Prefácio
Vânia Moreira Diniz

O que sempre admirei em Vania Serra foi sua firmeza, independência e a convicção do que realmente queria.  A tranqüilidade com que anda pelas ruas do nosso país é a mesma que enfrenta o mundo verdadeiramente. E quando digo mundo quero dizer literal e objetivamente. Nenhum obstáculo interceptou sua caminhada assim como a doçura  e generosidade de seu coração acompanharam seus passos e atravessaram continentes. Jamais esqueceu do seu grande amor pelo Brasil e costuma confessar sorrindo que morrerá em sua pátria, “embaixo de um ipê”. Hoje mora na Alemanha acompanhada de seu marido, apreciando os costumes e curiosidades de outra pátria, em contato com povos de costumes diversos, assimilando cada detalhe e acumulando muito conhecimento, mas visita o Brasil pelos menos três vezes por ano e não saberia viver sem esses retornos constantes, mesmo que sejam poucos dias.  Somos amigas e não só temos o mesmo nome como uma profunda e duradoura amizade. As confidências são contínuas e nossas almas mutuamente entendidas porque nos conhecemos e sabemos que nada que uma disser à outra constituirá surpresa.

Vania é bacharel em direito, estudou línguas e morou anos no exterior por força de seu trabalho no Itamaraty onde entrou “pela porta da frente”  e depois porque se casou com um alemão.Hoje seu “cotidiano” é nessa pátria onde ela escreve seus textos, muitos publicados em sua coluna “Durchblick”. É co-autora do livro “Côncavo e Convexo” em duas línguas e uma escritora de talento incomum, uma pessoa extremamente dedicada à sua família, amigos e que carinhosamente se preocupa com seu próximo de uma forma objetiva e sem alardes.

Ao me convidar para prefaciar seu livro “Cheiro de Café” realmente me ofertou um presente que considero fascinante. Conhecendo essa competente escritora  imaginei como me emocionaria ao ler o manuscrito e ao mesmo tempo me proporcionaria horas prazerosas. Sendo um livro de contos satíricos  de seu “cotidiano na Alemanha”, pude evocar o senso crítico  tão especial da escritora, observações divertidas e espirituosas que ao longo de anos de amizade tantas vezes admirara.

Vania possui uma simplicidade impressionante  para uma vida cujo acervo de aprendizado se acumula a cada dia e que desliza brilhantemente em seu trabalho.

Em “Cheiro de Café” está a autora no seu dia a dia, porque em cada momento de sua própria vida Vania reúne riqueza e talento. Patrimônio de alma, capacidade aliada a uma observação apurada, consciência de seus próprios valores ali retratados nos contos, em cada frase,nas palavras extremamente bem colocadas que li com especial encantamento.

 “Teve que engolir o gato. O marido amava o gato. Ela amava o marido. O gato era de estimação do marido O marido era de estimação dela”
.Em “
Cheiro de Café o leitor sentirá metaforicamente a profundidade do trabalho de Vania. Ela transmite o satírico com tal sutileza que surpreende e faz com que não consigamos parar, seduzidos pelas narrativas de extrema qualidade.
               “Chegou depois dos convidados. Entrada solene. Vestiu casual, meio fora de seu gosto habitual...”  “Deve ter pensado: os convidados não são de primeira, portanto, não posso destoar”

E com mais vigor ela entremeia a qualidade literária, por vezes mordaz em certos momentos marcantes  trazendo um ensinamento que prazerosamente assimilamos.

Ali está a Vania autora, a mulher que soube fazer do  seu cotidiano  um ensinamento cada vez mais valioso não só para ela mesma, mas para todos aqueles que tiverem o privilégio de ler esse livro.

Parabéns à querida Vania pelo talento perspicaz, observação atilada e a  competência do conteúdo profundamente atraente e verdadeiro.

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