
Textos em Prosa
Paccelli José Maracci Zahler
Aos que Virão
"Ide e derramai sobre a terra as sete taças da ira de Deus".
Apocalipse,
16:1
É
triste pensar que, dentro de mais alguns dias, seremos pessoas do século
passado. Mais triste ainda é pensar no quanto a violência tem aumentado nos últimos
anos, tanto nas áreas urbanas quanto nas áreas rurais, tanto nos países
desenvolvidos como nos subdesenvolvidos.
Aparentemente,
pode-se pensar que se trata de um fenômeno comum quando ocorre uma mudança de
século.
Nesses
períodos de transição, são comuns o surgimento de seitas e profecias apocalípticas
e o aumento do número de suicídios e homicídios, causados pelo desespero das
pessoas e pela falta de esperança em um mundo melhor.
Isto
parece estar nos afetando neste momento, agravado pelo grande desenvolvimento
dos meios de comunicação, o avanço da informática e a popularização dos
computadores pessoais interligados na rede mundial de computadores.
A
informação tem chegado em tempo real. Chega-se ao preciosismo de se assistir a
uma guerra, ao assassinato de um importante líder mundial ou a um espetáculo
de rock'n roll em uma ilha longínqua do Oceano Pacífico ao vivo.
Com
toda certeza isso está afetando o pensamento das pessoas.
Nós,
homens do século XX, talvez não estejamos preparados para todo esse
desenvolvimento tecnológico aplicado ao nosso cotidiano.
Somos
de uma época mais tranqüila, mais romântica, mais sonhadora. Todo esse
arsenal que hoje se encontra disponível nas lojas de eletro-eletrônicos não são
novidades. Já o conhecíamos através das histórias de Flash Gordon, Dick
Tracy, Super-homem, Batman e Buck Rogers, que devorávamos com atenção máxima.
Apesar
de quase perdermos as esperanças algumas vezes, ainda sonhamos com um mundo
melhor e mais justo.
Ainda
queremos passear de mãos dadas com a amada em um jardim florido, ouvindo o
canto dos pássaros, respirando o ar fresco das manhãs e sentindo o calor do
sol aquecendo o corpo.
Esquecemos
que hoje, o namoro acontece através do computador, em um quarto fechado, luz
fluorescente, ar condicionado ligado, bebendo refrigerante e comendo sanduíche.
Queremos
sentir o toque da pele, o carinho, o olhar de cumplicidade em nossos momentos
mais íntimos a dois. Porém, não levamos em conta que, nos dias de hoje, o
amor pode ser feito através do telefone ou do computador, em qualquer parte do
mundo, em qualquer horário, por cinco dólares o minuto.
Quase
não se vê crianças brincando ao ar livre de amarelinha, de roda, pular corda,
soltar pipa ou jogar bola de gude.
As
brincadeiras foram transformadas em softwares, receberam mais velocidade e uma
boa pitada de violência, podendo ser processadas através do computador ou do
videogame. Assim, em um mundo virtual, o sangue jorra, personagens são mortos
com requintes de crueldade mas retornam para mais uma rodada do jogo.
Suspeita-se
que o excesso de fantasia esteja afetando o cérebro dos adolescentes,
condicionando suas mentes e afastando-os do mundo real. Pelo menos, é a explicação
mais plausível para os recentes assassinatos ocorridos nas escolas americanas,
onde jovens fortemente armados atiraram contra professores e colegas,
suicidando-se depois. Alguns deles eram aficionados de jogos eletrônicos e
planejaram seus ataques de acordo com a mesma trama do jogo.
Que
dizer do novo modelo econômico mundial - a globalização? Pois é, tem se
incentivado, através da televisão e da propaganda, a competitividade, o êxito
profissional, o sucesso, somente os fortes conseguem vencer e assim por diante.
E o que acontece com os excluídos? Como sobreviver em um mundo competitivo se não
se tem acesso às condições materiais mínimas, a uma formação intelectual e
profissional adequadas para competir em pé de igualdade com os demais?
A
exclusão também gera desespero, agressividade, violência.
Pois
é, dentro de mais alguns dias, seremos gente do século passado. Seremos também
ultrapassados? Não sei, contudo, talvez algum dia nos orgulhemos de termos
brincado ao ar livre, pulado corda, subido em árvore, namorado no banco da praça
vendo a banda municipal tocar marchinhas no coreto e termos tido inspiração
para escrever poemas.
Quanto aos que virão... Coitados!