Textos em Prosa

Pedro Cardoso Machado

Novos Mundos
Pedro Cardoso Machado

Há tempos atrás era difícil falar em Novos Mundos, pois só conhecíamos o mundo dos sem-terra, dos sem-teto, dos sem vergonha, o mundo dos aflitos, isto sem falar no mundo vasto mundo de Drummond de Andrade.

Mas com o advento da Internet, pude conhecer outros mundos, o mundo de Ana, o mundo de João e o mundo de Vânia. Nestes mundos maravilhosos e virtuais navego por entre cabos e fios numa velocidade inacreditável, para mim. Vou do Japão ao Cazaquistão num piscar de olhos, num estalar de dedos e, o que é mais bonito, é que nunca vi Ana, só conheço Vânia, minha amiga que veio, comigo, do antigo mundo. Mas, para quê, que eu preciso conhecer Ana se ela diz que me ama, mesmo sem conhecer o meu cheiro, sem conhecer o meu dinheiro, ou mesmo se sou o verdadeiro Alain Delon. Nunca disse a ela que o meu nome não é Pedro e nem tão pouco ela quis saber se sou o Zé lá da venda ou o João, o dono do jumento que anda nas ruas de Cabeceira Grande, pintado de zebra.

Ah, no mundo virtual, onde Ana e Vânia, dizem que sou o maioral, que sou o fulano de tal, onde as cores são outras, onde os desejos são mutantes, onde as portas estão abertas dentro de mim, onde a palavra não tem som, mas tem sentimento, tem luz, eu não tenho que usar um nome real. Posso usar um apelido qualquer, seja ele bonito ou banal. Este mundo virtual, este mundo abstrato, é bem mais concreto do que a nossa vã imaginação pode alcançar.

No mundo real, sofro porque não sou o mais bonito, sofro porque escuto gemido, sofro porque sou um homem qualquer, sofro porque existe a Jorgina, sofro porque existe o Nicolau, sofro porque existe o "magnífico" Leo.

Às vezes fico me imaginando um cego sem braços e pernas, no escuro da noite mais profunda e lá, solitário, me vejo flutuando em minha mente. É, sem dúvida, uma solidão das mais doloridas. Aí me pergunto: Real ou Virtual?

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