Maria Lindgren

Verde Está Na Moda Gente

A cada dia que passa, um sintoma a mais de incompreensão de meu corpo aos ditames da natureza. Velhices à parte, eu não era assim, tenho certeza.

Uma reação à secura do clima de um país seco me dá urticária tão braba que o doutor chega a pensar em sarna de cobertor mal limpo, da aeronave superlotada na viagem a Istambul.  De uns tempos para cá, a coceira e a empipocação geral me torturam todas a vezes que um mosquito, do canal nunca limpo de minha vizinhança, um microvampiro, como diz minha filha em seu livro The tiny vampire, me suga o sangue da perna, do braço, de qualquer parte em que o monstrinho delicadamente, trinque os dentes – mato sem dó e sem estaca os gordos de sangue do espelho do meu banheiro. O calor de menopausa eterna me faz sufocar ao contato com plásticos e sintéticos, o que me vale o apelido de natureba. A rinite alérgica recente me faz perder todo e qualquer charme ainda visível a olho sem óculos – nariz fungando sem parar é dose -  por conta da poluição deste ar que mal respiro.

         Sou uma fanzoca da natureza em bruto, ao vivo ou fotografada, pintada, exibida em filmes e documentários...Embora não me arrisque em terra de muitos bichos e prefira a fauna local conhecida, aí incluindo o homem da cidade, os cachorros de raça ou não, os gatos idem, os passarinhos de minha varanda, os pombos da calçada, os macaquinhos das árvores e dos fios elétricos das ruas de meu bairro, as mariposas e borboletas, as cigarras, os grilos, as formigas...

Posso afirmar que acho mais que justa a razão da natureza, ao reagir aos ataques diários de uma guerra mais silenciosa que a dos mosquitos em minha pele. Leio bastante e apreendo um pouco do aquecimento global, por buraco na camada de ozônio, nosso agasalho protetor habitual. Acredito que a água vai faltar feio, que os rios e mares secarão ou transbordarão como, aliás, já começaram, no processo macabro das secas e inundações, de deixar Deus boquiaberto. Vejo com coração aflito a beleza tétrica do derretimento e deslocamento das geleiras. Sinto que o verão quase eterno do local em que vivo e similares escaldará peles futuras, até nos deixar plissados ou, pior, carbonizados, caso se continue a negligenciar  o verde, regalo de Nosso Senhor aos in gratos. Entendo que as margens dos rios, encolhidas ilegalmente na largura pela estupidez ou ganância de empresas, ajudem a tornar mais miseráveis os pobres inundados, das regiões ribeirinhas, sobretudo.

 Tenho certeza de muitas coisas ainda: o lixo polui terra, mar e ar; os agrotóxicos reduzem os miraculosos poderes de verduras e frutas; sem educação para a preservação do meio ambiente e da espécie não haverá vida longa ou, mesmo, breve; mísseis matam, torturam (vide efeitos da bomba atômica até hoje) e intoxicam o próprio ar, a ponto de causar doenças mortíferas, por muitos longos anos; os prédios amontoados, o crescimento desordenado e o trânsito congestionado das cidades agridem o meio-ambiente, nos fazem mais doentes.

Os ruralistas do Congresso não podem estar certos quanto à exigência de um Código Florestal flexibilizado - com meio-ambiente não há meio termo; o futuro de nossos bisnetos ou tetranetos não será nada mole  e não tenho nenhum vacilo: está mais que na hora de mudar de atitude para salvar a Terra. Vamos repetir em coro, com Leonardo Boff:

“ Temos que baixar a Terra da cruz e ressuscitá-la.”

Maria Lindgren

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