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Baita enxaqueca. Parece ressaca. De quê!? Se
não fui além de meio copo de vinho no Domingo de Páscoa
e hoje é terça-feira?! É como se eu ainda vivesse a
carga-cruz de Cristo. Na cabeça, no rosto, no pescoço...
Encho-me de comprimidos: não resolvem. Fracos
paliativos para uma dor maior porque de dentro, das
entranhas da alma.
Semana Santa de católica não tão convicta assim passa
lenta, dolorosa, mesmo em dia talhado para festejos. Não
consigo dar o ufa acabou das datas de nosso calendário
cruel: do final do Natal, da terça-feira gorda, da
Páscoa! Preciso de mãe a me soprar a ferida e me dizer:
- Pronto, minha filha, passou -, enquanto sopra bem de
leve minha chaga aberta.
Não olho o calendário porque me dói a vista. Rezo para
que tenha sido a última festa obrigatória desse tal de
Cristianismo do qual compartilho em parte, sobressaltada
sempre por mais uma comemoração inexorável.
O tempo do Natal marca a seqüência que vai desembocar no
estuário da Páscoa. São os ritos de passagem, explicados
por Leonardo Boff, um de meus gurus, em belo artigo de
segunda-feira pós-Páscoa. Todos os brasileiros
submetidos, ritualizados, desde o primeiro respirar
Nascer, viver, morrer.”Se repararmos bem, toda a
vida humana possui estrutura pascal”.
Para os humanos, a passagem é trabalhosa. Para um Deus,
não deveria ser. Mas no momento em que Deus se fez homem
não pode escapar: teve que nascer, viver-sofrer e
sofrer-morrer. Com o acréscimo que O difere de todos
nós, míseros humanos: a certeza da ressurreição.
E por que pessoas medianas como nós - sobretudo, nos
dias atuais- sujeitas aos sustos das violências, das
doenças velhas e novas, na mediocridade de uma vida de
poucas cores e festas verdadeiras, temos que penar
também nos dias de decantar Jesus Cristo?!.
No tempo do Natal, o calendário nos força à tortura das
compras e da ousadia consumista, no auge do verão, para,
enfim, selecionados e adquiridos presentinhos e
presentões, acabar no celebrar pagão da ceia natalícia.
Logo depois, reveillon e dose repetida de comilança,
beberragem e calor de bode na pseudo-passagem de ano,
intrometida nas celebrações religiosas, sem grandes
justificativas. Vira-se uma página, dá tudo no mesmo.
Espera-se, logo a seguir, o feriadão de quatro dias, às
vezes cinco, do Carnaval de pseudo-alegria, de excitação
exclusiva para quem pode ir ao Sambódromo ou aos blocos
de rua tão em voga. Aos que não podem, televisão de
consolo, já se sabe. Aos poucos Eleitos do Senhor,
férias fora dos atropelos citadinos ou retiro espiritual
dos mais crentes.
Então, mais quarenta dias. E tome novo feriadão
quadruplicado: Semana Santa. Para cristãos mais
convictos, igreja todos os dias, com contrição,
penitência, dor... para, mais uma vez, festejar-se o
final apoteótico do Domingo de Páscoa, o máximo da
celebração da ressurreição, o máximo de novas festas
forçadas. Mesmo para os que nem falam em Jesus Cristo
esse limitam a comprar ovos de Páscoa.
Este ano de 2007, nem os judeus se livraram: sua Páscoa
coincidiu com a nossa.
Repito, em desabafo: Ufa, acabou! Para retornar igual no
ano que vem, meu Deus!!!!!
Ainda bem que, para dezembro, ainda faltam alguns
meses.
Maria Lindgren
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