"Miss Literatura"
Raymundo Silveira

 

O que mais me impressiona na escritora Vânia Moreira Diniz não é a escrita. Isto não significa deixar de reconhecer a sua qualidade. Se ela não fosse uma excelente autora, há muito tempo já teria desistido. Pois ninguém é capaz de amar o seu trabalho se este não o valorizar. E ela escreve desde criança. É muito fácil, para um artista de verdade, cuidar da própria arte. Não carece sequer de “inspiração” como muita gente erroneamente imagina: basta disciplina; basta aplicação. Isto ela tem de sobra e é reconhecido por todos. Então, reitero: o que mais admiro nela não é a sua arte. Senão o zelo, o empenho e o amor como cuida da arte alheia.

 

Não conheço outro comportamento igual, a não ser entre raros filantropos. Seres predestinados. Homens e mulheres dedicados ao próximo. Não a estou chamando de santa. Não me caberia, nem seria oportuno. Mesmo porque conheço a vida de muitos santos. E nem todos cuidaram dos semelhantes. Do mesmo modo, conheci muitas pessoas altruístas, que sequer acreditavam em Deus. Então, para mim, a Vânia é uma fiel sacerdotisa da Literatura. Dela e dos outros.

 

Não sei se a comparação é de bom gosto. Mas, já lhe disse várias vezes. Assim como gilete é sinônimo de lâmina de barbear; brama, de cerveja; bombril, de esponja de aço; Getúlio de político e Papa, de santidade, o nome Vânia Moreira Diniz é sinônimo de Literatura. Uma afirmação fácil de comprovar e com a qual todos concordam. Então, penso ser mais do que sacerdotisa: seria uma espécie de “Violante do Céu” do século XXI.

 

Parece incrível, porém quem menos se beneficia disso é ela mesma. Quem mais sai ganhando com as suas obras é a própria cultura. Muita gente imagina ser o computador apenas um veículo de divulgação cultural e artística. Não é. É muito mais. A Internet – onde a sua atividade mais se destaca - é um mundo paralelo.  Pelo menos do ponto de vista literário, é um fim em si mesma. Por enquanto, a literatura é uma só. Insistir em dividi-la em real e virtual é mais do que maniqueísmo. É como querer ver um açougueiro separar, com sucesso, gêmeos xifópagos.

 

Depois da cultura, quem mais se beneficia com as realizações da Vânia, são os escritores. Muitas vezes não valorizamos devidamente o que nos dão de graça. Manter um site como o “Jornal Ecos” é apenas uma pequena parcela do seu esforço, mas poderá significar quase todo o prestígio de quem escreve lá. E talvez poucos reconheçam e agradeçam devidamente este imenso favor. A começar por quem escreve este texto.

 

Por último, mas não menos importante, quem mais lucra com o trabalho dela são as escritoras. Até o final da década de 1950 só existia, no Brasil, uma autora conhecida e consagrada: Raquel de Queiroz. Naquela mesma época, uma das maiores e melhores (senão a maior e melhor) bibliotecas cearenses era a do Seminário de Sobral, no norte do Estado, onde estudei interno durante três anos. Apesar dos meus doze, treze e catorze anos, freqüentava-a com alguma regularidade.

 

 É possível que lá existissem livros escritos por mulheres: eu nunca vi. Aliás, naquele tempo, nem me passava pela cabeça que alguma fosse capaz de escrever. E aquilo ficava despercebido, como se fosse uma coisa banal. Uma rotina tão insignificante quanto cortar as unhas. Nem se falava neste assunto. Se uma mulher anunciasse que ia publicar um livro, todo mundo desconfiaria de se tratar de piada. Hoje, graças à Internet e ao trabalho de pessoas como a escritora Vânia Moreira Diniz, as mulheres cada vez escrevem e publicam mais.

 

Terminei falando na escritora e não nos seus dois excelentes livros recém-publicados: “Pelos Caminhos da Vida” e “Pelos Caminhos da Alma”. Fiz isto de propósito. Sobre os livros, já falou muita gente mais capacitada do que eu. Sobre a pessoa da Vânia, duvido que já tenha falado alguém que a admire mais do que eu.

 

Fortaleza 22/07/2005