Foi tudo bem?
-
Não podia ser melhor. Não senti nada; estou enxergando que é
uma beleza!
- Catarata é
sopa – afirma o médico.
Com minha sogra na cabeça, senhora de idade que saiu
saltitante da operação de poucos minutos, sinto-me de repente
um bombeiro, prestes a pular no fogaréu.
Dias depois, adentro a clínica oftalmológica de boa aparência
e sou amavelmente recebida, com aquele frasório de quem fala
com velho, cheia de –inhos e agrados.
-
Pode ficar sentadinha aí, que quando chegar sua vez eu chamo,
tá, querida?
Pego uma revista de frivolidades e tento ler as letras miúdas,
para me certificar, mais uma vez, da necessidade da cutucação
em meu olho, com acréscimo de implante de objeto estranho,
sabe lá o que é isso?
Morro de frio, no ar
condicionado que não respeita inverno de verdade, raro na
cidade do Rio de Janeiro. Meu marido, então, congela.
Agarro-me a seu corpo e lá ficamos duas boas horas qual
enamorados de pouco, ouvindo o cantar estomacal, por fome do
jejum imposto por médico ou por solidariedade.
Finalmente, a moça me pega pelo braço, como se eu fosse uma
anciã, e me leva para o elevador, em passo miúdo e lento,
até o segundo andar. Lá, passa a pasta para outra, uma
mulher de meia-idade, com jeito de enfermeira, que me diz:
-
Um minutinho e já lhe atendo.
Quinze minutos depois, perna
bamba de fome, dor no pescoço de medo, ela me entrega um traje
moderníssimo, de fazer inveja à Rio Fashion Week: uma calça
largona e uma blusa enorme, ambas de tecido impermeável. Com
a touquinha na cabeça, fico irresistível.
Estendo-me ao lado de uma das cinco senhoras, deitadas em
espreguiçadeira, à meia-luz, também à espera. Todas sem
sapato, com uma estranha imitação no pé, estiradas e de olhos
fechados. Um único homem, por que será? Aos poucos, fecho os
olhos também, mas sou interrompida por um colírio que quase me
esfola de tanto arder. Abro a muito custo o olho lacrimoso e
vejo que umas duas pacientes lá se foram com a
enfermeira.
-
Agora é fácil: são só três. Vai num instante. Ânimo, Maria!
É
quando vejo outras duas senhoras entrarem, deitarem e passarem
a minha frente.
Nem dá tempo de perguntar em que loja uma delas comprou uma
bela bolsa de couro escuro e elas vão saindo. Pergunto as
horas e percebo que estou há mais de quatro horas na mesma
cadeira. Fico irritada e exclamo:
-
Alguém tem que conversar comigo! A fome é muita, gente. Não
aguento mais!
Percebo que é noite porque mudaram a assistente: noite e dia
são iguais na sala hermeticamente fechada. Pelo menos, bato um
papinho legal com a nova atendente, mais jovem e faladeira,
graças a Deus. Em segundos, exponho-lhe minha vida com
detalhes e ela, a sua. Quase lhe proponho um chá bem quente
com torradas, para disfarçar o frio do ar ar condicionado.
Finalmente, me conduzem trôpega
a uma espécie de ante-sala de vários compartimentos, separados
por cortina, como fazem os hospitais norte-americanos. Nada
de quarto particular.
Um
senhor se aproxima. Pergunto-lhe meio p da vida:
-
Por que sou a última, doutor? E ele: - A senhora teve hepatite
em criança e é perigoso para as outras pacientes.
Fico boquiaberta com o poder de uma hepatite tratada com homeo
patia, por minha mãe e seu médico de estimação.
O
homem cata minha veia, certifica-se de que no braço não existe
nada azul, além de um pequeno caroço sem cor, nas dobras.
Coisa de muito tempo e de repetidas espetadelas. Ouço um Chi,
tenho que pegar a da mão; arde um pouco.
A essa altura, só penso em
lautos jantares, sem nenhuma salada verde, cheio de carne
vermelha, se possível, de porco gordo, acompanhada de vinho,
sobremesa ultradoce, de preferência Toucinho do Céu bem
português, e vinho do Porto ou outro licor açucarado.
Conduzem-me pre-operatória a outro cubículo, onde paro de
enxergar de vez. Sinto a cabeça presa de tal jeito que nem dá
para respirar fundo, que mexe. De repente, começo a ver uma
especie de luz esmaecida e móvel, no olho-vítima. Nenhuma dor
ou aflição, tranquilizada que estou por calmante potente.
Múmia sem nenhum tipo de
sentimento, a voz do cirurgião: - Pronto, acabou!
Em casa, olho tapado por quase
dois dias, tento dormir do lado contrário, por azar, o lado
que mais gosto. Tenho pesadelos dos mais cabeludos por duas
noites, o que, por certo, será matéria para a próxima sessão
de análise. Vai é sair coisa dali.
Dia seguinte à cirurgia, enxergo o que não queria ver, no
espelhão do banheiro: manchas de sangue pisado embaixo do olho
operado. Fico muito louca da vida e nem valorizo o
fiatlux
maravilhoso das coisas à minha volta. Pura vaidade, inútil
vaidade. Não há nada que esconda as tais manchas, nem
maquiagem grossa. Levo dias e dias tentando não piorar minha
situação crítica, sem me olhar demais. Rezo para que, até
domingo, eu possa estar menos medonha e dar os
parabéns à minha sogra, pelo aniversário e pelo êxito das
operaçoes duplas de catarata.
Agora, resta-me esperar pela
alta, fazer uma série de exercícios respiratório, em acedemia
de distensionar, muita psico e fisioterapia, e nova força para
encarar mais uma, no olho direito.
Maria
Lindgren