A cada dia que passa, um sintoma a mais de incompreensão de
meu corpo aos ditames da natureza. Velhices à parte, eu não
era assim, tenho certeza.
Uma reação à secura do clima de um país seco me dá urticária
tão braba que o doutor chega a pensar em sarna de cobertor mal
limpo, da aeronave superlotada na viagem a Istambul. De uns
tempos para cá, a coceira e a empipocação geral me torturam
todas a vezes que um mosquito, do canal nunca limpo de minha
vizinhança, um microvampiro, como diz minha filha em seu livro
The tiny vampire, me suga o sangue da perna, do
braço, de qualquer parte em que o monstrinho delicadamente,
trinque os dentes – mato sem dó e sem estaca os gordos de
sangue do espelho do meu banheiro. O calor de menopausa eterna
me faz sufocar ao contato com plásticos e sintéticos, o que me
vale o apelido de natureba. A rinite alérgica recente me faz
perder todo e qualquer charme ainda visível a olho sem óculos
– nariz fungando sem parar é dose - por conta da poluição
deste ar que mal respiro.
Sou uma fanzoca da natureza em bruto, ao vivo ou fotografada,
pintada, exibida em filmes e documentários...Embora não
me arrisque em terra de muitos bichos e prefira a fauna local
conhecida, aí incluindo o homem da cidade, os cachorros de
raça ou não, os gatos idem, os passarinhos de minha varanda,
os pombos da calçada, os macaquinhos das árvores e dos fios
elétricos das ruas de meu bairro, as mariposas e borboletas,
as cigarras, os grilos, as formigas...
Posso afirmar que acho mais que justa a razão da natureza, ao
reagir aos ataques diários de uma guerra mais silenciosa que a
dos mosquitos em minha pele. Leio bastante e apreendo um pouco
do aquecimento global, por buraco na camada de ozônio, nosso
agasalho protetor habitual. Acredito que a água vai faltar
feio, que os rios e mares secarão ou transbordarão como,
aliás, já começaram, no processo macabro das secas e
inundações, de deixar Deus boquiaberto. Vejo com coração
aflito a beleza tétrica do derretimento e deslocamento das
geleiras. Sinto que o verão quase eterno do local em que vivo
e similares escaldará peles futuras, até nos deixar plissados
ou, pior, carbonizados, caso se continue a negligenciar o
verde, regalo de Nosso Senhor aos in gratos. Entendo que as
margens dos rios, encolhidas ilegalmente na largura pela
estupidez ou ganância de empresas, ajudem a tornar mais
miseráveis os pobres inundados, das regiões ribeirinhas,
sobretudo.
Tenho certeza de muitas coisas ainda: o lixo polui terra, mar
e ar; os agrotóxicos reduzem os miraculosos poderes de
verduras e frutas; sem educação para a preservação do meio
ambiente e da espécie não haverá vida longa ou, mesmo, breve;
mísseis matam, torturam (vide efeitos da bomba atômica até
hoje) e intoxicam o próprio ar, a ponto de causar doenças
mortíferas, por muitos longos anos; os prédios amontoados, o
crescimento desordenado e o trânsito congestionado das cidades
agridem o meio-ambiente, nos fazem mais doentes.
Os ruralistas do Congresso não podem estar certos quanto à
exigência de um Código Florestal flexibilizado - com
meio-ambiente não há meio termo; o futuro de nossos bisnetos
ou tetranetos não será nada mole e não tenho nenhum vacilo:
está mais que na hora de mudar de atitude para salvar a Terra.
Vamos repetir em coro, com Leonardo Boff:
“ Temos que baixar a Terra da cruz e ressuscitá-la.”
Maria Lindgren