Maria Lindgren

 Venite adoremus -  Retrato De Um Natal

Converso comigo mesma e me pego quase em lágrimas a desejar Feliz Natal a muita gente. Uso o telefone.

Começo pelos médicos do corpo e da alma: o cirurgião exímio, que me devolveu a face esquerda e me colocou o olhos no lugar certo (e não foi em cirurgia plástica); o clínico novo, que me examina com cuidados de médico de outras eras; o psiquiatra, que tira meus remédios e me convence de que não preciso dele, mesmo quando lhe conto de meus ataques de fúria e desespero; o especialista da coluna vertebral, meio seco, porém preciso: tirou-me o desnecessário e aplicou-me minúscula prótese, conseguindo o milagre de me fazer andar sem dor; o extraordinário intérprete de ressonâncias magnéticas e outras firulas tecnológicas da radiologia atual; o otorrino de alta classe, expert em males do ouvido até demais: às vezes, ouvir muito atrapalha.

Do outro lado do fio, vozes babadas de alegria inconfessada. Desejam-me o que podem me oferecer de melhor: saúde. E eu, voz entrecortada, dispenso meu palavrório costumeiro.

Agora, é a vez dos trabalhadores do prédio, logo eu, rabugenta por índole, eterna reclamante de tudo e de todos: do administrador, que não aprendeu bem seu métier porque nunca lhe deram chance de estudar mais; do factótum do prédio, encarregado de sanar as deteriorações precoces da construção sempre defeituosa; dos porteiros chiques, de paletó e gravata, coitados, em pleno verão carioca; dos vigilantes, também de terno, em pé o dia inteiro, a olhar para o nada, vulneráveis a qualquer bandidote do bairro; das faxineiras, limpadoras oficiais do chão imaculado do play, o que me fez escorregar várias vezes, até cair esparramada um belo dia, não por culpa delas, mas por falta de atenção e corrimão; das arrumadeiras uniformizadas de touca e avental, jamais devidamente ensinadas para o ofício. E, por último, o olheiro da piscina do apart, um bonito rapazola, ávido leitor de todos os bons autores comprados por mim nos sebos, que não consegue fazer um pré-vestibular por falta de grana.

E os amigos? Noto uma carta bem colada, com selo ecológico, ao lado de meu computador, e pasmo: ainda há gente que usa o correio, em lugar dos emails. Não resisto e abro o cartão de lírios em fundo verde: “ Neste Natal, pactuemos com o que há de sagrado e saudável em nós”. Concordo com o pacto e choro.

        Os amigos e amigas mais modernos, nem por isso menos líricos, recebem mensagens pelo meio eletrônico eficaz e rápido. Com a permissão do senhor computador, é claro. É minha prima, irmã de alma, moradora de Niterói, lugar de repente tão longínquo para os que moram no Rio; são os ex - companheiros de trabalho e farras de nunca mais; são meus cunhados e sobrinhos lá do Planalto Central; é o professorado da PUC de meus tempos de mestranda; são as amigas velhas da época em que Natal era nascimento de Jesus Cristo mesmo; são meus primos do tempo de jovem, católicos de grande fervor a rezarem por nós da família; são as amigas novas: a escritora de Curitiba e a tradutora da Sérvia; é, finalmente, a gente maravilhosa que me acompanha pela internet, apoiando-me, tocando-me a prosseguir quando vou titubeando.

Aos que moram no exterior, minhas furtivas lágrimas de ópera e o desejo do calor dos braços à volta de minha cintura, que não virá tão cedo. E, é claro, em abraço de pele e músculos, marido, filhos, irmã, sogra... o que restou da família bem próxima.

Restam algumas menções importantes: os que se foram para sempre: pai, mãe, amigos, amigas... descanso na Pousada Aconchego de Deus; os brasileiros honestos, pobres, moderados ou mesmo  ricos, um Natal sem grande e absurdas diferenças, com o berço de palha do Recém-nascido a nos dar o exemplo.

Para o resto do mundo em guerras eternas, Paz de Cristo de uma vez por todas!

E para a Pátria minha, meu Brasil brasileiro, como não me canso de o chamar, um Menino Jesus atento ao que se faz urgente: progresso para todos!

        E tem gente que ainda pergunta : - Pra quê serve o Natal?

Maria Lindgren

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