Acabo de sentir mais uma vez as
propriedades físicas do meu passado. Sem nenhum motivo aparente; sem
nenhuma associação consciente, elas invadiram os meus sentidos como se
fossem, não retratos, não relíquias, não um símbolo qualquer, mas algo
tão real como o próprio ar que respiro, impregnado pelo cheiro das
coisas tangíveis em meu redor. Estou sentindo agora mesmo o cheiro da
bola de couro que meu pai me deu de presente. Até então, só jogava
futebol com bolas de borracha; do tipo daquelas que ao primeiro espinho,
à primeira pedra pontiaguda onde tocasse, murchava como um balão de
aniversário. Quando vi a bola de couro exposta num bazar eu me encantei.
Foi paixão à primeira vista. Naquele tempo ainda não havia, pelo menos
na minha aldeia, aquele tipo de bola a que na década de 1950 chamavam “bola
argentina”que era mais ou menos como estas de hoje em dia. Estou,
agora mesmo, tateando, vendo, cheirando, escutando o atrito conta as
minhas mãos, daquele brinquedo. Tratava-se de um balão, mais elíptico do
que esférico, constituído de vários segmentos costurados uns nos outros,
no qual se inseria outro – este de borracha e a que chamávamos câmara de
ar, a qual se enchia, através de um pito, com aquelas mesmas bombas com
que se insuflavam os pneus das bicicletas. Entre a câmara de ar e a
abertura do balão que a continha, havia uma espécie de manchão, também
de couro. Por fim, a larga abertura era suturada através de correias de
sola que passavam por dentro de orifícios, de modo semelhante ao que
ainda hoje se amarram os cadarços dos sapatos ditos sociais.
Talvez não carecesse citar estes detalhes tão banais, mas fiz questão de
descrevê-los pormenorizadamente apenas para demonstrar que aquela bola
está mesmo aqui comigo neste exato momento. Durante cerca de um
ou dois meses, ela foi o meu único ideal. Não havia outra coisa que me
atraísse. Amanhecia, passava todo o dia e até dormia com ela no
pensamento. Tornou-se uma espécie de “namorada” dos meus dez anos de
sonhos. Até que um dia, meu pai foi ao bazar e a trouxe pendurada pelos
cadarços; nem mandou embrulhá-la para presente. Tive, como todas as
demais crianças, vários momentos de alegria em minha vida: a lembrança
da primeira festa dos meus aniversários; o aparato da primeira comunhão;
as moedinhas que ganhava para aceitar tomar purgantes sem reclamar; a
primeira bicicleta – da qual também às vezes sinto o cheiro -, e até
mesmo a descoberta precoce daquilo que mais tarde ouviria as pessoas
chamarem de “amor”. Contudo, não me lembro de nenhum deles que me
enchesse de tanto prazer como naquela ocasião em que meu pai me entregou
o objeto do meu desejo.
Depois daquilo, almejei muitas outras bolas de couro em minha
vida de jovem e de adulto. Foram tantas vezes que nem sei contar.
Algumas eu consegui, outras, não. Experimentei prazeres semelhantes ao
de ganhar aquele insignificante, mas tão desejado brinquedo: quando me
tornei universitário; quando passei a receber os meus primeiros
salários, frutos do meu trabalho como médico; quando publiquei meus
primeiros artigos científicos em livros e em revistas de medicina;
quando fui aprovado em vários concursos; quando pus meus pés pela
primeira vez nos templos que continham os tesouros da humanidade, enfim,
sempre quando lograva conquistar um ideal há muito tempo colimado e
outros nem sequer sonhados. Há quem diga que o tempo não existe; que é
uma abstração dos homens a fim de medir o tamanho das suas esperanças ou
a extensão das suas saudades; para calcular a distância entre o presente
e o futuro a ser gozado ou entre o presente e o passado já sofrido.
Porém, de uma coisa ninguém duvide: se o tempo não existir realmente,
com certeza alguém enviou em seu lugar, algum substituto encarregado de
cercear, a certa altura das nossas vidas, todas as ilusões quanto a se
vir a ganhar quaisquer tipos de balões.