
Textos em Prosa
Naldo Velho
E você não me percebeu
Já faz algum tempo que da janela do meu quarto eu te observo atentamente. Quando vai chegando a noitinha, as luzes do teu apartamento se acendem e por uma fresta da cortina percebo-te os movimentos. Tu és mulher, ainda não chegada aos trinta, morena, com um corpo delicadamente definido como se por um gênio tivesse sido esculpida, certamente um grande artista, alguém com o dom de retratar a beleza de um ser. Já faz algum tempo que isto acontece e você nunca me percebeu.
Já faz algum tempo que eu sei o teu nome e confesso-te: ele vibra dentro do meu apartamento de uma forma tão intensa, as vezes quase gritado, as vezes sussurrado, assim feito um mantra, como se fosse um hino, repetido tantas vezes, uma elegia a minha loucura, uma ode a dor e ao prazer.
Quantos poemas chorados, solitários orgasmos, muitos versos partidos, não consumados, até pintei um teu quadro, só não sei se te fui fiel, se te fiz justiça, pois minhas mãos sempre trêmulas em momento algum conseguiram dissimular tanta e tamanha ansiedade pelo desejo de te Ter, ainda que só numa tela nostálgica dependurada na parede do meu quarto, tipo um altar, um santuário de louvação ao pecado que neste ritual, ungido pelo teu veneno que hoje inoculado em meu sangue percorre artérias e veias, caminhos os mais estranhos e consomem a minha mente através da dor. Pois tu vives tão perto, presente e ao mesmo tempo ausente que por mais que eu tente não consigo te esquecer. E ainda assim você não conseguiu em nenhum momento me perceber.
Outro dia fiz-te uma canção ao piano que toda a noite eu toco. Quem sabe numa madrugada destas, as notas invadam o teu quarto e consigam te seduzir, permitindo que o meu encantamento possa construir-me um momento de rara magia e prazer.
Terça passada, já bem tarde da noite, ao acordar afrontado, fui direto a janela me apoiar num cigarro, me aprumar, me acalmar, conciliar o sono, sei lá ! Vi tua janela aberta, descortinada ao intruso, perdoe-me, mas não pude evitar ! Fiquei vigiando na tocaia, esperando ver-te por inteira, mesmo na penumbra, quem sabe ? Mesmo que de relance, não importa ! Queria só te ver... Fiquei ali parado até o amanhecer, quando assim de repente a cortina como por desencanto foi fechada inclemente e nem a tua sombra eu vi e mais uma vez você não me percebeu.
Já faz algum tempo, li num livro que a força do pensamento seria capaz de concretizar nossos mais ocultos sonhos. Ontem por desesperado desejo, reuni tudo o que eu tinha, toda a força e loucura e me concentrei em você. Adormeci, desmaiei, desfaleci, não sei ! Só sei que sonhei um sonho, destes que nunca mais se esquece e que só fez aumentar o desejo por um instante preciso, precioso e sagrado de tê-la materializada ao meu lado, de poder estar em você.
Foi como se eu virasse essência, suavemente perfumada a viajar pela noite, a entrar pela tua janela generosamente entreaberta e invadir o teu quarto só para te ver de perto e me alimentar do teu ser. Tu estavas adormecida, aninhada na penumbra do teu leito e uma tênue luz acesa revelava-te generosa, inteira, nua, travesseiro entre as pernas, apenas num lençol enroscada feito uma sedutora serpente com poucas partes latentes, como uma dádiva ao desejo a revelar-me a certeza que estariam em teus mais secretos redutos a fonte da minha perdição. Fiquei assim paralisado, admirado e enamorado por todos os pontos, recantos, por tantos e tão belos segredos, por todas as tuas curvas e dobras, bocas, cabelos e pêlos, quanta loucura ! E eu ali parado, trêmulo, quase chegando ao orgasmo só pela visão do absurdo de poder perceber os teus caminhos, pela possibilidade dos teus carinhos e por poder me imaginar tão sedento frente a frente a um oásis, na verdade uma miragem feita para me enlouquecer.
Não pude furtar-me ao impulso de delicadamente tocá-la, de deixar minhas mãos abusadas ao sabor da tua carne macia, de envolvê-la na essência que eu por tanta e quanta demência ousara me transformar. Suavemente descobri as poucas partes, pedaços que aquele lençol inconveniente teimava em ocultar e ao revelar-te inteira, deslizei então os meus dedos por todas as trilhas, atalhos, por raras marcas e sardas, por montes, por fontes, clareiras e ao tocar-te de jeito reinventei o prazer. Para o meu espanto e deleite você em teus sonhos seguia, porém como em transe permitia, participava, concedia, expondo ainda mais o teu corpo, mostrando-me os caminhos e a magia do teu respirar ofegante. Os lábios entreabertos gemiam palavras que eu não conhecia, o suor brotando dos teus poros por entre os seios escorria, de tuas coxas tão quentes, do teu colo ardente, de tuas fendas molhadas e ao mesmo tempo sedentas e o teu cheiro cada vez mais presente, tomando conta do ambiente e a me puxar pra você.
Não pude mais me conter ! Toquei-te os lábios com os meus, faminto que estava suguei-te a língua e como um bicho sedento saciei-me em tua saliva, após percorri alucinado com a minha boca o teu corpo, saqueei-te indecente, como se fora um bandido, um ser descontrolado, um animal no cio, sei lá o quê ! Você ainda assim permitia misturar o suor do teu corpo ao suor do meu corpo e lentamente se movia enlaçando-me numa teia, sugava também do meu corpo toda e a muita energia que eu fora capaz de trazer. Se alimentando tão louca, prendia-me entre as pernas, trazendo-me para dentro do teu próprio corpo, me imobilizando em tuas presas para depois se entranhar selvagem por todos os pontos e poros, latejando por inteira, primeiro suave e lentamente, depois ritmada e ardentemente até atingirmos um orgasmo, um doce e inundado espasmo, descontrolado por tanto e tamanho feitiço, infinitamente demorado, até que tudo se fizesse ausente, até que eu acordasse abatido, só que no silêncio do meu quarto, sobrando em minha cama, dolorido e solitário, impregnado com o teu cheiro e cada vez mais teu servo e escravo.
Ainda assim, você nem sabe o meu nome e nem reconhece o meu rosto, não percebe que ao projetar-me em teu quarto, deixei-te gravado um poema de adoração ao teu corpo e de amor a você.