Maria Lindgren

 Final Feliz

          Baita enxaqueca. Parece ressaca. De quê!? Se não  fui além de meio copo de vinho no Domingo de Páscoa e hoje é terça-feira?! É como se eu ainda vivesse a carga-cruz de Cristo. Na cabeça, no rosto, no pescoço...

 Encho-me de comprimidos: não resolvem. Fracos paliativos para uma dor maior porque de dentro, das entranhas da alma.

Semana Santa de católica não tão convicta assim passa lenta, dolorosa, mesmo em dia talhado para festejos. Não consigo dar o ufa acabou das datas de nosso calendário cruel: do final do Natal, da terça-feira gorda, da Páscoa! Preciso de mãe a me soprar a ferida e me dizer: - Pronto, minha filha, passou -, enquanto sopra bem de leve minha chaga aberta.

Não olho o calendário porque me dói a vista. Rezo para que tenha sido a última festa obrigatória desse tal de Cristianismo do qual compartilho em parte, sobressaltada sempre por mais uma comemoração inexorável.

O tempo do Natal marca a seqüência que vai desembocar no estuário da Páscoa. São os ritos de passagem, explicados por Leonardo Boff, um de meus gurus, em belo artigo de segunda-feira pós-Páscoa. Todos os brasileiros submetidos, ritualizados, desde o primeiro respirar  Nascer, viver, morrer.”Se repararmos bem, toda a vida humana possui estrutura pascal”.

Para os humanos, a passagem é trabalhosa. Para um Deus, não deveria ser. Mas no momento em que Deus se fez homem não pode escapar: teve que nascer, viver-sofrer e sofrer-morrer. Com o acréscimo que O difere de todos nós, míseros humanos: a certeza da ressurreição.

E por que pessoas medianas como nós - sobretudo, nos dias atuais- sujeitas aos sustos das violências, das doenças velhas e novas, na mediocridade de uma vida de poucas cores e festas verdadeiras, temos que penar também nos dias de decantar Jesus Cristo?!.

No tempo do Natal, o calendário nos força à tortura das compras e da ousadia consumista, no auge do verão, para, enfim, selecionados e adquiridos presentinhos e presentões, acabar no celebrar pagão da ceia natalícia.

Logo depois, reveillon e dose repetida de comilança, beberragem e calor de bode na pseudo-passagem de ano, intrometida nas celebrações religiosas, sem grandes justificativas. Vira-se uma página, dá tudo no mesmo.

Espera-se, logo a seguir, o feriadão de quatro dias, às vezes cinco, do Carnaval de pseudo-alegria, de excitação exclusiva para quem pode ir ao Sambódromo ou aos blocos de rua tão em voga. Aos que não podem, televisão de consolo, já se sabe. Aos poucos Eleitos do Senhor, férias fora dos atropelos citadinos ou retiro espiritual dos mais crentes.

Então, mais quarenta dias. E tome novo feriadão quadruplicado: Semana Santa. Para cristãos mais convictos, igreja todos os dias, com contrição, penitência, dor... para, mais uma vez, festejar-se o final apoteótico do Domingo de Páscoa, o máximo da celebração da ressurreição, o máximo de novas festas forçadas. Mesmo para os que nem falam em Jesus Cristo esse limitam a comprar ovos de Páscoa.

Este ano de 2007, nem os judeus se livraram: sua Páscoa coincidiu com a nossa.

Repito, em desabafo: Ufa, acabou! Para retornar igual no ano que vem, meu Deus!!!!!

Ainda bem que, para dezembro, ainda faltam alguns meses.

Maria Lindgren

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