Priscila  de Loureiro Coelho

Foi Bom  Para Você?


           Talvez a nova geração que aí está se descobrindo, não perceba a sutileza que existe em certos rituais ou comemorações, que muito expressam valores de uma geração anterior.

 Há sempre muita beleza em cada época vivida, e o tempo, através da eternidade, vai compondo a verdadeira história da humanidade!

 Esta crônica é em verdade uma homenagem a um amigo especial, que de uma forma bastante peculiar, presenteou-me com alguns ensinamentos preciosos... os quais partilho com vocês neste momento.

Um casal amigo comum nosso, ao comemorar as Bodas de Prata, reuniu a família e alguns poucos amigos, pois a realidade de hoje, não nos permite excessos, por conta da contingência estrutural da economia dos pais.

O que se pretendeu foi ritualizar um momento já vivido no passado, que em verdade sacraliza os valores que unem a família. A reunião aconteceu de forma descontraída, agradável e alegre, uma vez que o grupo era animado e contava com espíritos sadiamente divertidos. Conversas, cumprimentos, atualização de informações, enfim tudo que acontece normalmente nestas reuniões informais.

O feliz casal, como anfitriões incansáveis, acompanhava o desenrolar do evento, participando em tudo com entusiasmo.

O “noivo", empolgado consumia liberalmente o "néctar dos deuses", brindando seguidamente com seus convidados. Tão entretido em sua comemoração estava, que em dado momento, desapareceu, aproveitando-se do movimento, indo para o quarto dormir!   ... E de pijama e tudo!

Eis que é chegada à hora da comemoração "oficial". Uma bela mesa enfeitada com doces, bolo e quitutes, caprichosamente elaborados, foi o pano de fundo para o brinde com champanha. Ah!  Bebida que tradicionalmente é o símbolo do requinte, da sutileza maior ligada, é claro, aos prazeres mais elementares do ser humano! Neste instante todos procuram o anfitrião, e se dão conta de que não estava presente entre eles.

            A “noiva", ao descobrir onde seu companheiro estava por alguns momentos ficou sem saber como agir. Ato contínuo, um dos amigos junto ao cunhado, mais que depressa tomou frente na situação e resolveu ajudar o amigo, deixando-o em forma...

            Assim, o noivo é forçado a deixar o mundo dos sonhos e fantasias, indo lidar com a realidade imediata, que exigia dele certo esforço, já que mergulhara nas delícias da inconsciência...

            Bem humorado, alguns minutos depois, reaparece o noivo, com o olhar sonado, a expressão um tanto amarrotada, é verdade, mas firme e sorridente...

E lá vai ele, acompanhado por sua doce esposa, estourar o champanha, num ato representativo do que haviam vivido há 25 anos atrás.

            Ocorre que ele tenta, tenta, e nada... Não há como conseguir estourar a danada... Mais uma vez o amigo corre em seu auxílio... E nada!  O cunhado, que estava próximo, se junta à mesa e..., nada... A expectativa aumenta... Os convidados em silêncio suspensos aguardavam o momento de comemorar...

            No intuito de quebrar qualquer possível constrangimento, o filho mais velho do casal e um sobrinho, ambos com idade por volta dos 25 anos, assumem a garrafa e. Ploc!  Finalmente há o "espocar", promovendo um brinde alegre e animado!

            Interessante pensarmos que, o elemento que faltava para que a garrafa estourasse... era a juventude!  Hum! Interessante...

            Enquanto me via perdida nessas considerações, minha atenção foi desviada para a cena que ali se desenrolava.

            O casal troca um beijo gostoso, ambos abraçando-se, naquele abraço roliço, onde as formas que compunham a silhueta de cada um, transmitiam o passar do tempo, contando sobre as reservas que a vida propiciara...

            Neste momento, escuto o “noivo" dizer ao ouvido da “noiva".

            - Foi bom para você?

- Tem sido sim... e pretendo que continue assim...

De onde estava, senti meu coração enternecer-se ao captar do que eles

falavam...

            A vida é a construção de uma história, alicerçada na perseverança, determinação, tolerância, boa vontade e. Amor!  Sim, o amor, em sua verdadeira e mais profunda performance. O amor que transcende o sentido poético, a paixão dos sentidos e se consolida no profundo da alma.

            Neste momento, meus olhos cruzaram-se com o olhar de meu amigo, e numa cumplicidade própria dos que já se conhecem há algum tempo, partilhamos a essência do momento...

            Desejei, de coração, que os jovens ali presentes pudessem perceber o recado que a vida nos dava.

            Sim, a juventude é algo belo, desejável, porém é passageiro, fugaz, que se deteriora com o tempo... O sentimento autêntico do verdadeiro amor é perene, intocável e eterno!

            Lembrei-me de um outro “velho” amigo... que dizia:

            Quem tem olhos... Que veja! Quem tem ouvido... Que ouça!

            E ousei complementar em meu pensamento...

            Quem tem coração... Que AME!

Priscila de Loureiro Coelho

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