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Converso comigo mesma e me pego quase em lágrimas a desejar
Feliz Natal a muita gente. Uso o telefone.
Começo pelos médicos do corpo e da alma: o cirurgião exímio, que
me devolveu a face esquerda e me colocou o olhos no lugar certo
(e não foi em cirurgia plástica); o clínico novo, que me examina
com cuidados de médico de outras eras; o psiquiatra, que tira
meus remédios e me convence de que não preciso dele, mesmo
quando lhe conto de meus ataques de fúria e desespero; o
especialista da coluna vertebral, meio seco, porém preciso:
tirou-me o desnecessário e aplicou-me minúscula prótese,
conseguindo o milagre de me fazer andar sem dor; o
extraordinário intérprete de ressonâncias magnéticas e outras
firulas tecnológicas da radiologia atual; o otorrino de alta
classe, expert em males do ouvido até demais: às vezes,
ouvir muito atrapalha.
Do
outro lado do fio, vozes babadas de alegria inconfessada.
Desejam-me o que podem me oferecer de melhor: saúde. E eu, voz
entrecortada, dispenso meu palavrório costumeiro.
Agora, é a vez dos trabalhadores do prédio, logo eu, rabugenta
por índole, eterna reclamante de tudo e de todos: do
administrador, que não aprendeu bem seu métier porque
nunca lhe deram chance de estudar mais; do factótum do
prédio, encarregado de sanar as deteriorações precoces da
construção sempre defeituosa; dos porteiros chiques, de paletó e
gravata, coitados, em pleno verão carioca; dos vigilantes,
também de terno, em pé o dia inteiro, a olhar para o nada,
vulneráveis a qualquer bandidote do bairro; das faxineiras,
limpadoras oficiais do chão imaculado do play, o que me
fez escorregar várias vezes, até cair esparramada um belo dia,
não por culpa delas, mas por falta de atenção e corrimão; das
arrumadeiras uniformizadas de touca e avental, jamais
devidamente ensinadas para o ofício. E, por último, o olheiro da
piscina do apart, um bonito rapazola, ávido leitor de todos os
bons autores comprados por mim nos sebos, que não consegue fazer
um pré-vestibular por falta de grana.
E
os amigos? Noto uma carta bem colada, com selo ecológico, ao
lado de meu computador, e pasmo: ainda há gente que usa o
correio, em lugar dos emails. Não resisto e abro o cartão de
lírios em fundo verde: “ Neste Natal, pactuemos com o que há
de sagrado e saudável em nós”. Concordo com o pacto e choro.
Os amigos e amigas mais modernos, nem por isso menos
líricos, recebem mensagens pelo meio eletrônico eficaz e rápido.
Com a permissão do senhor computador, é claro. É minha prima,
irmã de alma, moradora de Niterói, lugar de repente tão
longínquo para os que moram no Rio; são os ex - companheiros de
trabalho e farras de nunca mais; são meus cunhados e sobrinhos
lá do Planalto Central; é o professorado da PUC de meus tempos
de mestranda; são as amigas velhas da época em que Natal era
nascimento de Jesus Cristo mesmo; são meus primos do tempo de
jovem, católicos de grande fervor a rezarem por nós da família;
são as amigas novas: a escritora de Curitiba e a tradutora da
Sérvia; é, finalmente, a gente maravilhosa que me acompanha pela
internet, apoiando-me, tocando-me a prosseguir quando vou
titubeando.
Aos
que moram no exterior, minhas furtivas lágrimas de ópera
e o desejo do calor dos braços à volta de minha cintura, que não
virá tão cedo. E, é claro, em abraço de pele e músculos, marido,
filhos, irmã, sogra... o que restou da família bem próxima.
Restam algumas menções importantes: os que se foram para sempre:
pai, mãe, amigos, amigas... descanso na Pousada Aconchego de
Deus; os brasileiros honestos, pobres, moderados ou mesmo
ricos, um Natal sem grande e absurdas diferenças, com o berço de
palha do Recém-nascido a nos dar o exemplo.
Para o resto do mundo em guerras eternas, Paz de Cristo de uma
vez por todas!
E
para a Pátria minha, meu Brasil brasileiro, como
não me canso de o chamar, um Menino Jesus atento ao que se faz
urgente: progresso para todos!
E tem gente que ainda pergunta : - Pra quê serve o
Natal?
Maria
Lindgren |