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Quando se fala em solidão, via de regra,
associa-se a sentimentos pouco agradáveis. Por uma questão cultural a
solidão é vista de maneira comprometida como se fosse algo ruim,
destrutivo, restritivo e quase vergonhoso. Por conta disso, podemos
observar a tendência universal em fugir dela, não a admitindo, como se
fosse uma condenação.
É aconselhável quando nos detemos em alguma questão levar sempre em
conta as vantagens e desvantagens do que estamos considerando, ou
estaremos correndo o risco de ser tendenciosos e superficiais em nossas
reflexões.
Acompanhar os movimentos de nossa mente entrelaçados aos movimentos de
nossa emoção, nos permite de maneira única perceber a diversidade de
razões que nos motivam em nosso cotidiano. Ao fazê-lo descobrimos
peculiaridades que acionam nossas escolhas interferindo de maneira
decisiva no curso de nosso destino.
Nossa conduta tem muito a ver com o movimento de nossas idéias, crenças,
conceitos e sentimentos, ou seja, com a qualidade da relação que temos
com a vida.
Resolvi, numa tarde quente e preguiçosa, me dispor a desvendar qual
seria a outra face da solidão; que lado a vida teria encoberto
impedindo-me de perceber a dualidade que dela faz parte?
Interessante como é preciso estabelecer contato direto para que possamos
conhecer algo ou alguém; é imperioso que se observe, que se deixe
interagir para que se possa sentir de maneira direta o objeto de nosso
interesse. A experiência do encontro, do olhar tete à tete, é sine qua
non.
Assim, deixei-me defrontar com a solidão. Trouxe-a para bem perto, não
emitindo nenhum movimento de resistência, nem um julgamento, apenas
colocando-me à sua frente. De início nada aconteceu e de pronto minha
mente, bem treinada em buscar o repertório arquivado em meu
subconsciente, ofereceu-me uma gama de classificação, nomenclaturas,
categorias com uma rapidez e prontidão assustadora, que pela primeira
vez em minha vida, me dei conta do processo do condicionamento. Não como
idéia, mas de fato.
Por uns momentos deixei que o encontro se desse dentro do feitio
habitual, apenas aproveitei para dele me inteirar. Surpreendi-me ao
perceber quão profícua é a experiência da observação direta e passiva, e
por uns segundos me lembrei de um autor oriental Khrisnamurti, que
apregoa sabiamente que, “em alguns momentos de nossa vida a inação é a
ação correta”.
Quando enfim se esgotaram as conjecturas que automaticamente se
apresentaram, resolvi não ceder à sugestão de afastar-me, como se
houvesse resolvido a questão e permaneci junto à solidão. Não permiti
que, como usualmente fazia, se afastasse logo após ser identificada.
Não. Conservei-a junto a mim. Insisti em conservá-la junto a mim.
Não mais me preocupei em catalogá-la em qualquer espécie de
reconhecimento. Limitei-me a olhá-la com os olhos inocentes,
descomprometidos e ávidos em descobrir o que havia à minha frente, como
se esse encontro jamais houvesse ocorrido. Recusando-me a olhar com os
olhos da memória!
Pude perceber que algo acontecia, timidamente a princípio, mas aos
poucos se fortalecendo, ganhando uma certa segurança, uma agilidade
presente nos movimentos livres da energia vital que passeava em minha
consciência.
E, a solidão que me parecia até então antipática e buliçosa, arisca e
com ares de intocável, como por encanto desmantelou-se, abrindo mão de
sua identidade conhecida, permitindo que eu a penetrasse e ela a mim
como se fossemos ambas uma só energia, um só movimento...Uma só
intenção!
Tive a aguda compreensão de estar a sós comigo; não sozinha, não
isolada, mas curiosamente comigo mesma. E o que era surpreendente,
naquele instante, experimentei uma sensação de inteireza como nunca
havia experimentado. A percepção de ser parte do todo neste infinito
cosmo, atingiu-me com tal clareza que tive um sobressalto, ligeiro,
fugaz e que se desvaneceu em segundos.
Há, sem dúvida, distinção entre estar só e estar a sós.
Curioso o que me aconteceu logo em seguida. Uma languidez assolou-me por
completo, provocando em mim deliciosa serenidade. Como num flash captei
vagamente a noção que buscava, estive por alguns segundos apenas, é
verdade, em contato com a obscuridade da solidão, saciando de vez minha
curiosidade, instigando-me a ali permanecer e explorar este
desconhecido.Tudo era singular, tão singelo, tão harmonioso que me
espantei com a incapacidade que tive de tocar a solidão durante toda
minha vida.
Envolveu-me carinhosamente a sensação de pertencer; uma compreensão
instantânea de que jamais, nunca, nem que assim o desejasse poderia
reter. Foi como se um sopro me tivesse atingido trazendo o entendimento
de algo que por tanto tempo ocupou meu espírito sem que houvesse
possibilidade de ser desvendado.
Encantei-me, deixei-me seduzir pela delicadeza com que se me apresentou
a solidão, em sua nova performance e sem que pudesse interferir me
descobri cativa a ela.
Depois desta experiência, percebi que algo se alterou em meu interior de
maneira irreversível...E me senti bastante confortável com esta
compreensão.
Descobrir que habitamos o mundo da relatividade e que, quanto mais
pudermos dela nos familiarizar, melhor será nosso relacionamento com
todos os elementos naturais que nos mantém funcionando nesta dimensão, é
por si só uma aventura que nos conduz à evolução.
Talvez, só talvez, não seja tão importante resolvermos o problema da
solidão. Parece-me que se conseguirmos captar em alguma medida o sentido
mais profundo dela, a natureza desta emoção que não é jamais separada de
nos mesmos, e que, portanto difere do estar só, ouso acreditar que
haverá a possibilidade sim de não mais sofrermos, nos consumirmos,
abrindo brechas para nossa própria destruição por conta da solidão.
Pode ser que descubramos que ela e nossa melhor companhia, desde que
tratada com a atenção que merece.
Priscila de Loureiro Coelho |