pego uma revista de frivolidades e tento ler as letras miúdas, para me certificar, mais uma vez, da necessidade da cutucação em meu olho, com acréscimo de implante de objeto estranho, sabe lá o que é isso?

Morro de frio, no ar condicionado que não respeita inverno de verdade, raro na cidade do Rio de Janeiro. Meu marido, então, congela. Agarro-me a seu corpo e lá ficamos duas boas horas qual enamorados de pouco, ouvindo o cantar  estomacal, por fome do jejum imposto por médico ou por solidariedade.

Finalmente, a moça me  pega pelo braço, como se eu fosse uma anciã, e me leva para o elevador, em passo miúdo e lento,  até o segundo andar. Lá, passa a pasta para outra, uma mulher de meia-idade, com jeito de enfermeira, que me diz:

-         Um minutinho e já lhe atendo.

Quinze minutos depois, perna bamba de fome, dor no pescoço de medo, ela me entrega um traje moderníssimo, de fazer inveja à Rio Fashion Week: uma calça largona e uma blusa enorme,  ambas de tecido impermeável. Com a touquinha na cabeça, fico irresistível.

Estendo-me ao lado de uma das cinco senhoras, deitadas em espreguiçadeira, à meia-luz, também à espera. Todas sem sapato, com uma estranha imitação no pé, estiradas e de olhos fechados. Um único homem, por que será? Aos poucos, fecho os olhos também, mas sou interrompida por um colírio que quase me esfola  de tanto arder. Abro a muito custo o olho lacrimoso e  vejo que umas duas pacientes lá se foram com a enfermeira.

-         Agora é fácil: são só três. Vai num instante. Ânimo, Maria!

É quando vejo outras duas senhoras entrarem, deitarem e passarem a minha frente.

Nem dá tempo de perguntar em que loja uma delas comprou uma bela bolsa de couro escuro e elas vão saindo. Pergunto as horas e percebo que estou há mais de quatro horas na mesma cadeira. Fico irritada e exclamo:

-         Alguém tem que conversar comigo! A fome é muita, gente. Não aguento mais!

Percebo que é noite porque mudaram a assistente: noite e dia são iguais na sala hermeticamente fechada. Pelo menos, bato um papinho legal com a nova atendente, mais jovem e faladeira, graças a Deus. Em segundos, exponho-lhe minha vida com detalhes e ela, a sua. Quase lhe proponho um chá bem quente com torradas, para disfarçar o frio do ar ar condicionado.

Finalmente, me conduzem trôpega a uma espécie de ante-sala de vários compartimentos, separados por cortina,  como fazem os hospitais norte-americanos. Nada de quarto particular.

Um senhor se aproxima. Pergunto-lhe meio p da vida:

- Por que sou a última, doutor? E ele: - A senhora teve hepatite em criança e é perigoso para as outras pacientes.

Fico boquiaberta com o poder de uma hepatite tratada com homeo patia, por minha mãe e seu médico de estimação.

O homem cata minha veia, certifica-se de que no braço não existe nada azul, além de um pequeno caroço sem cor, nas dobras. Coisa de muito tempo e de repetidas espetadelas. Ouço um Chi, tenho que pegar a da mão; arde um pouco.

 A essa altura, só penso em lautos jantares, sem nenhuma salada verde, cheio de carne vermelha, se possível, de porco gordo, acompanhada de vinho, sobremesa ultradoce, de preferência Toucinho do Céu bem português, e vinho do Porto ou outro licor açucarado.

Conduzem-me pre-operatória a outro cubículo, onde paro de enxergar de vez. Sinto a cabeça presa de tal jeito que nem dá para respirar fundo, que mexe. De repente, começo a ver uma especie de luz esmaecida e móvel, no olho-vítima. Nenhuma dor ou aflição, tranquilizada que estou por calmante potente.

Múmia sem nenhum tipo de sentimento,  a voz do cirurgião: - Pronto, acabou!

Em casa, olho tapado por quase dois dias, tento dormir do lado contrário, por azar,  o lado que mais gosto. Tenho pesadelos dos mais cabeludos por duas noites, o que, por certo, será matéria para a próxima sessão de análise. Vai é sair coisa dali.

Dia seguinte à cirurgia, enxergo o que não queria ver,  no espelhão do banheiro: manchas de sangue pisado embaixo do olho operado. Fico muito louca da vida e nem valorizo o fiatlux maravilhoso das coisas à minha volta.  Pura vaidade, inútil vaidade. Não há nada que esconda as tais manchas, nem maquiagem grossa. Levo dias e dias tentando não piorar minha situação crítica, sem me olhar demais. Rezo para que, até domingo, eu possa estar menos medonha  e dar os parabéns à minha sogra, pelo aniversário e pelo êxito das operaçoes duplas de catarata.

 Agora, resta-me esperar pela alta, fazer uma série de exercícios respiratório, em acedemia de distensionar, muita psico e fisioterapia, e nova força para encarar mais uma, no olho direito.

Maria Lindgren 


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