Site Da Escritora e Poeta Cristina Moreira Safadi

                     Caminhada  

                                Eu, povo de Deus?
             Depois de vários anos de uma procura angustiante, em que buscava a Deus desesperadamente, finalmente eu havia encontrado um porto. Sim, um lugar em que pudesse realizar um encontro. Num momento simples de um dia absolutamente igual aos outros eu O encontrei.

Era como se acordasse de um pesadelo, em que a solidão insistira em me torturar. Não via sua face, mas podia senti-Lo bem junto a mim. E naquele instante, percebi que Ele havia chegado de mansinho e tomado conta de toda a minha vida. Não era como nos meus sonhos. Eu continuava com o coração apertado e nenhuma canção soava no ar. Não havia anjos, nem mesmo o distanciamento de minhas pobres falhas humanas. Éramos ali, eu e Ele, unidos pela comunhão que só um Deus misericordioso poderia permitir.

Olho hoje minha casa e vejo como Ele a transformou. Minha casa física, a própria decoração já mostrava que O desejava em todos os cantos de minha vida. A imagem de Cristo, Nossa Senhora, a Sagrada Família... Tudo denotava uma transformação. Mas, minha casa, o lar que eu amava e dirigia, este estava totalmente diferente. Meus filhos participam e precisam do mesmo Deus que me dá sede. Olham para Ele com fé e confiança. Participam de sua obra e unem as mãos, em muitas ocasiões, louvando e também pedindo Sua misericórdia. Contam com Ele no seu dia a dia. São bênçãos chegando dos céus. Para isto, apenas foi necessário o nosso desejo.

E a caminhada foi-se fazendo, levados, nós, pelas mãos de Jesus. Dificuldades e alegrias se misturando, tombos e novamente a recuperação. Tudo isto faz parte da doce presença de Deus.

Mas hoje, acordei com um céu cinza emoldurando minha janela. Olhei para a imagem de Cristo a minha frente e um louvor brotou de meu coração. Pela vida, pelo trabalho, pela saúde, pelos filhos e... Pelas pedras do caminho, que me fazem olhar para Ele. Pelo vazio em minha alma que me faz ter a consciência de minha pequenez.

É estranho... Os pensamentos e recordações vão então se sucedendo, e  minha presença neste mundo me faz refletir. Em minhas orações, sempre clamo por um coração mais humilde, mais sereno, mais semelhante ao Deus de minha vida.

Escrevo isto, como uma carta aberta, talvez imaginando que vá auxiliar outras pessoas. Sim, sou povo de Deus, sinto-me chamada a participar de Sua obra, mas o coração, às vezes, se fecha nas minhas pequenas dificuldades do dia a dia.  Produzindo uma angústia que não leva em conta a cruz carregada por meus irmãos.

É sofrimento sereno, com a consciência de se ter um Pai, caminhada com a certeza de uma chegada.

E lá vai meu pensamento, agora preenchido por uma pessoa humilde e idosa que conheci. Pobre mulher segue em frente, com um filho para criar. Segue sozinha, mas com Deus em seu coração. Em suas palavras, sempre tão simples, a oração se faz exemplo. E, eu, povo de Deus, como ela, como seu filho, não a compreendia. Para ser sincera, por vezes até me irritava. Por que?

Hoje penso com ternura nesta mulher. O ano de 2002 apenas começa e me amedronta. Tantos compromissos, tantas tarefas e o medo... O medo de não ser capaz. A solitária luta feminina, hoje, clama por um aconchego. Mas ele não vem, quando não procuro no lugar certo. Por isto penso naquela mulher. Mulher forte em seu franzino corpo que vem me ensinar.

Em sua humilde oração ela diz: ‘Olha para Cristo, segure em Suas Mãos, coloca toda a tristeza a serviço do Senhor.’ Com certeza esta mulher não lerá esta carta, mas sua imagem hoje me acompanha. E calmamente vou percebendo o que é olhar para o irmão para poder encontrar o nosso Deus.

Ele se serviu daquela senhora para me mostrar que o povo de Deus é assim. Tantas vezes se sente triste e pecador, inseguro e inconstante na fé, mas é este povo que Ele quer. Ele o transforma na alegria da grande certeza. Hoje, quero também ser um instrumento, mostrando que estar com Deus, não nos libera de nossas falhas e egoísmo. Mas não importa.

Vou continuar, olhando menos para mim, menos para aquilo que gostaria de ser e não sou. Vou fixar meus olhos em Cristo e Lhe pedir a graça de poder refletir sua Luz e testemunhar Sua Presença.

Cristina Moreira Safadi
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