Raymundo Silveira

Ambivalência

Amanheci me comportando estranhamente. Nunca me senti assim.  Pareço nem ser gente. Não quero ver ninguém, não quero saber o que está se passando lá fora. Sofro muito só por existir, porém não tenho nem um pouco de vontade de morrer. Meus pensamentos são coxos e desfilam, em procissão, mancando diante de mim, zombando da minha aflição, como se fossem os donos do EU e não o contrário. Anseio amar a humanidade mais do que o Homem da cruz, e tenho ímpetos de explodir o mundo em bilhões de fragmentos incandescentes. Já respirei quarenta e cinco primaveras, todavia, jamais fui vítima de conflitos semelhantes a esse. Experimento uma vontade retilínea de vingança oblíqua e um desejo de eunuco para combatê-la, embora não saiba contra quem é dirigida, nem por quê. Alguma coisa me impele a replicar com a mais vil das traições quaisquer benefícios eventualmente recebidos. Existem, dentro de mim, forças terríveis numa luta de vida ou morte. A minha consciência é, por conseguinte, uma mistura confusa de cargas iguais e contrárias se repelindo e se atraindo desordenadamente, como se o meu corpo fosse constituído de átomos e molécula em total desarmonia, porque a energia cinética das suas partículas é incompatível com qualquer tipo de equilíbrio, constituindo um caos tão destrutivo quanto as leis ilegítimas deste universo sem cais... Trato de me retratar à custa de algum esforço, mas uma ex-força misteriosa advinda não sei de onde, desordena o contrário... Quisera poder pelo menos explicar o que sinto. Se não conseguir, vou enlouquecer. Há momentos em que quero estar sozinho no mundo, isolado de qualquer tipo de vida, devida ou indevida... Outras vezes essa mesma idéia me apavora. Quero estar só, mas também detesto a solidão. Sinto um desejo louco de ser amado, e anseio devolver, em feitio de ódio, toda espécie de amor. Quisera receber alguma manifestação de afeto como um beijo, um abraço, uma carícia, apenas para repelir a pontapés quem me acariciar. Alguém para me louvar, admirar, elogiar e, em contrapartida, injuriar essa pessoa. Anelo ferir alguém só para depois reparar a lesão e ser considerado, ao mesmo tempo, um celerado e um herói. Acaba de passar uma ambulância com o alarme funcionando a todo volume. Tive de tapar os ouvidos para não enlouquecer de vez, mas quando se foi, fiquei desejando que as ambulâncias do mundo inteiro viessem desfilar lentamente à minha porta com alaridos de alarmes alarmando. Abro o guarda-roupa. Retiro uma a uma as peças que a criada acabou de pendurar devidamente lavadas e passadas. Levarei de volta para mandar fazer tudo de novo. Serei capaz de matá-la se reclamar. Não vi a criada. Joguei as roupas ao chão, do lado de fora do quarto, e me tranquei por dentro. Ouço-a apanhando cada peça e levando de volta à lavanderia. Há um impulso arrependido de ir ter com ela e pedir, de joelhos, alqueires de perdões.  Como seria maravilhoso poder matar alguém e fazer ressuscitá-lo a seguir. Agora choro e rio. Rio e choro intermitentemente. Do que rio? Do choro imotivado que virá depois. E choro de medo do riso à toa que se seguirá. Estou cansado, muito cansado e não posso me deitar. Já experimentei várias vezes. Logo que me deito uma força zangada me manda ficar de pé. Escrevo isto me sentando e levantando a cada dois minutos. Este conflito obeso me esmaga e não há guindaste capaz de removê-lo. Ergo as mãos postas em postas para os céus, implorando duas míseras pás de paz e recebo uma tonelada de angústias. Sinto pavor do silêncio e odeio o barulho. Grito de desespero. Somente ecos ectópicos ecoam ao longe desmanchando em sons non sense as minhas derradeiras reservas de energia. Não suporto mais este tormento. Neste instante estou tendo um insight. Acabo de deduzir que toda a humanidade se comporta precisamente assim. Todos sentem os mesmos sentimentos que estou sentindo. Apenas longos hiatos e atos intercalados os separam. Então, trago as contradições da condição humana concentradas dentro de mim, a um só tempo. E isto me faz sentir tão infeliz que agora estou pensando seriamente em cometer suicídio pulando deste décimo andar. Mas, como já falei, não quero morrer...

04/10/2005

 http://www.raymundosilveira.net/

  "A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores".
(Julio Cortázar)

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