Priscila de Loureiro Coelho

Aventuras De Um Pedestre

           
            Há coisas que acontecem que não nos esquecemos mais. Por isso sou tão ligada no cotidiano, pois ele é a expressão de nossa vida, das coisas mais próximas de nós e que registra cada época que vivemos, de um modo bem peculiar.

            Penso que todos deveriam estar atentos ao dia a dia, pois é rico em situações dignas de nota; às vezes engraçadas, outras pitorescas, algumas são verdadeiras lições e assim por diante.

            Hoje vou deixar para vocês algo diferente.

            Uma conhecida minha, em tempos de começo de vida, corria muito, e sempre a pé. Não tinha carro na época e curtia com seu bom humor as peripécias diárias como um autêntico andarilho da vida!

            Há poucos dias, conversando com ela, passei algumas horas agradáveis ouvindo suas aventuras de tempos que já se vão. Rimos muito e ao voltar para casa, revia as imagens que foram criadas em minha mente, enquanto acompanhava a narrativa de tão deliciosa pessoa.

            Antes de me deitar naquela noite, sentei-me no computador e deixei que as imagens tomassem forma no mundo das letras.

            Vejam vocês o que foi que surgiu.

Eu e o Pé!

Somos velhos conhecidos

Convivendo em simbiose

Somos até parecidos

... Semelhança por osmose!

 

É ele que me conduz

Aonde vou trabalhar

Sinto ser dele uma cruz

Que ele tem que carregar...

 

Às vezes, um tanto cansado

Recusa-se a me agüentar

Faz uma cera o danado

Querendo um pouco folgar.

 

Meu rítmico de vida é ligeiro

Ele tem que se esforçar

Há um mundo, quase inteiro

Para ele caminhar...

 

Sempre que posso, eu peço

-         Agüente firme amigão

Se não, de repente eu tropeço

E lhe sobra a luxação.

 

Certa vez, em correria

De uma escada escorreguei

Pobre dele, que ironia.

Torceu-se... E eu gritei!

 

Mas no fim deu tudo certo

Confesso que não me importei

Concordo que não foi muito esperto

E eu nunca mais me curei.

 

Assim juntos prosseguimos

Um ao outro escorando

Por vezes nos consumimos

Mas vamos sempre tocando...

 

Toda noite, após a jornada

O descanso merecido!

Sinto-me um pouco culpada

Sentindo-o tão dolorido...

 

E para o consolar

Digo que amanhã sossegarei

Nada me fará andar

Quieta, inerte, permanecerei!

 

Mas ele sabe a verdade

Minha triste condição

Pedestre não tem vontade

Tem mais é que ganhar o chão...

 

Ele enfrenta o inevitável

Com orgulho e seriedade

Este aliado incansável

É minha maior amizade...

 

Se briga comigo ele fica

Indócil sob o calçado

Não dou trato à sua fita

... Mas vou mancando um bocado!

 

Porém dá tudo certo

Voltamos a nos entender

Procuro um banco por perto

... Que possa nos socorrer!

 

Sei que ele é bem teimoso

Rebelde e temperamental

Planta-se numa pose de orgulhoso

... Sempre que eu estou na horizontal!

 

Assim, eu e meu pé

Conformamo-nos com a sorte...

Por isso, se Deus quiser

Nos apoiaremos até a morte!

Priscila de Loureiro Coelho

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