Lançamento do livro
Pelos Caminhos da Alma de
vânia Moreira Diniz
Editora Ottoni - Editora-ottoni@ottonieditora.com.br 


Prefácio da Psicóloga  Mônica Arraes Moreira  de Andrade 

(irmã da Autora) 

Quando fui convidada para prefaciar o livro de Vânia Moreira Diniz, se dissesse que a emoção que me acometeu foi de surpresa, orgulho ou mesmo alegria estaria mentindo.

            Fiquei plena de algo que o mundo teima em me fazer duvidar: JUSTIÇA!

            Como assim? Refiro-me a um livro de Direito?

            Não...

            A um livro de poesias que, não aleatoriamente está sendo lançado junto a um de crônicas.

            Vamos aos nomes de cada um deles: “Pelos Caminhos da Vida” (crônicas) e “Pelos Caminhos da Alma” (poesias).

            Coube-me prefaciar o segundo, o que, entretanto, não me impede de fazer alusões ao primeiro, visto que, obviamente, para qualquer bom entendedor, um completa o outro. Competência da autora poder unir alma e comportamento e, além disso, dar encantamento a essas manifestações de vida.

            Voltemos ao sentimento de “Justiça”, anteriormente mencionado e cujo termo, daqui para diante, será utilizado das formas mais diversas que a licença poética faculta.

            Somos irmãs. E daí? Outras tantas o são. Caim matou Abel. E a Justiça? Partilhamos a educação de suas filhas Cláudia e Mônica. Não por um ou dois dias, mas por décadas, sem início e com término marcado pela eternidade. Ah, bom! Solidariedade, sinônimo de Justiça!

            Somos mulheres. E daí? Outras tantas o são. A luxúria alimenta dia a dia corpos cada vez mais “turbinados”. E a Justiça? Realizamos nosso ofício com nossos rostos marcados pelo tempo, eu com a psicologia, ela com a literatura. Ah, bom! Trabalho, sinônimo de Justiça.

            Somos cúmplices. E daí? Outros tantos o são. Judas traiu Cristo. Ouvimos sempre a dor uma da outra. Vivemos alegrias e sofremos opressões juntas. Gritamos e silenciamos. Brigamos e fizemos as pazes. Temos confiança de que o bem vence o mal, e isto nos tranqüiliza. Ah, bom! Sabedoria, sinônimo de Justiça!

            Somos apaixonadas pela vida. E daí? Outros tantos o são. Um tiro matou o amante. Assassinato passional, diz a manchete do jornal. Paixão, para nós, é Eros, direito à vida, da maneira como ela puder se expressar. Sem prejuízo do outro, entretanto, sem abrir mão da loucura criativa que só a paixão proporciona. Ah, bom! Art. 5° da Constituição Federal, sinônimo de Justiça!

            Somos tolerantes. E daí? Outros tantos o são. Vítimas da intolerância: Caim matou Abel; Judas traiu Cristo; um tiro matou o amante. E nós? Resta-nos apenas a certeza do privilégio de ter tido o amparo de uma família estruturada pelo amor, pela condição social e financeira que fizeram a diferença. Cabe-nos compreender aqueles que não tiveram as mesmas oportunidades e assinalar que o registro foi feito com total ausência de julgamento. Ah, bom! Respeito e gratidão, sinônimos de Justiça!

            A Justiça, entretanto, não se conforma com meros relatos. Há que se provar. São as provas que compõem os autos e podem absolver ou condenar. Vamos a elas, então.

            Aqui abre espaço porque para a defesa há sempre lugar, mesmo que contrariando o contexto, para transcrever uma crônica de Vânia Moreira Diniz. Atentem para o título como é pertinente, inclusive, para a matéria aqui em discussão.

 

Infração Gloriosa do herói Romário
Vânia Moreira Diniz

 

Só gostava de futebol quando era muito pequena. Mas posso dizer que acompanho uma partida de futebol, entendendo cada detalhe. Apenas não gosto de assistir a não ser em copa do mundo na qual vibro intensamente e pulo e grito a cada gol realizado.

Mas não pude deixar de ficar emocionada na última partida de Romário com quem não tinha grandes afinidades. No entanto o fato de ser seu último jogo internacional me prendeu à telinha da televisão.

E quando levantou a camisa, depois do gol, pude ver escrita a frase que me comoveu profundamente “Tenho uma filha com síndrome de down que é uma princesa” Pena que o Juiz ou por falta de sensibilidade ou por nem ter tido a curiosidade de ler o que ele mostrava às multidões ou ainda por rigidez às regras do jogo não tenha percebido o gesto sublime do jogador.

 Admirando ali aquele profissional do futebol, emocionado enquanto a bandeira do Brasil era hasteada, mal contendo as lágrimas, esqueci certos atos que ele cometera ou mesmo as vezes em que o julgara por demais pretensioso. Na verdade quem for livre de qualquer vaidade que atire a primeira pedra. Muitas vezes o vira responder de modo nada delicado, mas jamais saberemos as razões dos atos das pessoas, o que se passa interiormente.  Isso ninguém jamais poderá entender em profundidade.  Olhemos primeiramente para os nossos próprios defeitos e talvez possamos entender o do nosso próximo.

No entanto quando vi o seu gesto misto de orgulho e intenso amor mostrando o que estava escrito na camisa mesmo que ele tenha cometido alguns atos incompreensíveis como todo ser humano tudo foi redimido. Redenção completa de um pai a se orgulhar de sua filhinha que geneticamente nascera diferente de muitas outras pessoas para a qual ele transmitia seu amor profundo e dedicava a ela o gol que acabara de fazer, comemorando a vida, a ternura, a inclusão nesse gesto de muitas vidas e afastando os terríveis preconceitos.

Oxalá todos nós mesmo com risco de ser punidos, levantássemos nossas blusas no supremo momento de uma vitória lembrando e enaltecendo a própria filha e dando provas de seu humanismo e ausência de tristes convencionalismos.

Nesse instante difícil que lutamos a favor de todos os nossos irmãos, quando vemos a intolerância de um mundo que ainda não compreende a igualdade, quando sentimos que as reações ainda se fazem impertinentes, quando nos revoltamos ao sentir a empáfia de muitos a qualquer tipo de diferença, o gesto de Romário sensibilizou, e nos trouxe lágrimas que jamais esqueceremos. Gesto tão simples e tão maravilhoso, refletido no rosto cheio de emoção no último dia de seu jogo internacional e demonstrando o quanto muitos brasileiros  como eu fomos injustos com atitudes que julgamos presunçosas. Um dos maiores jogadores brasileiros,  mostrando ao mundo não apenas seu glorioso talento, mas acima de tudo isso a força de seu caráter, o gesto de carinho intenso e a nobreza de seus mais recônditos sentimentos. O Brasil venceu, não só pelo placar, mas porque no último jogo, Romário mostrava ao mundo o mais belo gesto já visto num jogo de futebol.

 

       Finalizada a prova, gostaria ainda de, nas considerações finais, dizer que Vânia possui uma característica única, que realmente a distingue, e a Justiça novamente pede-me que lhe seja atribuída: O Poder Transformador.

       Cada poesia e cada crônica sua é a confirmação disto, coroada por aquela a que a autora intitulou “Amor Transformador”.

       Vânia consegue transformar dor em alegria, trauma em aprendizado, descuido “recebido” em amor “recolhido”, a tecnologia de um computador na mímica de seus sonhos sem fronteiras. Transformar sem banalizar. Exuberância sem vulgaridade. O exagero que não transborda, mas que preenche na medida certa. Com dignidade, passando o batom na boca, não para afrontar o mundo e deixar os outros para trás, mas para que seu sorriso fique ainda mais evidente e acolhedor.

Presunçosamente, sinto-me à vontade e, mais uma vez, a Justiça se realizou ao ser escolhida para prefaciar o livro da autora, que tão bem conheço, minha querida irmã e grande escritora.

Curvo-me diante daquela que sem amargura permeia entre os caminhos da vida e da alma com tanta sofisticação!

Seja feliz, porque é de inteira Justiça!

Minha admiração, meu afeto, meu amor.

 

Mônica Arraes Moreira de Andrade
Psicoterapeuta, comissária de justiça da infância e juventude do Estado do Rio de Janeiro, especialista em psicolologia clínica e jurídica. Pós graduada em distúrbio da conduta e mestre em psicologia social

Rio de Janeiro, 18 de maio de 2005.

 

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