
Textos em Prosa
Pedro Cardoso Machado
Diário de um suicida
Pedro Cardoso Machado
Brasília, 03 de novembro de 2000, é noite escura, o silêncio tomou conta de mim, os mortos estão calados, os vivos estão dormindo e eu, estou aqui lutando contra as teclas do computador. Todas elas me parecem idiotas, todos os espaços me parecem ocupados, acho que sou um estorvo dentro deste quarto, são quatro paredes brancas e sem manchas, no teto, uma lâmpada vagabunda, teima em ficar acesa.
Pergunto a mim mesmo o que estou fazendo, a resposta não chega, estou sozinho, o meu vizinho, um cidadão marroquino, não entende o que falo, portanto, dele nada há que se esperar. Tento arrancar as respostas das paredes, mas elas também estão dormindo eu, acabei de levantar, estou sem sono.
Procuro uma corda, acho que consigo fazer uma forca, mas uma dor estranha já aperta o meu pescoço, são os meus dedos apertando a minha garganta, é uma sensação no mínimo esquisita, mas não posso morrer agora, se isto acontecer esta página vai ficar pelas metades. Isto não é bom, você não pode ficar sem saber o final da estória.
Agora, já é dia quatro, quando comecei a escrever era quase meia noite, além do mais, sou um paquiderme para digitar, tenho ainda dez dedos, mas só uso uns quatro.
Ah tem os fios do computador, eles podem ser a minha salvação, mas meu corpo é um tanto quanto pesado, não sei se a madeira que sustenta a cortina vai agüentar, espero que sim. É uma pena que você não esteja aqui, pois poderíamos fazer um teste-forca. Assim, você poderia ficar encarregado de escrever o final da estória. Ia poder contar com mais detalhes cada cena; como se a morte viesse em câmara lenta.
Eu não sei se você já pensou na danada da morte, acho que ela é, muito besta. Um dia desses uma amiga me contou que um pardal, desses que só gosta de cidade, entrou na frente de um motoqueiro causando um desastre irreparável. O motoqueiro, vendo o "comunista" desacordado, ao invés de levá-lo para o veterinário, passou em uma avicultura comprou uma gaiola que era para quando voltasse do trabalho, o encontrasse já restabelecido e no mesmo local. Conforme relato de minha amiga, quando o danado do pardal acordou e viu que estava trancafiado exclamou: puta merda matei o motoqueiro!!!
Às vezes fico pensando, se eu tivesse atirado naquele cidadão que atirou em John Lennon, antes que ele chegasse à porta do Dakota, você ia dizer que eu havia feito o bem ou o mal? E se eu tivesse atirado em Lee Harvey Oswald, antes que ele atirasse em John Kennedy, e se eu tivesse atirado no bandido que matou Abran Lincoln, quando ele chegou ao teatro?
Ah, vou continuar escrevendo, quem sabe alguém atira em mim pensando que sou