Magno Antonio Correia de Mello

Minha História

Vânia,

Você me pediu que te enviasse dados biográficos, o que é muito fácil, porque a impressão que tenho sobre a minha vida é a de uma pessoa que vive – contra sua vontade - fugindo do próprio destino. Nasci no longínquo ano de 1962, nesta seca e deserta cidade onde se decide o destino das outras: a tal da capital da República. A minha relação com a literatura é muito precoce, até porque o coração idoso envia versos para os órgãos e recebe deles prosa - talvez por isso às vezes me dê a impressão de uma certa falta de oxigênio e de gás carbônico... De todo jeito, alguns dos poemas que publiquei na Usina (o haicai "A Última Peça" e os poemetos "Berço", "Início" e "Curta Reflexão Sobre o meu Destino",  mais especificamente) são mesmo muito precoces, porque foram todos escritos quando eu contava menos de dezessete anos. Devo registrar que isso não me causa orgulho nenhum, porque esses poemas, pela sua qualidade - que nem eu sou capaz de negar - fizeram com que eu pensasse que a literatura é uma coisa muito fácil, um mundo onde você pode penetrar sem o devido, prévio e indispensável preparo. O resultado é que eu não percebi que quase tudo que escrevi na mesma época não era lá essas coisas e me aventurei em alguns concursos literários, nos quais, naturalmente, fracassei, o que me levou a uma talvez injustificável desconfiança em relação ao meu talento.

Esse desacerto, Vânia, é que talvez me tenha feito tomar um caminho na vida inverso ao seu. Aliás, o que muito aumenta a admiração que tenho pela enorme garra com que você luta pela literatura é a minha imperdoável covardia. A palavra é muito apropriada, porque não tive coragem de fazer o mesmo. Ainda tentei uma publicação, por minha conta, de forma também muito imatura (eu tinha vinte e sete anos), de um livro de contos - "Castigo", que reúne os contos publicados na Usina - mas, ante o fato de que não consegui (e não conseguiria mesmo, o sonho em contrário era uma tolice) qualquer repercussão, pode-se marcar essa aventura como a última tentativa séria de me tornar um escritor de verdade, porque desde então deixei de acreditar que a minha obra algum dia seria reconhecida. A partir daí, dei de ombros (ou me acovardei, como disse antes) e fui buscar outros meios de ganhar a vida. Saí do Banco do Brasil, onde trabalhava na época, depois de estudar à beça para conseguir meu atual emprego - sou Consultor Legislativo da Câmara dos Deputados desde 1991.

Desde então, tenho sido uma espécie de Rimbaud - claro que descontando a diferença enorme de talentos. Nunca mais produzi nada de novo e na verdade só tenho feito burilar o que já havia escrito. Os contos de "Castigo", na versão que constam da Usina, estão mesmo muito melhores do que quando os publiquei. "O Mesmo Nada", peça escrita aos dezoito anos - e que curiosamente prenunciou muito do que ocorreria na minha vida - pôde sofrer aprimoramentos durante outros dezoito anos, até chegar ao ponto em que você pode lê-la na Usina. Só a poesia não secou definitivamente, e alguns poemas são até bem recentes. "Viagem ao Centro da Minha Mente", "A Última Canção de Amor", "Sobrevida" e "Receita" são quatro bons exemplos. Mas nem isso significa grande coisa, porque sinto que, como Augusto dos Anjos (mais uma vez sem nenhuma intenção de comparar os talentos), sou poeta de um livro só. Todos os versos que escrevi depois de "A Fantástica Fábrica de Tomate e Outros Poemas", pela impressão que tenho, foram produzidos para aperfeiçoar esse livro.

O que não faz com que eu não mantenha, eternamente inconclusos, alguns poucos projetos. "Turmalina", outra peça, já toda escrita - e esperando pelo incansável, obstinado e inevitável aprimoramento - é uma adaptação completamente livre da vida de Fernão Dias Paes e conta a história de um louco que se embrenha nas matas atrás de esmeraldas que não passavam dessas pedras de que fala o título, isto é, turmalinas. "Civilização Canalha", em andamento - já conta com mais de dez páginas, quem sabe um dia termino - é a tese de doutorado de um cientista, escrita em tempo e local ficitícios, buscando demonstrar que tudo que existe não passa do fruto da mente perversa de um escritor medíocre. "Herança Maldita", ainda nem iniciado, retrata um louco que quer ser o único herdeiro de uma imensa fortuna e elimina todos os nomes de uma lista de possíveis adversários, até que todos se vão e ele, obcecado, risca o último nome - o dele mesmo.

Nesse meio tempo, enquanto dava minhas cabeçadas literárias, também me formei em Administração e Direito, além de ter ter ajudado a produzir três inegáveis, insuperáveis e incontestáveis obras-primas. Chamam-se Rayane e Rebeca, de quatorze e oito anos, as duas do primeiro casamento, e Bruno, de cinco, fruto da segunda e atual tentativa, até agora muito melhor sucedida, de conseguir a felicidade fora da literatura.

Magno Mello

 

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