Paulo Peres

Primeira Página
(Paulo Peres)

Definhando outrora
Um rosto endossa seu avesso,
Parto doendo o feliz começo
Da solidão pedir licença e ir embora

Depilou as pernas,
Fez as unhas,
Inundou o corpo
Com essências orientais,
Penteou os cabelos, etc.

Desnudou a casa em supérfluos
Sem previsão ao paraíso
À vitrola regia Beethowen,
Bach e Vila-Lôbos
Um tapete persa
Espreguiçava a mordaça
Da cópula endereçada

Luz pequena
Cinzeiro de prata
Bebidas, cigarros
E alguns salgadinhos
No cenário do pensamento
Tudo estava programado
Tudo estava no lugar

A espera tão esperada
Aportara como feedback ao nada
Não mais haveria desespero
Sequer exagero
Apenas o cheiro cativante
E amante pelo Ser, ora chegante

O tic-tac do relógio
Masturbava o tempo:
Senta, levanta, caminha, senta, deita,
Na cama debruça o espanto
Despe-se, acaricia os seios,
O corpo, os cabelos
Envolta a língua nos lábios,
Os morde, geme baixinho
E se retorce
Sorri
Traz medo seu riso em gracejo
Num fim de visão nervosa
Veste-se, caminha, fuma,bebe

Pensa ser cedo
Revive os mínimos detalhes
Do encontro
Corre ao calendário
E ratifica o dia
"Tudo certo
Passa das 21 horas
Uma hora de atraso
Tudo bem"

Mais um cigarro
Vai-e-vem entre os cômodos
Nenhum barulho
Levanta-se
Busca dúvidas:
Traição ou menosprezo,
Quem sabe, ilusão?

Meia-noite
Duas horas
Quatro paredes
Ninguém

Outro gole
Sempre o gosto de espera
Sem dormir e sem fugir
No álibi anfitrião vai à janela
Mas a noite na noite de seu ensejo quer-lhe morar:
O açoitar das ondas na areia em cirandas
Protestam seu silêncio na Pedra do Arpoador

Respira fundo
Fecha a janela
Passeia seu pensar
Pela alcova
Despe-se deita
Campainha toca
"É ele"
Ninguém (ciclotimia)

Ciclotimia?
Não, algo se movimenta
Ora, apenas mendigos e cachorros
Disputando o lixo
Não, um veículo invade a rua. " É ele!
Nada! É um caminhão qualquer"

Posto que o mesmo teto,
O mesmo holocausto,
O mesmo anseio,
O mesmo medo
Três horas. Quatro paredes
Movimento tácito num transitar surpreso

Cinco horas Lucidez tardia
O odor da vida somara raízes
Em seu corpo pelo tempo
Modificado e ludibriado
Mas o seu desabafo subjetivo
Desacatara o dinheiro
Como fruto carente da ação retina

Dormem os edifícios
Um sol aflito soqueia seu rosto,
Nada mais
Resta um revólver e um testamento

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