
Contos
Vânia Moreira Diniz
O Preço de uma Realização
Sérgio escrevia muito bem. Desde criança sua mente privilegiada captava qualquer coisa que se referisse à literatura. Muitas vezes antes de perceberem seu dom inato o colégio desconfiou do pendor daquele menino de seis anos, meigo e extremamente triste que tinha um sorriso doce e relutante.
De uma família privilegiada, pela riqueza e cultura, seu temperamento não carregava nenhuma das características dos meninos pedantes que formavam a roda de amigos em seu mundo infantil. Bonito, loiro com olhos verdes e imensos que brilhavam ao sol em reflexos dourados, Sérgio conquistava pela extrema simplicidade de suas maneiras gentis e amenas.
Sua vida tanto no colégio que estudava quanto em outros cursos e esportes que freqüentava era agradável, embora nem sempre pudesse entender uma certa melancolia que lhe possuía em períodos contraditórios. Crescera em volta de uma família excessivamente concentrada em suas ocupações de trabalho durante o dia e compromissos sociais à noite.
Seu pai era deputado e a mãe embora muito preocupada com os filhos tinha uma saúde frágil e muito cedo Sérgio vira com tristeza a jovem senhora debilitada por um sopro no coração que ele não conseguiria especificar a origem. Sabia apenas que já se operara quando ainda ele era uma criança. Extremamente bonita Paula tinha o mesmo sorriso e as maneiras gentis do filho.
Seu irmão Roberto, mais velho tinha sido criado por seus pais desde criança embora não o fosse biológico e mesmo assim ele o amava muitíssimo. Era como se fosse seu irmão.
Sobre tudo isso ele já escrevera e agora aos 16 anos concorria com alguns jovens para um prêmio de literatura juvenil e nacional. Estava esperançoso e não sabia porque Roberto sempre o desanimava.
Ele não queria nem pensar nisso, mas achava o irmão estranho com se às vezes tivesse raiva do mundo, porém esperava que fosse apenas uma impressão sua. Muitas vezes lhe falara da necessidade de ser um pouco mais compreensivo com as pessoas em geral e ele respondera de uma maneira irônica e fria. Ficara triste com isso
Naquele dia quando ele chegara em casa todos estavam felizes. A notícia de que ganhara o concurso alegrara a casa inteira e Roberto aproximou-se lhe dando um abraço enquanto dizia:
- Parabéns ao nosso grande escritor. Ninguém precisará trabalhar mais aqui.
Ele ganhará o prêmio Nobel.
- Poderei não ganhar. Mas serei um grande escritor, meu irmão. Tenho fé.
O outro o olhou e Sérgio sentiu-se mal da forma como o fez. Não o entendia. Ficou calado esperando uma oportunidade para conversarem.
Foi comemorada a sua vitória num evento muito bonito em São Paulo o que lhe deu grande felicidade. Estudava, lia muito e escrevia demasiado e com paixão. Não compreendia a vida sem isso.
Muitas vezes, em diversas oportunidades pessoas de suas relações queixavam-se do irmão, mas ele o defendia com ardor. Amava-o e sabia que ele era apenas um pouco crítico. Questão de temperamento. Com o tempo, mudaria.
Havia, entretanto alguma coisa de diferente em Roberto. Preocupava-se com ele. Queria ajudá-lo, mas ás vezes era tão fechado que não sabia como iniciar um papo nesse sentido. Temia que tivesse algum problema e mesmo como todo o amor que lhe dispensavam tinha muito medo que se sentisse rejeitado por ser adotado. Não entendia porque as pessoas poderiam se sentir dessa forma depois de demonstrações de amor, mas ninguém era igual.
O tempo passava e Sérgio com 22 anos já publicara seu primeiro livro. Sentia-se tão feliz que não percebera o quanto naqueles dias o irmão parecia triste. Triste e desolado. Roberto também era brilhante. Acabava o curso de direito e trabalhava com o pai deles que mantinha um grande escritório de advocacia.
O jovem escritor fazia o último semestre em letras quando viu pela primeira vez Sônia. Olhou-a apenas. E dois minutos depois podia jurar que estava apaixonado.
Muito bonita a garota possuía acima de tudo aquele carisma raro que independente de tipo físico fascinava vertiginosamente. Os dois logo se sentiram atraídos e conversaram durante longo tempo sentados na lanchonete da faculdade e deixaram o tempo passar sem que vissem. Dali saíram para outro lugar e continuaram o papo animador. Em poucas horas já se conheciam bastante. Começaram o namoro e raramente se separavam.
Sérgio estava escrevendo vários artigos para um jornal e trabalhava também em seu segundo livro que iria publicar daqui a alguns meses.
2ª PARTE
Roberto não era feliz. Sabia que tinha sido abandonado por sua mãe e recolhido e adotado por aquela família rica a qual pertencia desde poucos meses de idade. Quando tomou conhecimento dessa história contada pela sua própria mãe adotiva e enfeitada com o amor que sentiam, levou um choque. Lembra-se, era pequeno, mas uma raiva intensa parecia querer estourar e sentiu-se tremendamente infeliz.
Com o passar do tempo sentia cada vez mais uma aversão pelo irmão que lhe destinaram. Não admitia aquela máscara de bom menino e não sabia porque todos gostavam tanto dele. Enquanto crescia a antipatia piorava e chegou a ter ódio por ele. Mas agora... Estava apaixonado por Sônia ele tirava tudo que a vida tinha para lhe oferecer. Mas sabia que a jovem era ambiciosa. Estudara com muito sacrifício e sua família era humilde.
Soubera disso antes de Sérgio conhecê-la, pois quando ele a apresentara os dois se surpreenderam e confessaram que já se conheciam de um barzinho. Roberto tinha tentado manter um relacionamento com a moça e chegaram a iniciá-lo até o momento que ela conheceu o irmão. Depois tentou evitá-lo, mas não sabia porque até o momento que Sérgio lhe falara dela. Ambos não se manifestaram quanto ao tipo de conhecimento que mantinham. Parecia até um acordo tácito entre os dois.
Roberto acumulava aquela raiva toda dentro dele e não conseguia livrar-se disso. À medida que o irmão se projetava, encantando a todos e principalmente a Sônia com seu talento ele parecia ficar doente e se perguntava muitas vezes porque era sempre o segundo em tudo que fazia. É verdade que o pai lentamente encaminhava o escritório e deixava que ele o substituísse em muitas decisões. Mas ainda era pouco. Muito pouco.
A única coisa que Roberto se apegava relativamente era uma afeição muito doce à mãe e ele se amargurava porque cada vez ela ficava mais frágil. Não suportaria a idéia de perdê-la. Não, era demais. Era a única coisa realmente importante em sua vida e não suportaria ficar sem ela.
Seus pensamentos não eram sem razão e poucos meses depois Paula teve um enfarte, apressado pela lesão que tinha desde a infância. E dias depois sobreveio outro e em coma morreu suavemente.
O pai desesperado teve o apoio de Sérgio em todos os momentos. Mas o filho mais velho, isolado no seu tormento não conseguia paz. E talvez um remorso não definido o afligia ainda mais, porque mesmo tendo amado Paula de verdade suas mágoas em certos momentos até para ela se dirigiam. Sentia-se perdido agora e durante semanas ficou fechado em seu quarto até que seu próprio pai, tão sofrido e infeliz naquele momento reparou que ele precisava de cuidados profissionais. E necessitava mesmo porque sentia-se realmente mal. Descobriu-se então que ele andava misturando tranqüilizantes com anfetaminas, pois muito vaidoso sempre se achava gordo, embora tivesse, ao contrário, um corpo muito proporcional. Não estava conseguindo praticar musculação e sua auto-estima se ressentia e mais desesperado ficava.
Com a abertura do inventário e depois sua tramitação mais rápida por serem do ramo, foi dividida a parte de bens que cabia à sua mãe e o Dr.Antônio fez questão de que eles recebessem logo. Era o meio mais adequado de encaminharem suas vidas de modo mais confortável.
Sérgio começou a ficar famoso porque se enfronhara nos meios jornalísticos e já participara até de novelas o que deu um grau de notoriedade à profissão iniciada de verdade, desde muito pequeno. Era dom. E ele conseguira o que pouca gente consegue. Unir o que amava fazer e ao mesmo tempo viver disso. Mesmo porque no começo os pais o haviam ajudado e quando começou a sobreviver com seus próprios rendimentos já tinha se tornado relativamente conhecido.
Era difícil a relação dos dois irmãos e Sérgio, com carinho natural de seu temperamento tentava contornar. O rapaz ficara muito triste porque no dia de seu casamento com Sônia o rapaz desaparecera e só o reencontrou quando voltou de viagem com a mulher.
ANOS DEPOIS
Muitos anos se passaram. Sérgio ganhara vários prêmios importantes, era entrevistado na televisão, citado em revistas literárias e seus livros traduzidos no exterior. Ganhara muito dinheiro, mas o que o fazia feliz de verdade era exercer a inclinação que viera de berço e dedicar-se a ela.
Ele e Sônia continuavam juntos, mas não eram felizes. A moça, superficial e pouco afeita a livros literários só lhe dava valor pelo lado financeiro.O irmão levava uma vida estranha e nunca quisera casar-se, mas como se dava bem com a cunhada estava sempre em sua casa. Ela o entendia mais do que o irmão e Sérgio lamentava que os dois não pudessem se compreender verdadeiramente.
Entrara para a Academia de Letras e Roberto cada vez ficava mais esquisito.Quisera que ele participasse de sua vida, mas era difícil até conversarem. O irmão herdara o escritório de advocacia do pai e para a vida que levava não era nada mau como advogado. E Sônia apesar de tudo conseguira se formar em direito e trabalhava com o irmão.
Sônia e Sérgio além dos três filhos tiveram uma filha na maturidade que ainda era apequena e necessitava de cuidados E Roberto tinha uma apego à pequena Laura que até o comovia.
Foi num dia muito especial que o escritor soube que havia ganho o PRÊMIO A J.CRONIN, na ocasião o máximo em sua categoria que fora o grande sonho da vida de Sérgio e que ele achava impossível porque nomes mais experientes e mais velhos tinham sido cogitados.
Ficara tão emocionado que embora conhecendo a pouca cordialidade do irmão contara a ele a grande novidade ainda não espalhada na mídia.
Se o literato tivesse sido um pouco mais observador naquele momento de emoção teria percebido o ódio daquele olhar conhecido durante tantos anos. E acrescia que quando ele abraçara Sônia esse ódio ainda aumentara mais. Sérgio apesar de não viver tão bem com a mulher, na verdade, ainda era apaixonado por ela e só por isso aquele casamento se mantinha.
A vida de Sônia era dividida e ela sabia bem que a filha mais moça era realmente filha do cunhado. Ambos para terem certeza haviam feito um exame de DNA no qual se confirmara a paternidade e a moça nem sabia porque Roberto fizera tanta questão disso. No entanto concordara, por curiosidade.
Não tinha escrúpulos e sua meta fora sempre dinheiro. Por isso estava naquela família, por isso concordava com tudo. Não era nem por amor. Mas dinheiro. E no fundo os dois sabiam disso.
CONCLUSÃO
A noite estava vibrante em Londres onde se realizaria a entrega do grande prêmio. Toda a família tinha se deslocado para a capital inglesa e alguns amigos mais chegados também estavam lá. Já tinha sido entrevistado pelo correspondente do país de vários jornais e pelo fato da origem do prêmio ser irlandesa esse país era altamente representado.
Para o escritor era o máximo a que aspirava, pois era um dos prêmios mundialmente mais conceituados.Sua mulher estava linda e ele sempre a contragosto reconhecia o quanto era apaixonado por ela. O tempo não passava para aquela mulher. Era incrível. Por vezes imaginava que a maturidade ainda lhe trouxera mais encantos. E conseguia reparar isso no dia profissionalmente falando mais importante da sua vida até agora.
Não sabia onde estava Roberto muito embora tivesse estranhado a sua vinda. Nunca pensara que ele pudesse vir e ficara feliz. Apesar dos desencontros amava o irmão.
Pouco antes de entrar no enorme palco iluminado estava cheio de emoção e um nó embargava-lhe a voz quando alguém da recepção oficial pede para entregar um envelope em pergaminho. Imaginou o que seria levando em conta que lhe deram um recado que seria importante que o fizesse antes da cerimônia.
Intrigado, porém certo que deveria fazê-lo abriu-o, certo que fazia parte de alguma formalidade.
Todos que estavam perto apreciando a elegância do famoso escritor, ficaram estarrecidos ao velo com um relatório na mão, a respiração suspensa, muito pálido e enquanto o socorriam e o médico entrava para dar os primeiros socorros entregaram o papel à sua mulher que fora chamada rapidamente.
Ela não acreditou. Havia o exame de DNA com um recado de Roberto dizendo o quanto o odiava e pedindo que ele visse quem erro pai da pequena Laura.
No começo ele não entendera e o inesperado de tudo fazia com que ele pensasse que o destinatário não era ele. Depois o ar não conseguia chegar aos seus pulmões. Foi socorrido e foi melhorando e pensando que no fundo ele podia imaginar que Sônia o traía. Nunca com certeza e nunca com o irmão.
Alguma coisa se ergueu dentro dele repentinamente e ele levantou-se dizendo ainda com voz trêmula que tudo estava bem. Conseguiu pedir à mulher que fosse embora e passando altivo lembrou-se que aquele dia seria o mais feliz de sua vida. Recebeu o prêmio, sorriu e disse algumas palavras como robô.
Conseguiu sair em meio ao turbilhão e pediu um táxi urgente. Disse precisar fazer algo. Estava emocionado. Queria ficar sozinho. E descendo os degraus com ódio de si mesmo pensou que era um dos maiores escritores do mundo, mas quanto lhe custara. E nos degraus que levavam ao andar em que estava hospedado sentou chorando, pelas duas pessoas que amara tanto, que se dedicara e se preocupara e teve vontade de matar os dois. Chorando repetia alto que não
- Não, eu não posso. É isso que eles querem. Eu sou um dos maiores escritores do mundo e isso eles não podem me tirar.
De manhã o porteiro veio encontrá-lo, sem camisa, estirado no chão enquanto lágrimas inconscientes desciam pelo rosto. Estava fora de si.
Dois meses depois após uma crise de depressão foi indicado para o maior prêmio em literatura do mundo e recebeu passivamente o certificado de Nobel da literatura, previsto pelo irmão há quase quarenta anos. O preço era alto. Mas ele sobreviveria.