

A
Máquina de Fazer Dinheiro
O maior dos inventos de que já tive notícia, descobri, mais tarde, que
nunca existiu. As imagens saltam vivas da memória, é como se eu estivesse ali,
de novo, no alto dos meus quatro anos de idade:
-
Quer ver como a gente faz dinheiro?
Ah,
que alegria era o mundo! Eu usava aquelas notas para comprar chicletes na
lanchonete do outro lado da rua e, quando muito, para completar meu álbum de
figurinhas. Só isso. Dinheiro era para comprar comida, roupa e leite para meu
irmão.
Lembro
que inclinei um pouco o corpo, eu tinha os cabelos cacheados e usava vestidos de
peito de crochê que minha mãe, caprichosamente, fazia:
-
Quero. Como é?
E
foi então que surgiu a ilusão mais encantadora que já tive: o rapaz picotou
um pedaço de papel dentro da gaveta do suporte de uma máquina de costura. Pôs
um tecido por cima e, num passe de mágica, abriu a gaveta: estava cheia,
cheinha de dinheiro!
Fiquei
estarrecida:
- Pai, você viu que o Léo inventou uma máquina de fazer dinheiro?
Todos
se riam de minha inocência e eu, ali, maravilhada com a beleza do mundo. Tudo
era tão fácil, puxa, como ainda podia ouvir a mãe da Vanessa reclamar da
vida? Todas as pessoas deviam ter uma máquina daquelas. Quando a comida
acabava, pronto, era só fazer dinheiro.
E, assim, crendo piamente que o dinheiro surgia de simples pedaços de
papel que nem medidos eram (máquina milagrosa!), permaneci por vários anos.
Até
que um dia, assim do nada, já em idade escolar, perguntei:
-
Pai, onde ficou aquela máquina de fazer dinheiro?
Ele nem se lembrava mais:
-
Que máquina?
-
A que o Léo fez, você não lembra?
Meu pai puxou pela memória, franziu a testa e me disse, quase espantado:
- Você não acredita
naquilo, não é?
Aí, o susto foi meu:
-
Por quê?
-
Ora, filha, não existe máquina de fazer dinheiro. Ele brincou com você, nunca
percebeu?
Esta foi a minha primeira grande desilusão. Eu havia acreditado, sim,
nunca antes tive motivos para duvidar de alguém. Eu acreditei e todo o mundo
riu de mim. Era a criança boba, inocente, que não conhecia os males ainda.
Enxergo, com uma certa relutância, certos olhos de piedade sobre minha cabeça.
Eu era tão pequena, batia na cintura de um adulto, tinha que erguer o pescoço
num sinal de notada submissão.
Eu era pura, pura como nunca mais na vida pude ser.
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Érica Antunes
é paulista de Bernardino de Campos, mas mora em Cianorte, no interior do Paraná, há nove anos. Advogada e professora universitária, divide seu espaço entre petições e códigos com a literatura. É uma eterna "ledora" que se arrisca, de quando em vez, a "escrevinhar" umas coisinhas. Desde 99, media, com Eurico de Andrade, o grupo de discussões Letras & Cia (www.yahoogroups.com/group/letrasecia) e co-edita, com Esther Rosado, a Revista Nave da Palavra (www.navedapalavra.com.br).