Acabo de
abrir o Caderno Idéias, do JB de sábado, 04 de abril de 2009 e
me deparo com o texto fascinante da primeira página,
Modernidades, que nos fala, principalmente, do modernismo
de Baudelaire, entre vários outros autores e artistas, a
propósito do lançamento de um livro de peso pesado de Peter
Gay, Modernismo: o fascínio da heresia. Na segunda
parte da matéria, intitulada Da poesia de Baudelaire às
poéticas do sempre novo, a afirmativa de Baudelaire de
que " é preciso ser um homem do seu tempo" me deixa
aturdida. Afinal, o que é ser um homem/ uma mulher do seu
tempo?
Para o
jornalista, Alexandre Werneck, em relação ao "poeta maldito",
a resposta está em "ter um olhar digno herdeiro do mundo
que circulava em torno dele..." Aí, complica-se ainda
mais minha cabeça, com mil indagações que não sei responder.
Declaro algumas.
Em primeiro
lugar, qual é este nosso/meu tempo? É meu tempo de jovem que
vai dos quinze aos trinta anos mais ou menos? É o tempo da
maturidade, dos trinta aos sessenta? É o tempo da velhice, dos
sessenta/setenta em diante? Seria o de uma mulher na Terceira
Idade ou, a esta altura, se teria perdido a minha chance de
acompanhá-lo em seu passo de relâmpago?
Considerando o hoje como "nosso tempo", onde fico eu, mera
escritora, perplexa diante do mundo atual, em alguns aspectos,
sua admiradora veemente, em outros?
Proveniente
de uma época repleta de tabus e preconceitos, por exemplo, eu
poderia afirmar que meu tempo de muito jovem era um horror. Se
não, vejamos: minha família não aceitava como igual gente "de
cor", disfarce da pele preta, nem que tivesse "alma branca".
No máximo, vivia a convivência com mulatos, em geral, como
serviçais e, lá por uma extravagância, depois de muita
insistência da parte escurecida e escarnecida, como amigos,
ufa!
De preto,
só me lembro de um namorado da época transgressora de meus
quatorze anos. Durou "o tempo de uma flor" porque ninguém o
aceitava, nem mesmo minha irmã e meus colegas, que dirá meu
pais. E olhe que o rapaz era super bem cuidado, limpo, bonito
- feições de branco, claro - e educadíssimo, um gentleman,
que jamais avançou o sinal para ir além de um beijo leve no i
de meus lábios, qual em A Ceia dos Cardeais, de Julio Dantas.
E todos os
mais velhos da família seguiram assim até à morte, que eu me
lembre. Aliás, nem se falava ainda em Direitos Humanos,
escravidão brasileira prolongada, cotas universitárias
etc.etc. Éramos religiosos, católicos apostólicos romanos, não
fazíamos mal direto a ninguém e isto bastava. Em meu colégio
de freiras espanholas, só de mulheres, nem uma negra sequer,
nem freira nem aluna.
Eu, que
descendo de baianos, suecos e portugueses, só mencionava meus
maiores da Bahia porque adorava as indumentárias das baianas
do Carnaval. E, na moita, bem que achava que preto tinha um
budum danado, apesar de saber que os europeus não gostavam
nada de banho, portanto...Agora, temos o negro Barack Obama na
presidência do maior país do mundo, pelo menos, até ontem.
Colégio de
meninas. Nem
se pensava em colégio misto para garotas de fino trato, ainda
que logo adiante do meu houvesse um, no bairro. Mas, não era
da classe mais alta.
Direito das
mulheres nem se discutia. O assunto despontou-nos na
adolescência, trazido por minha ousada irmã, com o livro O
segundo sexo, de Simone de Beauvoir. Os pais só admitiam
a profissão de professora para quem não casasse cedo e
cismasse de estudar. Direito iguais vieram-me à cabeça, quando
casei com um homem avançadíssimo para a época, mas que não
gostou nada de eu querer cursar uma faculdade. Resultado: não
me formei cedo e atrasei minha carreira profissional.
Hoje, à
exceção do retrocesso absurdo dos fundamentalistas islâmicos,
quem ousa falar que o homem é superior à mulher? Apesar dos
índices de igualdade de direitos no trabalho ainda estarem
defasados e ser mulher ainda tem conseqüências tristes, como
maus tratos, estupro...
O tabu do
homossexualismo era de tal monta na minha infância e juventude
que um tio meu claramente gay jamais confessou a minha mãe seu
" enorme pecado", embora levasse um jeitinho disfarçado.
Travesti, então, era a escória das escórias, até que a famosa
Rogéria começou a fazer sucesso no Rio de Janeiro e no resto
do Brasil. E a Banda de Ipanema escancarou-lhes as portas de
vez no Carnaval.
Agora, é
quase completamente natural um homem ou uma mulher beijarem na
boca seus iguais de sexo ou gênero. Pelo menos, no cinema. Ou
em situações ousadas. Sábado à noite vi duas moçoilas se
beijando à frente de um restaurante chinês em Copacabana, sem
espanto da platéia. Não é um grande alívio, um belo progresso,
apesar de estar escuro?
E aí vocês
vêm falar de guerras que pipocam por toda parte do mundo,
sobretudo lá nos países do Oriente Médio, entre as "tribos"
africanas... È verdade. Mas, a história do homem é uma
carnificina só. Lembro-me de ter ficado pasma ao estudar
História e saber que existiu uma famosa Guerra dos Cem Anos.
Quando foi e o que foi? Nos séculos XIV e XV entre Inglaterra
e França, dois países "civilizados", por disputa
territorial. Alguém aí se lembrou da guerra "eterna" entre
Israel e Palestina, nos tempos atuais?
A Guerra do
Tráfico, esta, aparentemente, aumentou muito. "Bala perdida"
não fazia parte de nosso vocabulário cotidiano até alguns
anos. A polícia não interferia tanto e nem existia o BOPE -
vide o filme Tropa de Elite, retrato de um Rio de Janeiro
perdido de guerra...
A
violência, ah, a violência! No meu tempo de criança de
Niterói, ninguém abordava assuntos de violência, favela,
tráfico de drogas... Pobre não se via. Piorou tudo com a
transformação de cidades em metrópoles ou ficou tudo às
claras, depois do advento da televisão? Segundo um motorista
de Copacabana, nos anos 50 do século XX a "princezinha do mar"
jogava cadáveres assassinados no asfalto, pelo menos, nos fins
de semana.
E tortura,
minha gente, é coisa velha: existe desde tempos imemoriais. Os
Anos de Chumbo, da ditadura de 1964, estão sendo
constantemente rememorados para que "tortura, nunca mais" não
seja apenas o nome de um grupo de gente de boa fé, o que é
ótimo.
Crimes
passionais, idem - há mais de vinte anos, tive um aluno cuja
mãe foi morta a tiros pelo pai, ao sair de um restaurante
elegante do Leblon. Assim, a frio, de dentro do carro, o homem
liquidou a ex-mulher, por ciúmes tardios.
Matança de
pessoas no interior do Brasil, por causa do jogo do poder,
havia e ainda há aos montes. Ou não existiriam os conhecidos
capangas dos fazendeiros e de muito político brasileiro que
estampa o rosto na tela da tevê.
Um item
positivo que não pode ser esquecido e que muito nos tem
ajudado no nosso tempo é o avanço da medicina, além da
tecnologia. Não se morre mais de gripe, tuberculose. Como foi
com Manuel Bandeira, pobre poeta. Meu pai teve bacilo de Hoch
e morreu de volvo, muitos anos depois. Em compensação, ainda
se morre de câncer por falta de incremento à pesquisa. E. às
vezes, de dengue hemorrágico, uma bobeira.
E, para
encurtar minhas considerações, habemus computador
para nos ajudar a pensar em nossas dúvidas e indagações. Aí,
então. Grito a plenos pulmões: Viva o meu/ nosso tempo !!!!!
Maria Lindgren